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Um universo chamado direção de arte

Publicado por admin - Monday, 26 May 2014

Projeto da casa da bruxa Tomasa, de A Marvada Carne: conceitos abstratos

CINEMA

Escrito pela professora da ECA Vera Hamburger, livro discute a cenografia na produção cinematográfica brasileira

IZABEL LEÃO

Pela primeira vez no Brasil, o trabalho do diretor de arte é retratado em livro. Arte em Cena – A direção de arte no cinema brasileiro, escrito por Vera Hamburger, professora da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, fala de algo que nasce com o cinema brasileiro, há mais de cem anos, mas que só há pouco tempo foi nomeado: a direção de arte.

A cidade cenográfica de Tico-Tico no Fubá, de Adolfo Celi (acima), e figurinos e projeto do castelo de Castelo Rá-Tim-Bum: atenção especial aos elementos visuais

Fruto de pesquisa e reflexão sobre a experiência prática da autora como cenógrafa e diretora de arte, o livro é enriquecido com depoimentos de quatro experientes cenógrafos e diretores de arte da atualidade, por meio dos quais delineia importantes momentos da evolução dessa atividade no Brasil. Pierino Massenzi, Clóvis Bueno, Marcos Flaksman e Adrian Cooper trazem para discussão conceitos fundamentais à atividade, ao mesmo tempo em que apresentam o seu processo de trabalho, abarcando o período de 1954 aos anos 2000.

Ilustrado por mais de 600 imagens, desenhos, croquis de projetos e fotografias de construção e de cenas das etapas de criação e realização de vários projetos cenográficos e artísticos, o livro revela os desafios e soluções encontrados por esses profissionais.

Para o cineasta e também professor da ECA Carlos Augusto Calil, que assina o prefácio do livro, o valor da obra de Vera Hamburger é inédito num país que despreza as regras do fazer e onde tudo se improvisa. “A autora faz uma autorreflexão em que questiona quem somos e o que fazemos, nós, cenógrafos e diretores de arte”, escreve.

No livro, Vera afirma que o projeto nasceu de uma necessidade pessoal de compreender a amplitude de sua própria atividade profissional, diante da escassa bibliografia e dos raros cursos específicos sobre o tema. “Compõem o livro uma reflexão das principais matérias e os instrumentos implicados em sua elaboração, o processo de criação e desenvolvimento dos projetos, aspectos da organização da equipe e as relações que se estabelecem entre os profissionais envolvidos em sua realização”, explica.

Narrativa – O primeiro capítulo discute, de forma didática, os principais conceitos envolvidos na construção da visualidade e espacialidade cinematográfica, as fases de um projeto e os parâmetros de convivência de uma equipe de trabalho. “O que une uma equipe de produção de cinema é a criação de um universo visual, rítmico e sonoro especial, que ofereça ao espectador a vivência de uma narrativa”, analisa Vera Hamburger.

Na segunda parte são apresentados os depoimentos colhidos com colegas de profissão da autora, que vivenciaram a formação e a estruturação da função da direção de arte no País.

Cenas de Pixote e A Marvada Carne: livro mostra a essencial contribuição da direção de arte para o cinema

Pierino Massenzi, um dos mais experientes cenógrafos da fase áurea dos grandes estúdios – atuante entre os anos 1950 e fim dos anos 1960, principalmente nos estúdios da Companhia Cinematográfica Vera Cruz –, conta que se preocupava em criar um cenário completo, com todos os movimentos, onde o diretor ficasse livre para construir melhor a cena e o ator se sentisse à vontade e pudesse, inconscientemente, interpretar o seu papel num ambiente adequado à história.

No filme Tico-Tico no Fubá, de Adolfo Celi, Massenzi construiu a primeira cidade cenográfica da América do Sul. Ele lembra que as vistas das janelas da prefeitura da cidade, por onde se vê a igreja e outros edifícios, foram construídas em maquete de gesso em perspectiva.

Pixote, a Lei do Mais Fraco, teve cenários e figurinos desenvolvidos por Clóvis Bueno. “Nesse filme, cada coisa era consequência de alguma outra, não um gesto isolado. A cor das coisas e a cor da luz se somam o tempo todo – na harmonia ou no contraste”, comenta.

Foi Bueno quem desenvolveu toda a cenografia do Castelo Rá-Tim-Bum, o Filme, do qual o livro traz os esboços em lápis da parte externa e interna do castelo. “Do ponto de vista da direção de arte, esse foi um filme bem elaborado. Os 6 mil anos de história somados ao mundo da magia e da ciência, nas dimensões de um castelo de verdade, davam um caráter especial a todos os elementos visuais.”

Garota de Ipanema, Brasil Ano 2000 e Os Sete Gatinhos foram alguns dos filmes em que Marcos Flaksman projetou, fez as maquetes e desenhou o figurino. “O que manda a cada opção é o que você quer falar naquele momento – o caráter do personagem, da cena ou do lugar. O nosso papel, quando concebemos o desenho de um filme, é considerar isso tudo junto.”

“Um filme só funciona na medida em que o diretor, o diretor de arte e o diretor de fotografia mantenham esse tripé sólido. Essas três pessoas lidam com conceitos bastante abstratos e o entendimento entre elas é fundamental para que todos estejam fazendo o mesmo filme. Cada um dá, a partir de sua perspectiva, elementos absolutamente essenciais”, observa Adrian Cooper, o último entrevistado do livro. Dentre suas produções cenográficas estão os filmes A Marvada Carne, Sonho sem Fim e O Judeu.

Arte em Cena – A direção de arte no cinema brasileiro, de Vera Hamburger, Editora Senac São Paulo e Edições Sesc, 240 páginas, R$ 218,00