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Fragmentos de Itamar

Publicado por admin - Monday, 14 April 2014

Compositor, músico e poeta, Itamar Assumpção foi “artista do submundo”, ficou na periferia do meio artístico de sua época. Hoje, sua obra recebe reconhecido valor e seus escritos estão compilados em livro

STELLA BONICI

“Não preciso de tudo./ Só preciso de tudo que preciso”. Sensível, simples e romântico, o músico e compositor Itamar Assumpção (1949-2003) não parecia querer muito da vida. Queria apenas o necessário, e escrevia sobre tudo o que sentia. O Instituto Itaú Cultural em parceira com a Editora Terceiro Nome acaba de lançar Itamar Assumpção – Cadernos Inéditos, uma coletânea que reúne textos extraídos de 60 cadernos do compositor, organizados por Serena e Anelis Assumpção, filhas, Elizena, esposa, e Marcelo Del Rio, amigo pessoal do músico.
Itamar Assumpção foi um dos grandes ícones da vanguarda paulista, movimento que aconteceu na cidade de São Paulo entre o final dos anos 70 e o começo dos 90. Parte desse movimento consistia em lançar produções independentes, sem contratos com grandes gravadoras, e, como seguidor do grupo, Itamar cumpriu sua palavra. O músico também foi fundador da banda Isca de Polícia, conhecida por suas letras ácidas e carregadas de críticas, com quem rompeu após algum tempo. Em seguida, formou o Orquídeas do Brasil, mas seu desentendimento com o Isca não durou tanto tempo, e o artista continuou tocando com as duas bandas.
O compositor já fez parceria com grandes nomes, como o poeta Paulo Leminski, e sua lista de intérpretes inclui nomes como Cássia Eller, Rita Lee, Chico César, BNegão, Ney Matogrosso, Zélia Duncan e Tom Zé. O livro, que reúne os textos do artista, mistura a evolução de suas letras musicadas e gravadas, anotações de ideias curtas e soltas que poderiam servir de inspiração para novas músicas, composições inéditas e transcrições de versos e poemas inteiros de amigos e parceiros, que foram musicados, ou não. Junto a isso, seus cadernos ainda têm algumas ilustrações feitas por ele mesmo. “Nele, o leitor tem a oportunidade de conhecer um pouco do senso estético e, principalmente, o processo criativo de um artista igualmente raro na história da nossa MPB”, diz a poeta, tradutora e compositora Alice Ruiz, sua parceira e amiga de 20 anos.
A ideia da obra é que o leitor desbrave o conteúdo das páginas, como se estivesse folheando aleatoriamente os cadernos de Itamar. Por isso, não há índice ou separação por temas entre seu repertório, o máximo que os organizadores fizeram foi consultar amigos e parceiros para haver uma certificação sobre a autoria de seus textos. Antes de dar início às anotações de seus cadernos, o livro traz, além de uma breve apresentação sobre o músico, três textos sobre o compositor. O primeiro, de Mário Bortolotto, explica como Itamar não se importava de ficar no submundo da música – na verdade, ele sabia que lá era o lugar em que deveria estar, e isso não era ruim. Bortolotto também fala de como o músico parecia querer impor sofisticação e real invenção à música popular: “Sua música é pulsante, viva e atualíssima. Uma fúria angelical e uma doçura demoníaca”.
Em seguida, em um anti-índice, Edson Natale, gerente de música do Itaú Cultural, foca a vida pessoal de Itamar, sua relação com São Paulo e sua paixão por orquídeas, além dos cadernos. “Cadernos comuns, daqueles universitários, com capas coloridas… Neles escrevia diariamente. Às vezes uma única letra ou poema ocupava quase todo o volume, que ia ficando magro com as folhas arrancadas”, e onde havia também telefones de amigos, listas de compras, horários de encontros, deixando evidente que aqueles cadernos também funcionavam como calendário e agenda. Por fim, Alice Ruiz, uma das maiores parceiras do compositor, fala sobre o amigo: “Ler essas anotações é entrar no desenvolvimento do trabalho de alguém com grande intensidade poética e percepção suficiente para escolher parceiros entre aqueles que, como ele, tinham um compromisso com o novo, com a ruptura, com a originalidade do pensamento”.
A obra é um misto de poemas bem desenvolvidos com outros que consistem em apenas uma estrofe, quando não em uma linha, abordando os mais variados temas, que vão do amor, ao samba, ao esoterismo, à solidão. São pequenas porções de sentimentos de um homem que se fragmentou em 60 cadernos universitários. É misto de não querer queixar, como em Não Chega a ser um Lamento, “Se bem que nesse momento/ eu esteja pensando muito,/ não chega a ser lamento/ o que sai do pensamento”, a momentos de súplicas amorosas, que viram quase uma queixa, como em Eu Quero Você, “Quero estar com você lá no sertão./ Quero viver com você não ilusão…/ quero ficar com você no coração./ Quero pra sempre você à mão”.

Itamar Assumpção – Cadernos Inéditos,
organização de Anelis Assumpção, Elizena Assumpção, Marcelo Del Rio e Serena Assumpção. (Editora Terceiro Nome/Itaú Cultural, 250 págs., R$ 80,00).