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Os desafios de uma nova era

Publicado por admin - Tuesday, 1 April 2014

GLOBALIZAÇÃO

Em evento que transmitiu a titularidade da Cátedra José Bonifácio, ex-presidente chileno e ex-chanceler uruguaio falam sobre as mudanças da agenda política na América Latina do século 21

SILVANA SALLES

O ex-presidente do Chile Ricardo Lagos se despediu da Cátedra José Bonifácio com uma mensagem contundente durante uma conferência proferida no último dia 20 de março no Auditório István Jancsó da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, sob o título “Os desafios políticos para a América Latina no século 21”: assim como a Europa se relaciona com o Atlântico como um único bloco, ainda que este inclua uma série de países que não são banhados pelo oceano, também a América do Sul deve se colocar como um bloco nas relações com outros países e regiões do globo. “Se a força do comércio mundial está entre o Atlântico e o Pacífico e nós estamos entre ambos os oceanos, então temos algo a dizer nesta época de mudanças pela qual passa o planeta. Falemos com uma única voz”, afirmou ele.
Lagos considera que os grandes desafios impostos à região hoje estão na organização de um bloco capaz de se colocar nas negociações comerciais e estratégicas com os Estados Unidos e a Europa como um todo coeso. “Não me agrada uma América onde se fala dos países do Pacífico e dos países do Atlântico de forma separada. Parece que voltamos ao Tratado de Tordesilhas”, disse. O ex-presidente chileno propôs também que os grandes temas globais, como a mudança climática, o narcotráfico, a imigração e a arquitetura financeira internacional sejam levados com periodicidade aos fóruns da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), da mesma forma como os países do G-20 se reúnem anualmente para debatê-los.

O ex-chanceler do Uruguai Enrique Iglesias, o reitor Marco Antonio Zago, o ex-presidente do Chile Ricardo Lagos (acima) e o livro lançado no evento da Cátedra José Bonifácio: reflexões sobre o futuro da América Latina

Outro importante assunto tratado por Lagos durante a conferência diz respeito aos desafios que os países latino-americanos terão de enfrentar internamente nos próximos anos. Para ele, o momento atual revela que termina um ciclo que foi muito bom para a América Latina. “Bom porque, na política, havia muito tempo que os sistemas democráticos não eram regra geral, e hoje são. E, na economia, tivemos um período de crescimento grande e sustentável que nos permite dizer que por esta crise não somos responsáveis”, explicou o ex-presidente chileno, citando a crise financeira mundial iniciada em 2008. Ele ressaltou ainda que, junto à democratização e aos êxitos econômicos, a região conseguiu reduzir consideravelmente a pobreza. “Quando 50%, 60% da população vive na linha da pobreza, sua primeira obrigação é crescer. E esse crescimento tem de ser voltado para erradicar a pobreza”, disse.

Mudança de rumo – Mas se temos uma série de indicadores que apontam que a América Latina segue na direção correta, por que falar de um novo ciclo? Como compreender as manifestações de estudantes que tomam as ruas do Brasil, do Chile e da Venezuela? O diagnóstico de Ricardo Lagos é de que houve uma mudança de rumo na agenda política no seio das sociedades. Hoje, há uma sensação de necessidade de alterar o sentido de liderança política. As redes sociais e a crise de representatividade são fatores essenciais para compreender esse questionamento. Assim, o ciclo no qual estamos entrando exige que os governantes atendam às demandas das classes médias por educação e saúde, entre outras questões colocadas pelas ruas. O desafio que se coloca internamente é também no sentido de ouvir as pessoas e garantir a participação popular nas tomadas de decisão sobre infraestrutura.
Ricardo Lagos tem uma longa trajetória acadêmica. Advogado formado pela Universidade do Chile, fez doutorado em Economia na Universidade Duke, nos Estados Unidos, e foi professor visitante do Departamento de Ciência Política da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill. Ao retornar ao Chile após o doutoramento, lecionou na Universidade do Chile e foi nomeado diretor do Conselho Latino Americano de Ciências Sociais. Em 1972, foi indicado ao cargo de embaixador do Chile em Moscou pelo presidente Salvador Allende, mas a indicação nunca foi ratificada pelo Congresso do país. Após o golpe que derrubou Allende, fugiu com a família para a Argentina, onde passou um tempo como secretário-geral da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), e depois mudou-se para os Estados Unidos, retornando à Universidade da Carolina do Norte. Lagos tem, ainda, experiência de trabalho em agências da Organização das Nações Unidas (ONU).
Sua conferência de despedida da cátedra também marcou o final do calendário do projeto USP Conferências, que, ao longo de três anos, reuniu grandes nomes das ciências e das humanidades, incluindo ganhadores do Prêmio Nobel, para conferências transmitidas ao vivo pelos canais de comunicação da Universidade. Joaquim Guilhoto, chefe do Departamento de Economia da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP e coordenador do projeto ligado à Pró-Reitoria de Pesquisa, elogiou o trabalho de Lagos em sua passagem pela Universidade: “A gente costuma dizer que economista não tem muito lado político, mas Lagos mostra que é possível, sim, a um economista ser político e levar progresso ao seu povo”.
O evento marcou o lançamento da coletânea A América Latina no Mundo – Desenvolvimento regional e governança internacional, organizada por Lagos e editada pela Editora da USP (Edusp), que é composta por trabalhos de pesquisadores dos 20 diferentes programas de pós-graduação que integraram o primeiro ano de trabalho da Cátedra José Bonifácio – incluindo artigos de pós-graduandos. Os temas presentes na coletânea são variados: vão de cooperação internacional a urbanismo.

Novo titular – Na mesma ocasião, a Biblioteca Brasiliana recebeu a solenidade de transferência da titularidade da Cátedra para Enrique Iglesias, ex-ministro das Relações Exteriores do Uruguai, ex-presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento e ex-secretário-geral ibero-americano.
Iglesias agradeceu a oportunidade de retornar ao ambiente universitário e se comprometeu a continuar o trabalho iniciado por Ricardo Lagos. Lembrando seus tempos de estudante de Economia na Universidad de la República, em Montevidéu, o ex-chanceler uruguaio parabenizou a USP pela criação de um centro permanente de reflexão sobre a América Latina. “Eu me perguntava, se fosse jovem, qual seria a minha grande preocupação. Nos anos 50 e 60, na universidade, vivi um momento especial em que queríamos construir o desenvolvimento econômico e social. E hoje, quais seriam as coordenadas?”, refletiu.
O novo titular da Cátedra José Bonifácio também ponderou que o mundo vive hoje uma situação em que as instituições estabelecidas a partir de 1945, com o fim da Segunda Guerra Mundial e a fundação da Organização das Nações Unidas, estão sendo questionadas – e que esse questionamento é, em parte, produto da crise financeira. Estaria o mundo pós-1945 em um processo de fragmentação? E qual é o papel da América Latina nesse mundo que está a se fragmentar? “Creio que a pauta da Cátedra, em 2014, seja o foco nas crises de ordem econômica, social e política e o estudo dos possíveis cenários distintos que elas criam”, afirmou Iglesias.
A Cátedra José Bonifácio, ligada ao Centro Ibero-Americano da USP, foi idealizada para trazer à Universidade personalidades de projeção no mundo ibero-americano para ministrar atividades pelo período de um ano letivo. Os convidados coordenam e desenvolvem pesquisas nas temáticas de sua especialidade e realizam uma série de conferências. Fundada no final de 2012, a cátedra reúne estudantes de pós-graduação de diferentes programas, com o objetivo de dar densidade ao debate acadêmico por meio de pesquisas em torno do tema do ano.
Segundo o professor Pedro Dallari, diretor do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP, a homenagem a José Bonifácio é devida por se tratar de uma figura progressista e de forte ligação com a academia, tendo estudado Direito, Filosofia e Matemática na Universidade de Coimbra, em Portugal, antes de firmar-se como “arquiteto da Independência do Brasil e articulador da manutenção do território que hoje nos coloca em posição sui generis na ordem global”.

O encontro na Biblioteca Brasiliana: segundo reitor, Universidade precisa ajudar a pensar soluções para o continente

De acordo com o professor Marco Antonio Zago, reitor da USP, convidar personalidades importantes para pensar o momento político a partir de fatos e informações corretamente apurados faz parte da própria vocação da Universidade. “Cabe-nos, como universidade, sem nenhuma pretensão, ajudar a pensar o momento da América Latina, a nossa situação e como vamos enfrentar os desafios que o mundo nos apresenta nos seus aspectos econômicos, nos seus aspectos políticos, mas, principalmente, nos seus aspectos sociais. Não podemos desprezar aquilo a que estamos assistindo no Brasil e no mundo. Os acontecimentos que temos visto no último ano no Brasil dão continuidade àquilo que ocorreu em numerosos outros países, como Espanha, Estados Unidos e assim por diante”, afirmou Zago, referindo-se às manifestações de junho de 2013, aos numerosos protestos espanhóis contra as medidas de austeridade impostas pela União Europeia aos países do bloco onde a crise financeira é mais grave e a movimentos como o Occupy Wall Street, que marcou o noticiário internacional em 2011, ao lado dos acontecimentos da Primavera Árabe.
O ex-reitor Jacques Marcovitch, que também participou da solenidade, refletiu sobre as semelhanças entre Lagos e Iglesias e as características que os fazem notáveis. “Ambos vêm de países com população relativamente pequena, sensíveis aos riscos e ao custo da inação. Foram muito cedo na vida ao encontro da realidade, não se contentaram apenas com os livros. Nos estudos, partiram de uma disciplina, mas foram alargando sua esfera de conhecimento. São pessoas que conversam com todos, uma lição fundamental em um mundo onde os radicalismos se exacerbam. Não se limitam à retórica; para eles, tudo deve ser mensurável. Cultivam a memória, que é a mentora na construção do futuro, e têm a percepção da governança como ferramenta de poder para obter resultados. Para eles, as contas devem fechar”, disse.