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Inovação no campo brasileiro

Publicado por admin - Monday, 8 December 2014

A professora Tsai: “É necessário desenvolver tecnologias inovadoras para um uso mais eficiente da água”

ENTREVISTA

Diretora do Centro de Energia Nuclear (Cena) da USP, a professora Tsai Siu Mui – que em outubro ganhou da FAO o título de “Herói da Revolução Verde Brasileira” – afirma que o conhecimento gerado pela Universidade precisa ser divulgado de forma mais interativa com o produtor e a empresa rural

A professora Tsai Siu Mui, diretora do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da USP, recebeu o título de “Herói da Revolução Verde Brasileira”, no dia 14 de outubro passado, em cerimônia realizada em São Paulo. Entregue pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o prêmio é uma homenagem por suas contribuições para a inovação da agricultura brasileira. Nascida na China, a professora – que é membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC) – falou ao Jornal da USP sobre o prêmio.

Jornal da USP – Qual a sensação de receber esse prêmio da FAO?

Tsai Siu Mui – Ele tem um grande significado para mim, pois representa o reconhecimento dos nossos trabalhos em prol de uma agricultura mais sustentável, o que constitui um grande desafio num país predominantemente tropical e com dimensão continental.

JUSP – Quais as suas contribuições científicas que justificam o prêmio?

Tsai – No início, a minha formação como agrônoma me permitiu estabelecer os parâmetros básicos para o desenvolvimento de estudos associados a altas produtividades agrícolas. Mas depois eu entendi que a sustentabilidade da produção agrícola requer um enfoque multidisciplinar, envolvendo aspectos biológicos ao lado dos químicos e físicos. Como exemplo, cito os estudos para determinação de grupos e processos microbianos funcionais, que têm sido excelentes bioindicadores da qualidade do solo, dentro de uma visão multidimensional. A determinação da contribuição dessa microbiota para o crescimento vegetal foi fundamental para que nossos estudos fossem reconhecidos com o prêmio da FAO.

JUSP – Atualmente, a que linhas de pesquisa a senhora se dedica?

Tsai – A nossa dedicação tem sido principalmente ao estudo da interação planta-microrganismos sob diversos sistemas de uso da terra. E o uso de ferramentas moleculares tem sido fundamental para o acompanhamento dos processos microbianos através do monitoramento quantitativo dos principais genes associados, por exemplo, aos gases do efeito estufa – dióxido de carbono, metano e óxido nitroso.  Também podemos determinar as perdas que ocorrem com o desmatamento, indicadas em análises taxonômicas e funcionais da microbiota, quando algumas espécies de bactérias desaparecem com a mudança do uso do solo, tais como agricultura ou pastagem. A nossa busca atual é identificar os melhores sistemas de uso da terra e possibilitar estímulo para a microbiota ativa e benéfica atuar junto à planta. Ao longo da minha carreira, procurei também estudar uma cultura como feijoeiro, que representa a base alimentícia brasileira e, no meu entendimento, merecia um estudo mais detalhado quanto à sua menor capacidade de fixação biológica de nitrogênio em relação à soja, por exemplo.

JUSP – Como a senhora vê o agronegócio brasileiro hoje?

Tsai – Vejo cada vez mais com otimismo, pois é admirável como o produtor rural tem sido verdadeiramente um herói em nosso meio. O grande espírito de empreendedorismo tem sido um dos responsáveis pelo agronegócio contribuir com quase um terço do PIB nacional. Muitos desses produtores estão aderindo aos sistemas conservacionistas ao intensificar a agricultura, primeiro por promover economia de insumos e menor risco ao homem e, depois, por manter a qualidade ambiental por períodos mais longos. O sistema de cooperativismo tem sido o grande responsável pela difusão de tecnologias, se pensarmos em uma atuação regional.  Há também a assistência técnica promovida pelos órgãos públicos e privados, formando uma rede de difusão tecnológica incomparável em nosso país. Também temos que destacar a contribuição de grandes cientistas brasileiros de diversas áreas, muitos deles responsáveis pela economia de divisas ao introduzir modelos mais sustentáveis na agricultura brasileira, como o plantio direto, o uso de inoculantes agrícolas, o manejo integrado nas culturas e, mais recentemente, a integração lavoura-pecuária-floresta.

JUSP – A Universidade está contribuindo eficientemente para o desenvolvimento do agronegócio brasileiro?

Tsai – No campus da USP em Piracicaba, temos a Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz) e o Cena, que contribuem para o sucesso da USP em ciências agrárias, destacada neste ano como a quinta instituição mundial nessa área pelo ranking da US News & World Report. Para maior eficiência, acredito que todo o conhecimento gerado pela academia deveria ser divulgado de forma mais interativa com o produtor rural. Assim como deveria haver maior interação entre Universidade-empresa rural, de forma a tornar mais ágeis as demandas que o produtor rural requer. Novas tecnologias devem ser geradas de forma específica para o nosso meio rural, facilitando a vida do produtor rural, promovendo assim sua fixação duradoura na fazenda.

JUSP – Pode dizer algo sobre a influência das mudanças climáticas na agricultura mundial?

Tsai – Temos dados suficientes para indicar que o efeito estufa está acontecendo no mundo e no Brasil também. Tanto direta como indiretamente. As perdas na agricultura ocasionadas por seca ou fortes chuvas estão cada vez mais frequentes e inesperadas, sendo um alerta para desenvolvermos estratégias para minimizar esses efeitos causados pelo próprio homem. A devastação dos recursos naturais está provocando desastres na produção agrícola, pois, ao promover desmatamentos, há degradação dos solos e mananciais hídricos que, a curto prazo, provocam perdas ambientais irreparáveis.

JUSP – De que forma a crise hídrica afeta a agricultura brasileira?

Tsai – A agricultura, de um modo geral, utiliza em média 65% dos recursos hídricos naturais, o que tem sido um aspecto negativo em tempos de seca, pois os preços dos hortifrutigranjeiros sobem astronomicamente e, ao mesmo tempo, há déficit na produção desses produtos. Essa experiência atual de seca no Sudeste do Brasil merece uma análise mais profunda de como um país com tantos recursos hídricos pode sofrer drasticamente com o uso de águas superficiais, como tem sido até agora. É necessário desenvolver tecnologias mais inovadoras para um uso mais eficiente da água, nosso bem maior.