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Reflexões de Salman Rushdie

Publicado por admin - Monday, 26 May 2014

EVENTO

Em conferência realizada em São Paulo, o escritor britânico afirma que o propósito da grande literatura é “abrir o universo” e ampliar o que se pode conhecer, pensar e imaginar

PAULO HEBMÜLLER

O ser humano é a única espécie sobre a face da Terra que faz essa coisa “bastante estranha” que é reunir-se para contar histórias, disse o escritor Salman Rushdie à plateia que lotou o teatro do Complexo Ohtake Cultural, em São Paulo, no dia 14 de maio, na abertura da série de conferências Fronteiras do Pensamento de 2014 – e Rushdie então contou várias histórias aos que se reuniram para ouvi-lo. Numa delas, lembrou de uma jovem que lhe disse, na Universidade de Delhi, na Índia, que havia lido por inteiro um de seus romances, apesar de ser “bastante longo”. A seguir, a moça perguntou: “Fundamentalmente, qual é o seu propósito?”. Rushdie respondeu então que, como de fato se tratava de um romance longo, não precisava ter apenas um propósito. “Eu não sabia como responder a isso. Provavelmente, se há um propósito em meu trabalho, é o de abordar o ponto em que a história e o indivíduo colidem, em que a grande narrativa e a grande história de nosso tempo se encontram com a pequena história de nossa vida individual”, completou.

O próprio Rushdie é testemunha e vítima dessa colisão: em 1989, seu livro Os versos satânicos despertou a ira de fundamentalistas islâmicos que se disseram ofendidos pelas referências ao profeta Maomé. O aiatolá Khomeini, líder supremo do Irã na época, emitiu uma fatwa (espécie de sentença religiosa) exortando fiéis do mundo inteiro a matar o autor. O editor norueguês do livro foi baleado, o italiano foi esfaqueado e o japonês, assassinado. O autor, que vivia em Londres, passou a viver na clandestinidade e sob proteção policial por vários anos, experiência relatada no livro Joseph Anton – Memórias.

Na conferência, o escritor – nascido na Índia, com formação na Inglaterra e atualmente residente em Nova York – defendeu que nossa identidade em boa parte é definida pelas histórias que nos contam, seja na família ou nas narrativas religiosas e nacionais. “O mais importante dessas histórias é que elas não são gravadas em pedra. Conversamos sobre elas, discutimos sobre elas e podemos mudá-las. Essa é uma das formas de definir liberdade: uma sociedade livre é aquela em que podemos discutir e alterar as histórias de nossa vida”, acredita. “Numa sociedade autoritária, uma das primeiras coisas que acontecem é que quem está no poder procura controlar as narrativas. Eles nos falam que não temos permissão para dizer as coisas somo são. Eles é que nos dirão como as coisas são e como pensar e falar sobre elas. Se não pensarmos e falarmos o que eles querem, virão atrás de nós e nos causarão problemas.”

A referência à perseguição ao seu romance ficou clara na observação que se seguiu: “Isso tem a ver com a questão de quem tem o direito de contar as histórias e em que língua elas podem ser contadas: apenas na linguagem reverencial e aprovada pelos sacerdotes ou numa linguagem coloquial, cômica, da forma que o escritor quiser?”

Salman Rushdie em São Paulo: "Se há um propósito em meu trabalho, é o de abordar o ponto em que a história e o indivíduo colidem, em que a grande narrativa e a grande história de nosso tempo se encontram com a pequena história de nossa vida individual"

Além das explosões – Na “grande era” dos romances, os séculos 18 e 19, apontou o escritor, uma das funções atribuídas à literatura era levar às pessoas informações e notícias às quais de outra forma elas provavelmente não teriam acesso – e algumas vezes os livros revelavam situações que tinham consequências sociais diretas. Outra história lembrada por Rushdie foi a que conta que certa vez, ao encontrar a escritora Harriet Beecher Stowe, autora de A cabana do Pai Tomás, o ex-presidente americano Abraham Lincoln teria dito, referindo-se à Guerra Civil Americana (1861-1865): “Então a senhora é a pequena mulher que começou essa grande guerra”.

Na atualidade, uma das razões para que exista um crescente conflito entre o poder e a literatura é que a distância que separava a esfera da política, da história e das questões públicas da esfera da vida privada – que costumava ser considerável – diminuiu tanto que é como se não existisse mais. “A literatura está se tornando o melhor lugar para encontrar uma explicação para o mundo”, diz. “Onde realmente se conhece a verdade sobre lugares como Paquistão ou Afeganistão não é nas notícias, mas na literatura que vem de lá. A mídia não nos oferece compreensão, só os crashs e bangs das explosões.”

Rushdie citou ainda como exemplos de sua tese o livro de Adam Johnson sobre a Coreia do Norte, The orphan master’s son, vencedor do Prêmio Pulitzer de 2013 (“que nos coloca dentro do mundo insano do país de forma que nenhuma reportagem que eu tenha lido conseguiu”), e a coletânea de contos Redeployment, histórias baseadas na experiência de seu autor, Phil Klay, ex-fuzileiro naval, como soldado no Iraque.

Há algo na arte do romance, afirma Rushdie, que quer permanecer circunscrito à vida privada e olhando apenas para o interior dos personagens – mas, num mundo em que não se pode mais viver em bolhas e a história de um lugar está conectada com a dos outros, desafia-se a noção do grego Heráclito segundo a qual o caráter de um homem é o seu destino. Crises econômicas, atentados ou conflitos internacionais podem influir enormemente nos destinos individuais, e os escritores têm tido que lidar com isso também. O próprio Rushdie o fez em seu livro Shalimar, o equilibrista, em que queria explorar a conversão de um jovem agradável em terrorista.

“A grande escala não é suficiente como explicação para a nossa vida. O caráter ainda determina nossas escolhas”, afirma. “Isso faz com que a arte do romance, que explora o caráter e conta histórias através da escala humana, ainda seja um caminho muito importante de compreensão da cosia que estão ocorrendo em nosso mundo.”

Desafiar fronteiras – Outra coisa que o romance sempre soube, para Rushdie, é que somos muitas identidades ao mesmo tempo – como diz o verso que citou do poeta Walt Whitman: “Eu me contradigo? Pois muito bem, eu me contradigo. Sou amplo, contenho multidões”. Enquanto a literatura tenta nos falar sobre essa verdade, o mundo trabalha para que a esqueçamos, diz. “O problema é que quanto mais estreita a definição de nós mesmos, menos terreno comum teremos com as outras pessoas e mais dissensão haverá entre nós.”

Em seu romance Dezembro fatal, Saul Bellow descreve uma cena na qual um professor universitário norte-americano, de passagem na Bucareste dos tempos da ditadura de Nicolae Ceuausescu, olha pela janela e vê um cachorro latindo insistentemente numa praça cuja desolação ficava ainda mais evidente no inverno. O professor decide então que o que o animal está tentando fazer é protestar contra a limitação da experiência de ser um cachorro – e dizendo: “pelo amor de Deus, abra um pouco mais o universo”.

Para Rushdie, essa é a melhor descrição que se pode fazer do propósito da grande literatura e da grande arte: tentar abrir mais o universo, aumentar um pouco mais o que entendemos, conhecemos, pensamos e podemos imaginar. Para fazer isso, é preciso abandonar a ideia de ficar sentado tranquilamente e desafiar fronteiras. Escritores têm feito isso desde o começo dos tempos, aponta: Ovídio foi banido de Roma pelo imperador César Augusto; Osip Mandelstam foi mandado ao exílio por Stalin e morreu num campo de trabalhos forçados; García Lorca foi assassinado nos primeiros tempos da Guerra Civil espanhola – mas a poesia de Ovídio sobreviveu ao Império Romano, assim como a de Mandelstam sobreviveu à União Soviética e a de García Lorca é mais longeva do que a ditadura franquista.

“É um paradoxo interessante. De um lado a literatura aparenta ser muito poderosa e, no longo prazo, parece ser capaz de resistir aos mais poderosos do planeta”, disse Salman Rushdie na conclusão de sua conferência. “A literatura vai sobreviver, os escritores nem tanto. Eles são muito mais fracos do que a literatura que criam e estão frequentemente sob risco, às vezes com consequências trágicas, nesse trabalho de empurrar as fronteiras e abrir o universo. Mas todos os escritores dignos desse nome que eu conheço responderiam, se perguntados, que apesar dos riscos esse é o trabalho a fazer.”

“Os livros duram para sempre”

Liberdade de expressão foi um dos temas da sessão de perguntas da plateia ao escritor, mediada pelo jornalista Silio Boccanera, da Globonews. Para Rushdie, como dizia o ex-presidente dos Estados Unidos John Kennedy, a liberdade é indivisível: ou ela existe ou não. “É muito fácil reconhecer a diferença entre um lugar em que existe liberdade de expressão e outro em que não existe. Visitei Berlim quando a cidade ainda estava dividida entre as partes oriental e ocidental, e quando se cruzava o Muro você saía de uma cidade pulsante, criativa e rica e entrava num lugar estrangulado e silencioso. Não poderia haver definição melhor da diferença entre a liberdade e a não liberdade”, afirma.

Outra pergunta questionava se Rushdie via algum paralelo entre a perseguição que sofreu e o caso de Edward Snowden, ex-funcionário da CIA e da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos que vazou dados secretos da espionagem norte-americana e está asilado na Rússia. Para Rushdie, a ação de Snowden tem benefícios e problemas: as revelações fizeram com que o governo do presidente Barack Obama revisasse os procedimentos nos sistemas de vigilância eletrônica. “Porém, o que me preocupa é ele estar sentado no colo de Putin”, diz. “Putin não está perguntando nada a um espião americano que vive em sua própria cidade e sabe tanta coisa sobre os Estados Unidos que pode ser danosa para eles e útil para a Rússia?”

O autor de Os versos satânicos relatou ainda que “foi incrivelmente importante” saber que havia escritores e outras falando em sua defesa após a decretação da fatwa por Khomeini. Quando passou a viver de forma mais livre e sem tanta preocupação com a segurança pessoal, sentiu a necessidade de fazer o mesmo esforço por outros escritores, e tem se engajado em campanhas em associações nos Estados Unidos e na Inglaterra.

Em relação ao seu próprio caso, o apoio público de intelectuais como o alemão Günter Grass ou a norte-americana Susan Sontag foi importante – mas uma das ações mais úteis foi a do também norte-americano Stephen King, avalia. Alegando ameaças de ataques às suas lojas, e invocando inclusive riscos aos seus funcionários, grandes redes de livrarias dos Estados Unidos retiraram Os versos satânicos das prateleiras. Os vendedores então acusaram os patrões de usá-los como desculpa. King ligou pessoalmente ao dono de uma rede, disse que havia lido o livro e gostado dele, e que era um erro deixar de vendê-lo. O escritor disse que, se as lojas continuassem a fazer isso, deveriam retirar também os seus livros das lojas, e afirmou ainda que conversaria com outros autores best sellers, como Danielle Steel, Barbara Taylor Bardford e John Grisham, para que fizessem telefonemas com o mesmo teor. As grandes livrarias finalmente recuaram. “A defesa dos escritores mais populares dos Estados Unidos fez muito mais do que a dos mais conceituados”, acredita.

O futuro da literatura: para Rushdie, livro é "tecnologia resiliente e durável"

Rushdie falou também sobre Gabriel García Márquez, a quem qualificou num artigo na imprensa inglesa, logo após a morte do colombiano, como “o maior de todos nós”. Na sua opinião, Cem anos de solidão é o melhor romance publicado no mundo no último meio século. Em relação ao futuro da literatura com as novas tecnologias, se mostrou esperançoso de que ainda surgirão expressões literárias que funcionem na internet e que serão específicas dos meios eletrônicos. No momento, boa parte do que existe é lixo, definiu. “Crepúsculo começou como ficção para os fãs na internet, e poucas coisas podem ser piores do que essa série. Bem, há 50 tons de cinza, que fez o mesmo caminho…” Para o escritor, os artistas visuais estão muito à frente na exploração das novas possibilidades.

“Se for mais fácil para as pessoas lerem e-books, que leiam, porque as formas podem mudar. Mas os números mostram que, depois da explosão inicial, as vendas de e-books se estabilizaram e representam uma porcentagem do mercado. Ou seja, ainda há um desejo de muitos leitores em ter um livro e levá-lo para qualquer lugar”, considera. Para Rushdie, o fim do livro vem sendo previsto praticamente desde o seu surgimento, mas ele “é uma tecnologia que tem se mostrado muito resiliente e durável”. “Jogue um computador na água da praia e ele está morto. Se você jogar um livro, seus dados estão preservados e, depois de uma secagem, estão acessíveis novamente. Você pode ler um livro impresso no século 16, mas não pode usar um computador depois de vinte anos. O que é um disquete? Você ainda tem algum? Tem onde ler suas informações?”, continua. “Computadores são equipamentos transitórios. Os livros vão durar para sempre.”