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Botas e canhões contra a música e a poesia

Publicado por admin - Monday, 29 September 2014

DEBATE

Especialistas discutem na FFLCH os efeitos do golpe militar de 1964 sobre a cultura brasileira

No decorrer de três dias, pesquisadores e professores da USP e de outras universidades do País refletiram sobre “O Golpe de 1964 e a Cultura Brasileira”, tema do seminário realizado de 17 a 19 de setembro na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. O evento reuniu especialistas em cinema, literatura, teatro, poesia, televisão e música.

Organizado pelos professores Augusto Massi, Luiz Roncari e Priscila Figueiredo, do Programa de Pós-Graduação em Literatura Brasileira da FFLCH, o evento reconstruiu o ambiente cultural, político e social da década de 1960. “Até hoje a natureza, o alcance e as implicações da ditadura civil-militar instaurada no País com o golpe de 64 não foram devidamente esclarecidos, apesar do esforço de alguns pesquisadores, que procuraram com coragem investigar suas mais diversas dimensões ou aspectos”, afirmou o professor Renato Franco, da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp. “Essa insuficiência parece ter raízes em uma espécie de aceitação mais ou menos resignada, por boa parte das ciências humanas, da concepção institucional de anistia, já que esta, concebida como fundamento político necessário para a concretização da transição democrática, exigiu de todos os setores sociais completo e radical esquecimento do passado recente.  Isso significa que tal concepção não requer uma assimilação consciente do passado, mas seu recalcamento.”

Música, teatro e cinema: obras de rara inspiração em plena ditadura

Franco ressalta que tal supressão do passado nega as atrocidades da nossa história, transformando-a em um não-acontecimento. “No entanto, paradoxalmente, ela não nos liberta do passado. Ao contrário, nos torna cativos da carga de barbárie que ele carrega. Nessa direção, a construção efetivamente democrática necessita de um movimento diverso. Exige o reconhecimento público e cidadão das catástrofes advindas do período ditatorial, requer o reconhecimento dos assassinatos coletivos, dos massacres dos humilhados e ofendidos, da prática da tortura sádica contra vítimas indefesas.”

Na avaliação do professor, só o conhecimento irrestrito do passado pode ajudar a não repetirmos no futuro a barbárie que um grupo social foi capaz de perpetrar na história do País.  “Nesse sentido, o seminário proposto e organizado pela USP, fruto da coragem civil de alguns pesquisadores, é positivamente decisivo.”

Continuidades – Para Roberto Schwarz, crítico literário e professor de Teoria Literária da USP e da Unicamp, “muita coisa mudou”. Porém observa: “Mas há continuidades como a repugnância de setores de elite pelo povo e por suas necessidades”.

Schwarz apresentou o livro Martinha versus Lucrécia, lançado pela Companhia das Letras, que reúne trabalhos críticos sobre o escritor Machado de Assis, o poeta Francisco Alvim e o filósofo Theodor Adorno. O debate, no entanto, destacou o ensaio sobre a autobiografia Verdade Tropical, de Caetano Veloso.

Também o professor Ismail Xavier, do Departamento de Cinema da Escola de Comunicações e Artes (ECA), fez uma análise sobre a trajetória do cinema brasileiro. Destacou São Bernardo, dirigido por Leon Hirszman, sobre a obra do romance homônimo de Graciliano Ramos, e Os inconfidentes, de Joaquim Pedro de Andrade, como importantes peças de resistência do Cinema Novo pós-1968.

O Professor Emérito da FFLCH Alfredo Bosi traçou um panorama geral sobre a cultura brasileira na década de 1960, destacando a música, o cinema, o teatro e a educação (leia o texto abaixo).

As tensões entre política e cultura

Em sua palestra no seminário “O Golpe de 1964 e a Cultura Brasileira”, o Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP Alfredo Bosi lembrou a necessidade de distinguir as dimensões teóricas e as dimensões práticas da história dos homens. “Fazer crítica literária, como empreender qualquer atividade que leve ao conhecimento, é um esforço de pensamento que tem a sua dinâmica própria, sua história interna, enfim, suas múltiplas e contrastantes trajetórias dentro da cultura. Fazer política, quando se trata de dar golpes, civis e militares, como o de 1964, é exercer o domínio da vontade de poder com seus instrumentos próprios, violentos e todos voltados à dominação de indivíduos e classes inteiras.”

Bosi fez um paralelo da “ideologia” do golpe de 1964 com a trajetória da cultura. “Na crítica procura-se generosamente a luz da verdade, a adequação da palavra à melhor percepção do real, a seus signos ou, no caso da crítica de arte, à intuição dos labirintos do imaginário. Na guerra ideológica, persegue-se a eficácia, o triunfo a qualquer preço, a sujeição ou morte do adversário, cujo espaço vital se quer conquistar.”

Bosi ressaltou que, no universo do pensamento crítico, as contradições são acolhidas, ponderadas, incorporadas e dialetizadas. Já no universo dos lances políticos, o outro tem que ser domado ou, quando rebelde, anulado. “De um lado, vontade de verdade; de outro lado, vontade de poder. O direito é, nesse universo, a máscara da força. A frase de Pascal diz melhor: “Como não se pode dar força ao direito, chamou-se direito à força”.

Alfredo Bosi: panorama dos anos 60

Resistência – Bosi traçou um panorama geral sobre a cultura brasileira na década de 1960. Destacou a fundação dos Centros Populares de Cultura (CPCs) e a música de protesto que marcou os festivais ocorridos entre 1966 e 1969, com a participação de Chico Buarque de Holanda, Caetano Veloso, Geraldo Vandré, Edu Lobo e Gilberto Gil, entre outros artistas que foram perseguidos pela ditadura.

Também citou o cinema de Cacá Diegues e Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra e Glauber Rocha. “Cinema que dava, com diferenças de estilo, um contundente recado revolucionário.” E apontou o Teatro de Arena com o êxito, desde 1958, de Eles não usam black-tie, de Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri – uma dupla que apresentou outras peças igualmente importantes, como A revolução da América do Sul, de 1960, Arena conta Zumbi, de 1965, com música de Edu Lobo, e Arena conta Tiradentes, de 1966. “Entram para o primeiro plano da cena três figuras de resistência: o operário, o negro rebelde e o herói precursor da independência. As esferas teoricamente distintas da cultura e da política encontravam uma sincronia que se formou em poucos momentos da nossa história.”

Bosi destaca o método Paulo Freire de alfabetização como uma síntese feliz de cultura e conscientização. “O método nasceu e foi aplicado em Natal (RN), entre 1961 e 1964, quando o golpe prendeu e expulsou do Brasil o seu criador. Era fruto de uma experiência de alfabetização em que Paulo Freire ensinou a ler, em 45 dias, 300 adultos, todos carentes.”

Esse movimento, lembrou o professor, tinha como lema a frase “De pé no chão também se aprende a ler”. “Foi o germe de uma verdadeira revolução pedagógica, teorizada, ainda na mesma década, em Educação como prática da liberdade, de 1967, e em Pedagogia do oprimido, de 1968, mas só publicados no Brasil em 1974, quando a ditadura começou a ceder.”