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Uma ética da virtude para o século 21

Publicado por admin - Monday, 5 May 2014

FILOSOFIA

No dia 4 de maio completam-se 110 anos de nascimento do filósofo alemão Josef Pieper, um dos maiores intérpretes modernos dos grandes mestres do pensamento ocidental

ROBERTO C. G. CASTRO

Uma ética baseada não na obrigação de cumprir o dever – que muitas vezes leva à injustiça e à infelicidade – nem na utilidade e na conveniência, tão em voga atualmente, mas na virtude da prudência, em que o indivíduo conhece e pratica livremente a atitude correta. Essa é uma das propostas para o mundo contemporâneo feitas pelo filósofo alemão Josef Pieper (1904-1997), que no dia 4 de maio completaria 110 anos.

O filósofo alemão Josef Pieper em diferentes momentos: "O bem é, antes, prudente"

Nascido na pequena localidade de Elte, perto de Münster, na Alemanha, Pieper foi um dos principais intérpretes modernos dos grandes mestres da tradição de pensamento ocidental – especialmente Platão, Aristóteles, Santo Agostinho e Tomás de Aquino. Baseado nesses pensadores, ele introduziu na filosofia contemporânea o debate sobre a prudência, que desde a Antiguidade grega é definida como a arte de agir corretamente.
Hoje um conceito desfigurado – que designa mais uma certa indecisão ou um cálculo egoísta, à espera do melhor momento para obter vantagens –, a prudência é o cerne da vida moral, segundo Pieper. Ela é aquela capacidade do homem de conhecer a realidade e, com base nela, tomar a decisão certa.
Para o filósofo alemão, a determinação da prudência constitui a antecipação do ato moral bom. Assim como uma obra de arte se faz de acordo com o modelo concebido, antes, no espírito do artista, da mesma forma o ato humano é bom se segue o que for determinado pela prudência – e não pela vontade, ideologia, valores, interesses ou nobres sentimentos. “O bem é, antes, prudente; e o prudente é o que está de acordo com a realidade”, escreve Pieper no Traktat über die Klugheit (Tratado sobre a Prudência).

Universidade – A contribuição de Pieper se estende também à discussão sobre o sentido dessa instituição milenar chamada universidade, que, para o filósofo alemão, está diretamente relacionado com a própria estrutura do ser humano.
Acontece que, segundo Pieper – professor da Universidade de Münster por mais de 50 anos –, o homem é dotado de um espírito que se identifica com “todas as coisas divinas e humanas” e com as quais deve travar relações. A universidade é a instituição que concretiza essa aspiração do espírito humano de conhecer o todo da realidade, com plena liberdade, daí o caráter mais filosófico e menos científico da academia. “Acadêmico quer dizer filosófico; formação acadêmica é formação filosófica; estudar uma ciência de maneira acadêmica quer dizer estudá-la de maneira filosófica”, escreve Pieper em Was heisst Akademisch? (O que é Acadêmico?) – sempre seguindo os mestres do Ocidente.

A casa onde Pieper nasceu, em Elte, com uma placa em sua homenagem: intérprete de grandes pensadores

Pieper ajudou ainda a livrar o pensamento dos filósofos antigos da distorção promovida pelos intérpretes modernos. Tome-se o exemplo de Tomás de Aquino (1225-1274). Durante séculos, o maior filósofo medieval foi visto como um pensador racionalista, com respostas cabais para todos os problemas da existência. Pieper mostrou que, pelo contrário, Tomás reconhece os limites da razão humana, a ponto de afirmar que “as essências das coisas nos são desconhecidas”. Por isso, o homem não pode ter clareza absoluta em suas ações – daí a necessidade de se guiar pela virtude da prudência.

Verdade das coisas – Em seus livros, Pieper expõe a rara qualidade de abordar os mais profundos aspectos da existência de forma simples, clara e objetiva. É o que faz, por exemplo, em textos como Wahrheit der Dinge (Verdade das Coisas) – em que defende que todas as coisas são boas e verdadeiras em razão de seu caráter de criatura – e Die Wirklichkeit und das Gute (A Realidade e o Bem), sobre as relações entre esses dois conceitos. “Por vezes Pieper enfrentou resistência nas universidades alemãs justamente porque não escreve de forma complicada, o que não é comum no meio acadêmico”, afirma o professor Berthold Wald, diretor do Josef Pieper Arbeitsstelle (Centro de Estudos Josef Pieper), instalado na Theologische Fakultät Paderborn, na Alemanha. Wald é o editor das obras completas de Pieper, publicadas em 11 volumes pela Editora Felix Meiner, de Hamburgo.

A Theologische Fakultät Paderborn, na Alemanha, e o professor Berthold Wald, editor das obras completas de Pieper, em 11 volumes: linguagem simples

No Brasil, o pensamento de Pieper é estudado e divulgado desde os anos 80 pelo professor Jean Lauand, da Faculdade de Educação da USP. Lauand é autor da primeira tese de doutorado sobre o filósofo de Münster, publicada em 1987 pela Editora Perspectiva com o título O que é uma universidade? – Introdução à Filosofia da Educação de Josef Pieper. “Pieper mostra que filosofar é abrir-se para o todo da realidade e manter esta indagação a respeito do objeto de estudo, qualquer que seja ele: ‘O que é isto, em si e em suas últimas razões?’”, finaliza Lauand.