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A era da interdisciplinaridade

Publicado por admin - Monday, 8 December 2014

LANÇAMENTO

Com 800 páginas e 25 artigos de pesquisadores do Brasil e do exterior, livro discute os desafios teóricos, epistemológicos e metodológicos para superar o distanciamento entre as diferentes áreas do conhecimento

Em 1999, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) criou a sua Área Interdisciplinar, e desde então – com especial ênfase nos últimos seis anos – cresce constantemente o número de propostas de programas, seja de mestrado, mestrado profissional ou doutorado, com características de interdisciplinaridade. Para ficar apenas num exemplo, a grande área de Ciências Ambientais tem como um dos critérios de avaliação dos cursos a prática interdisciplinar.

O crescimento e o interesse por essa abordagem têm uma explicação teórica, “que é a complexificação do mundo contemporâneo e consequentemente a necessidade de multi e interdisciplinaridade no trato dos novos problemas emergentes”, apontam Arlindo Philippi Jr, docente e presidente da Comissão de Pós-Graduação da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, e Valdir Fernandes, docente da Universidade Positivo e do Instituto Superior de Administração e Economia da Fundação Getúlio Vargas, organizadores do livro Práticas da Interdisciplinaridade no Ensino e na Pesquisa, recentemente lançado pela Editora Manole.

Avançar nesse caminho, no entanto, não tem se mostrado fácil, como escrevem os professores na apresentação do volume, pois “permanecem ainda na comunidade científica hábitos enraizados apenas na tradição disciplinar” – “portanto, desafios teóricos, epistemológicos e metodológicos para a prática efetiva da interdisciplinaridade são colocados para toda a comunidade científica”.

O livro dá sequência ao debate iniciado em Interdisciplinaridade em Ciência, Tecnologia & Inovação, editado em 2011, e tem apoio da Capes, do Fórum de Pró-Reitores de Pós-Graduação e Pesquisa (Foprop) e de universidades como a USP e as Federais de Santa Catarina, da Bahia, do ABC, de Goiás e do Pará. São 25 artigos nos quais professores de diferentes instituições brasileiras e do exterior debatem o tema em três eixos: Fundamentos da prática interdisciplinar; Interdisciplinaridade em prática: dimensões metodológicas e operacionais; e Prática interdisciplinar no ensino, pesquisa e extensão.

Fosso intelectual – Vários dos textos dos pesquisadores e professores relatam esforços para produzir reflexão e trabalho em comum que supere o distanciamento que as áreas do conhecimento acabaram consolidando ao longo do tempo. As origens dessa divisão são abordadas pelo antropólogo francês Claude Raynaut, professor do Curso Interdisciplinar de Pós-Graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento da Universidade Federal do Paraná (UFPR), no artigo “Dicotomia entre ser humano e natureza: paradigma fundador do pensamento científico”. Raynaut analisa os conceitos de natura e de physis desde os pensadores gregos e romanos da Antiguidade e avança pelos séculos debatendo a evolução de diferentes ideias sobre a natureza, o ser humano, as ciências e as sociedades. “Um fosso intelectual cavou-se progressivamente entre as disciplinas que trabalham sobre as dimensões materiais da realidade (física, química, biologia, ciências naturais etc.) e as ciências humanas e sociais”, considera.

Articular esses “dois olhares divorciados sobre a realidade constitui-se, talvez, como o maior obstáculo à produção de um conhecimento que possa dar conta da complexidade e do caráter híbrido (combinando dimensões materiais e não materiais) que as sociedades contemporâneas enfrentam”, diz Raynaut. Superar esse obstáculo conceitual não implica apenas a busca de soluções metodológicas e organizacionais, “por necessárias que sejam”, ressalta o autor. É necessária “uma reflexão epistemológica de caráter mais fundamental que permita a cada cientista relativizar seu posicionamento disciplinar”, fazendo com que as disciplinas possam dialogar entre si e se engajem numa colaboração “que reconheça a especificidade e a pertinência dos vários olhares científicos dirigidos sobre uma mesma realidade – sem pretender estabelecer uma hierarquia entre eles”. Esse respeito mútuo “é a condição fundamental de uma colaboração bem-sucedida” e inclui “um esforço de reflexão histórica e epistemológica, que constitui uma etapa imprescindível do processo de capacitação à prática interdisciplinar”.

Nova abordagem – Entre os relatos de esforços que – com seus percalços e tensões – vêm dando resultados está o do projeto Neocosteiro, experiência de construção coletiva de pesquisa interdisciplinar do Programa de Pós-Graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento (Ppgmade) da UFPR. O objetivo era levar à elaboração de teses de doutorado tendo como tema geral os sistemas produtivos da pesca na costa sul-sudeste do Brasil e as práticas e políticas de gestão ambiental associadas. O caráter interdisciplinar está atestado na própria autoria do artigo: os oito professores que assinam o texto são oriundos de quatro áreas diferentes – Oceanografia, Sociologia, Biologia e Administração.

A experiência demonstrou que as teses produzidas são, claramente, produtos do Ppgmade, “não somente por colher sua problemática central e os temas que foram sendo elaborados no processo coletivo, como por encarnar a concepção socioambiental e nascer de uma verdadeira vivência interdisciplinar”. Mais importante do que isso, salientam os autores, os pesquisadores “foram profundamente transformados no processo formativo e emergiram dele com formação interdisciplinar em matéria de meio ambiente e desenvolvimento”.

Outra experiência relatada no livro é a do Projeto Sossego, na bacia hidrográfica do córrego Sossego, município de Itarana, no Espírito Santo, região em que predominam pequenos proprietários de base agrícola familiar. Desde 2003 a bacia vem sendo objeto de diversos projetos de pesquisa e desenvolvimento voltados à gestão participativa da água, na forma de um exercício de integração amplo, com foco na sustentabilidade.

Um grupo gestor do projeto reuniu representantes de diferentes instituições, como a Polícia Militar Ambiental, a Prefeitura de Itarana, a Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia, a associação de pequenos produtores rurais da região e o Sebrae, entre outras, sob a coordenação dos professores da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). “Com isso, instituições e comunidade têm tido atuações mais efetivas em ações de gestão integrada e participativa, cujo foco está na disponibilidade hídrica, mas que envolvem várias dimensões da vida da comunidade”, escrevem os quatro autores do artigo, docentes das áreas de Engenharia Mecânica, Engenharia Civil, Geografia e Agronomia da Ufes. “Assim, o projeto trouxe um novo tipo de abordagem para lidar com os problemas locais.”

Os autores concluem que, por meio do empoderamento social, os usuários iniciaram um aprendizado para se tornar responsáveis pelos seus recursos hídricos, o que contribui para que trabalhem em prol dos objetivos e melhorias das condições de sua própria vivência. “Percebeu-se que tanto pesquisadores quanto representantes institucionais de mente aberta para a inter e a transdisciplinaridade podem melhor agregar os elementos (pessoais, conhecimentos e recursos) necessários à resolução de questões complexas atuais, como as socioambientais. Imaginamos que dificilmente haverá carência por relevância e impacto de pesquisas realizadas com base nesse preceito”, concluem os professores.

Práticas da Interdisciplinaridade no Ensino e na Pesquisa, de Arlindo Philippi Jr e Valdir Fernandes, Editora Manole, 808 páginas, R$ 178,20