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Bons exemplos compartilhados

Publicado por admin - Monday, 26 May 2014

EDUCAÇÃO

Seminário do Ciência Web, em São Carlos, reúne iniciativas positivas de escolas públicas com realidades distintas, mas um resultado em comum: o sucesso de seus alunos

THAÍS CARDOSO

De São Carlos

Seis escolas públicas de diferentes realidades provaram no dia 15 de maio que é possível motivar os alunos e obter excelentes resultados mesmo com os problemas que a educação enfrenta atualmente. O grupo participou do 3º Seminário do Ciência Web, realizado pelo Instituto de Estudos Avançados Polo São Carlos da USP. O evento procurou também fazer um debate sobre a qualidade do ensino público.

“Há uma abusiva generalização da ideia de má qualidade do ensino público. Muitas coisas boas são feitas em escolas em todo o País. Em São Paulo, por exemplo, existem cerca de 5,8 mil escolas públicas, e posso dizer que conheço umas cem muito boas. Quando agimos como se nada prestasse, desmobilizamos, subestimamos essas escolas boas”, afirma o docente da Faculdade de Educação da USP Nilson José Machado, um dos palestrantes do evento.

Ele destacou ainda que a condição de trabalho do professor é o ponto nevrálgico da situação atual do ensino público. “É preciso dar uma melhor condição, mas exigir muito mais também. O professor é um profissional, assim como o médico. Não é porque o médico não está recebendo o salário em dia que ele vai tratar mal o paciente ou passar uma receita errada.”

O Seminário do Ciência Web, em São Carlos: educação pública de qualidade

Superação – Cidades pequenas, de economia rural, de famílias com condição financeira pouco favorável, mas cujas escolas são recordistas de premiações na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep). Essa é a realidade da Escola de Ensino Médio Augustinho Brandão, de Cocal dos Alves, no Piauí, e da Escola Estadual Terezinha Pereira, de Dores do Turvo, em Minas Gerais.

“Aqui há um processo interessante: as pessoas conseguem mudar suas vidas graças ao conhecimento. Os alunos que entram nas universidades públicas sobrevivem com uma bolsa de R$ 400,00, que ganham graças ao bom resultado da Obmep. Por isso, a olimpíada é meta de todos os alunos. Temos até o caso de um ex-aluno medalhista que está terminando o doutorado na Espanha para voltar e implantar em Teresina uma modalidade de educação que não existe no Estado”, conta a diretora da Escola Augustinho Brandão, Aurilene Vieira de Brito.

“A diferença está no trabalho que você faz, a parceria, o compromisso que você estabelece com aqueles alunos. A gente trabalha com responsabilidade: o dia a dia na sala de aula procura estimular o aluno e tirar dele o máximo que ele pode. Se o aluno não é bem preparado, não adianta prepará-lo em um mês, ele não vai produzir resultados. A gente também não muda drasticamente a rotina porque a escola começou a ter sucesso”, afirma o professor Geraldo Amintas de Castro Moreira, da Escola Terezinha Pereira.

Sucesso – Com uma estrutura muito diferente e localizados em municípios com boa condição financeira, o Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Viçosa (MG) e o Colégio Militar do Rio de Janeiro, escolas federais, também apresentaram suas histórias de sucesso no seminário. O papel do professor foi bastante destacado.

“A primeira coisa para mudar a realidade da educação brasileira, e que funciona muito bem em nosso colégio, é a dedicação exclusiva do professor. Ele só trabalha naquela unidade e recebe para isso. Tem tempo para estudar, pesquisar, atender alunos, fazer qualquer outra atividade. A carga horária média do nosso professor é de 12 aulas por semana”, diz o diretor do Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Viçosa, Hélio Paulo Pereira Filho. A escola foi a mais bem avaliada entre as públicas no Enem em 2012.

Conhecido pela disciplina exigida dos alunos e pela tradição no ensino, o Colégio Militar do Rio de Janeiro mostrou que os valores morais transmitidos aos estudantes colaboram no aprendizado. “Queremos que ele faça parte da sociedade, que participe de projetos sociais. Os alunos são incentivados a ter um respeito muito grande pelos mais velhos. É impensável um aluno ter um gesto de descortesia com o professor. Não há agressão verbal nem física. Isso não faz parte da mentalidade do aluno, pois há um sinal claro de desaprovação entre os próprios colegas”, afirma o capitão Paulino Gaspar dos Santos Pereira, professor do colégio.

Embora a imagem popular do Colégio Militar seja a de uma instituição feita para não formar cabeças pensantes, Pereira diz que ocorre o contrário. “A gente quer, sim, formar alunos que pensam. Temos ex-alunos que estão se graduando em universidades estrangeiras e entraram pelo processo seletivo normal dessas instituições, com apoio da Fundação Fulbright. Há até o caso de um aluno que está fazendo mestrado no Instituto de Matemática Pura e Aplicada sem ter terminado ainda o ensino médio conosco.”

A Escola Augustinho Brandão, em Cocal dos Alves (PI): estímulos ao aluno

Estrutura – Representando o Estado de São Paulo, a Escola de Ensino Fundamental Médio e Técnico Professora Maria Theodora Pedreira de Freitas, de Barueri, e a Escola Municipal de Ensino Fundamental Leandro Klein, de São Caetano do Sul, mostraram que estrutura física adequada e grupos de estudos motivam o estudante.

“Numa das reuniões, percebemos que era necessário fazer algo pelos alunos que sabiam muito e tinham até problemas de comportamento por isso. Assim, criamos um grupo de estudos avançados. O objetivo é instigar: eles participam de atividades, fazem pesquisas de campo, interagem com os colegas. Às vezes, na sala de aula, o professor não consegue ter esse olhar diferenciado”, conta a diretora da EMEF Leandro Klein, Antonieta Aparecida de Simone Rodrigues.

Administrada por uma autarquia municipal, a EEFMT Professora Maria Theodora Pedreira de Freitas investe em uma condição especial para os professores. “Você trabalha dois terços da carga em sala e o restante, na preparação de atividades. Esse diferencial ajuda. No tempo extra, é possível dar a atenção necessária ao aluno. Outra questão é o salário, bem diferente da rede estadual. Isso atrai bons professores”, conta o professor Odimar Gondim de Albuquerque.

Todas as palestras do 3º Seminário do Ciência Web serão disponibilizadas na íntegra, em breve, no site www.cienciaweb.com.br.