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Às portas de mais descobertas

Publicado por admin - Monday, 20 October 2014

MEDICINA

Empenho dos pesquisadores do NAPPS na investigação dos peptídeos pode garantir, no futuro, novas esperanças para o combate a diversos tipos de câncer, obesidade e doenças degenerativas

SYLVIA MIGUEL

“A aprovação de produtos na área farmacêutica pode levar de nove a 20 anos. De cada 5 mil moléculas novas estudadas, apenas uma chega ao consumidor em forma de algum produto. Está demonstrado, estatisticamente, que só o desenvolvimento de uma molécula pode consumir US$ 16 milhões. Já o estudo clínico custa US$ 1 bilhão, até que ela possa se transformar em fármaco para a sociedade. Nenhuma agência de fomento ou universidade terá esse dinheiro para investir. Essa é justamente uma das maiores dificuldades das pesquisas na área farmacêutica em universidades hoje.”

As informações do professor Marco Antônio Stephano, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP e co-coordenador do Núcleo de Apoio à Pesquisa na Interface Proteólise-Sinalização Celular (NAPPS) da USP, dão uma dimensão de como a corrida ao conhecimento está estreitamente ligada a sociedades mais ricas. No caso, o conhecimento gerado na USP já resultou em patentes não só no Brasil, mas em países como Japão, China e Portugal.

Depois de descobrir e dar nome à hemopressina – um achado que tem grande atenção da ciência desde 2003 –, uma equipe de farmacologistas encabeçada pelo professor Emer Suavinho Ferro, coordenador do NAPPS, provou que essas partículas não são apenas resíduos sem função na célula, como se acreditava. São peptídeos que, além de regular o funcionamento celular, também facilitam a interação de proteínas e podem modular estímulos extracelulares.

“O professor Lloyd Fricker, do Albert Einstein de Nova York, disse que esses peptídeos eram o lixo da célula, um subproduto do metabolismo celular. Acreditava-se que eram destruídos tão logo entravam na célula. Durante um trabalho de três meses, pude provar que não eram apenas resíduos. Eles têm uma atividade muito rica em nível intracelular. Com os peptídeos, criamos um novo conceito em biologia, que vem sendo validado e sedimentado por muitos outros achados e gerando patentes até fora do nosso grupo de pesquisadores”, afirma Ferro, que é docente do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP.

Segundo ele, a hemopressina está pronta para ser testada em animais. “A ideia é fazer um medicamento sublingual, com aplicação para dor neuropática. Não existe ainda no mercado um medicamento para tratar essa dor”, diz.

Desde o primeiro peptídeo encontrado por Ferro, a trajetória de descobertas continuou numa espiral crescente. “Em 11 anos, descobrimos diversas moléculas novas com atividades farmacológicas. Em 2006 conhecíamos 40 peptídeos. Hoje conhecemos milhares de sequências e estudamos profundamente uma dezena delas”, diz o professor.

Até o momento, dois desses peptídeos tornaram-se alvo de patentes depositadas pela USP, geradas a partir do trabalho multidisciplinar iniciado há cerca de um ano entorno do NAPPS. São eles o pep5 e o L28.

O pep5 é uma molécula natural sintetizada em laboratório e que já pode ser considerada uma droga. Além da patente, gerou um artigo numa das revistas de mais alto crivo científico, a Journal of Biological Chemistry. “O pep5 apresenta uma altíssima potência citotóxica, ou seja, dispara a morte celular para cerca de uma dúzia de tumores humanos testados e com efeitos insignificantes em células humanas normais.”, afirma o professor Fábio Luís Forti, do Instituto de Química da USP, integrante do NAP.

A patente do L28 está em processo de depósito, motivo pelo qual os professores não podem dar muitos detalhes. Revelam apenas que a molécula vem se mostrando um adjuvante de vacinas.

“A universidade serve para gerar conhecimento. Não colocamos o produto no mercado, mas como acadêmicos temos o compromisso de gerar patente. Ao publicarmos um trabalho, torna-se um conhecimento público. Foi assim que diversos países registraram patentes a partir do conhecimento gerado dentro do nosso NAP”, afirma o professor Ferro.

O coordenador do NAPPS conta que verificou patentes registradas em países como Portugal, Japão e China, além de Brasil, a partir dos peptídeos estudados no seu núcleo de pesquisa. São aplicações voltadas ao alívio da dor, para o tratamento da obesidade, tratamento e prevenção de desordens neurodegenerativas, entre outras. “Isso é natural. Outros pesquisadores descobrem as mais diversas aplicações para o conhecimento que produzimos”, afirma Ferro.

Desafios – A integração, a cooperação, o compartilhamento e a formação de recursos humanos têm sido as coisas mais positivas geradas pelo NAPPS, na opinião do professor Ferro. O trabalho interdisciplinar trouxe desafios à equipe, como atesta o professor Stephano, também do NAPPS, responsável por desenvolver a mecânica de transporte do pep5 até o tumor cancerígeno.

“Preciso entregar o peptídeo de forma que ele atinja apenas as células cancerígenas e não as normais. Com isso, preciso desenvolver a especificidade da droga. A forma que encontrei de fazer isso foi através da nanotecnologia. Estamos desenvolvendo uma nanocápsula feita com quitosana, um material derivado da quitinina da casca de crustáceos como camarão. Ela possui carga positiva e por isso é mucoaderente, ou seja, adere facilmente à pele da boca, nariz, colo uterino. Ao aderir, a nonocapsula libera o peptídeo. Testamos em culturas celulares e conseguimos reduzir muito a dose do peptídeo administrado. Estudamos para aplicações de câncer de cólon de útero e de pulmão”, afirma Stephano.

Segundo o professor, centenas de substâncias mucoaderentes poderiam ser testadas. Mas a quitosana, conhecida pelo professor em suas pesquisas com vacinas, foi o caminho natural. “A segunda etapa das nossas pesquisas com o pep5 seria colocar a célula cancerígena no camundongo e aplicar esse tipo de mecanismo de transporte da droga, mas não creio que teremos como investir nisso no momento”, afirma.

Alzheimer – O laboratório de Neurofarmacologia Molecular, do Departamento de Farmacologia do ICB, também um dos colaboradores do NAP coordenado por Emer, tem na sinalização molecular do sistema nervoso central sua principal linha de estudo. No nível celular e molecular, os pesquisadores buscam respostas para neuroinflamação, envelhecimento e doenças neurodegenerativas.

Entre os diversos achados, o professor Cristoforo Scavone empolga-se ao falar dos bons resultados obtidos com a ouabaína, um extrato isolado de uma planta popularmente chamada dedaleira (Strophantus gratus). A oubaina já se transformou num fármaco clássico para o tratamento de doenças cardiovasculares. A novidade é que o grupo de Scavone descobriu que a substância é também um hormônio produzido por humanos e que tem a capacidade de proteger os neurônios de doenças neurodegenerativas, como o Parkinson e Alzheimer, por exemplo.

Ao estudar a curcumina, um flavonóide presente no tempero conhecido como curry, pesquisasdores coordenados pela professora Elisa Mitiko Kawamoto, do mesmo laboratório do ICB, conseguiram mostrar a interação desse fitoquímico com um receptor intracelular relacionado à inflamação. “Os achados mostram que a curcumina melhora os déficits cognitivos associados à ativação da resposta imune inata por um mecanismo associado à sinalização do TNFR2, um receptor celular”, afirma Elisa.

Os estudos buscam desvendar as interações entre glicocorticóides, estrógenos, e certas proteínas. Incluso na lista de investigações está o pep5. “Realizamos trabalhos de ciência básica e o que a sociedade pode extrair do nosso grupo é o conhecimento gerado, e não um produto”, ressalva a cientista.

Entender os mecanismos e funcionalidades das células é um passo à frente do mapeamento do genoma, afirma o professor Emer. “Hoje o grande mistério da ciência é conhecer como as células interagem entre si e com o meio externo, como se dá essa orquestração e dinâmica”, diz.