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Cirurgiões-dentistas contra o bullying

Publicado por admin - Monday, 22 September 2014

RAFAEL FERREIRA E CARLA ANDREOTTI DAMANTE

Existe uma grande variedade de definições para a palavra bullying, mas pode-se dizer que o termo se refere à repetida exposição a ações propositais que ferem ou prejudicam o indivíduo, caracterizando-se, principalmente, pela disparidade de poder entre os pares.

Existem diferentes definições e formas de classificação do bullying. A forma verbal diz respeito a ações que envolvem insultar, como ofender, falar mal e colocar apelidos pejorativos. Já a forma física e material engloba comportamentos como bater, empurrar, beliscar, roubar, furtar e destruir pertences da vítima. Ações como humilhar, excluir, discriminar, chantagear, intimidar e difamar caracterizam a forma psicológica. A forma sexual, por sua vez, diz respeito a ações como abusar, violentar, assediar e insinuar. Há ainda a forma de bullying virtual ou cyberbullying, cada vez mais comum, realizada por meio de ferramentas tecnológicas, como celulares, filmadoras e internet.

O cuidado em saúde está diretamente relacionado com a autoestima, e esta se encontra envolvida com fatores psicológicos e emocionais. Quando há uma quebra nesse equilíbrio, como por meio do bullying, a pessoa deixa de ter saúde para ter doença, necessitando, assim, da intervenção de uma equipe interdisciplinar. E, nela, deve estar presente um cirurgião-dentista.

O cirurgião-dentista pode atuar no diagnóstico e no tratamento do bullying. Mas pode, também, sem saber, gerar essa prática.

O diagnóstico começa a partir do momento em que o paciente está na sala de espera e vai até o atendimento. Algumas características são fundamentais para o cirurgião-dentista, como saber interpretar as formas não verbais, como a criança tenta se comunicar com o profissional, como um gesto, um olhar, o toque ou a ausência de respostas a determinadas perguntas. Com o tempo, a criança começa a se soltar e pode passar informações que necessitam da percepção do profissional para tentar solucionar essa mensagem e interpretá-las de maneira adequada.

Uma situação usual são os casos em que a criança é livre de cárie e, sem qualquer explicação plausível, começa a adotar hábitos deletérios e cariogênicos, como comer muitos doces, urinar na cama após certa idade ou voltar a usar chupeta. Essas informações dão indícios de que algo de errado está acontecendo e que passa despercebido pelos pais. O profissional deve utilizá-las de forma a compreender o seu paciente de maneira global, pois ele transfere seus traumas para a alimentação e a higienização.

Outra parte fundamental do diagnóstico é a anamnese, a entrevista feita para tomar conhecimento da saúde do paciente e também entender seus relacionamentos, em casa e na escola. Nela, devem ser feitas perguntas como: Essa criança é arteira? Como é a relação com o pai? E na escola, será que essa criança tem uma boa relação com os seus amiguinhos? Por que não tem mais vontade de ir à escola?

A postura dos pais ou dos responsáveis pode ser indício de uma superproteção que mascara, por exemplo, a agressão física dos pais contra a criança ou agressões na escola. Todas essas situações podem sugerir um diagnóstico de bullying ou de outra forma de violência.

Durante o exame extrabucal, o dentista pode notar alterações em toda a face, como nos lábios, olhos e pescoço. Ele deve atentar para as formas das lesões (arranhado, corte, queimadura, hematomas) e como isso afetará a criança. Talvez seja necessária a intervenção de um órgão público, como o Conselho Tutelar, ou notificação da Delegacia da Criança e do Adolescente.

Já no exame intrabucal, o dentista pode observar grande acúmulo de placa bacteriana em um paciente sem histórico de má higienização ou cárie. O desgaste na face interior dos dentes anteriores pode indicar bulimia principalmente em adolescentes. Mau hálito persistente ou traumas na gengiva podem ser oriundos de hábitos de autoagressão (mostrando muita ansiedade e medo, que geram mutilação nesse paciente). É possível que essas características existam isoladas ou em conjunto em pacientes que não estão sofrendo bullying e o dentista as avalia como um conjunto de características associadas ao histórico comportamental e médico para sugerir um diagnóstico.

Dentes escuros, tortos, fraturados e excesso de gengiva são formas de podem gerar “estranhamento” e consequentemente o bullying. Todas essas características podem ser solucionadas pelo cirurgião-dentista através da harmonização do sorriso, porém o fator psicológico também deve ser tratado com auxílio de psicólogos e até psiquiatras.

Mas, como já foi citado, o profissional, sem saber, também pode gerar bullying. Um exemplo clássico é o uso do aparelho ortopédico extraoral, popularmente conhecido como “freio de burro”. Essa terminologia acaba afetando diretamente o paciente que não sabe compreender a importância do tratamento e como isso influenciará a sua saúde bucal, estando o fator estético diretamente afetado. Isso refletirá em baixa autoestima, piora de seu cuidado e, inclusive, prejuízo na frequência do uso do aparelho e no sucesso do tratamento. O profissional e os pais precisam estar atentos a possíveis alterações comportamentais ou a queixas do paciente, mantendo contato constante com a equipe pedagógica da escola.

O cirurgião-dentista deve ter muito cuidado em afirmar o diagnóstico sem nenhum fundamento psicobiológico. A associação de alterações dentais com algum problema deve ocorrer quando há mudança de comportamento. Muitas vezes, precisa estar apoiada em questionários já consagrados na literatura, que auxiliam no correto diagnóstico diferencial. É o que ocorre, por exemplo, entre a alteração gastroesofágica e a bulimia nervosa ou entre a ausência de adoção de hábitos de escovação e o bullying.

A saúde bucal tão desejada por nós, profissionais, está diretamente relacionada com o cuidado e com a adoção de hábitos saudáveis, que vão repercutir na boca e no corpo inteiro. Portanto, é importante que o cirurgião-dentista observe o paciente como um todo, preocupando-se também em saber como é a inserção desse paciente na sociedade, seus laços de amizades, e se deve ser feito encaminhamento para outros profissionais, pois, quando as relações sociais são prejudicadas, há reflexos também na boca.

Rafael Ferreira é mestrando da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) da USP

Carla Andreotti Damante é professora da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) da USP