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Lembranças de docentes ilustres

Publicado por admin - Monday, 8 December 2014

O evento no ICB: preservação da memória

HISTÓRIA

Com apoio do CNPq, ICB produz quatro documentários que contam a trajetória pessoal e acadêmica de Professores Eméritos do instituto

ALINE NAOE

USP Online

Uma escrivaninha antiga e a dúvida sobre onde colocá-la. Esse evento trivial foi o ponto de partida de um projeto que, pouco tempo depois, mobilizaria professores e funcionários na tarefa de resgatar a memória do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP. Na época em que dirigia o instituto, o idealizador da iniciativa, Rui Curi, foi questionado sobre onde colocar aquele objeto que pertenceu ao fisiologista Alberto Carvalho da Silva – um dos mais notáveis cientistas da unidade – e, posteriormente, ao professor Gerhard Malnic. A situação o fez perceber o quanto se perdia da história do ICB com o passar do tempo. “Nós tivemos a oportunidade de conviver com esses ilustres professores, que tanto contribuíram com a ciência brasileira, mas muitos jovens que chegam aqui não conhecem, não têm essas referências”, lamenta.

O lançamento dos documentários: a história das ciências biomédicas

Alberto Carvalho morreu em 2002, aos 85 anos. Gerhard Malnic, que foi seu orientando, hoje também é Professor Emérito do ICB e um dos protagonistas dos documentários que o Projeto Memórias do ICB – Um Olhar para a História das Ciências Biomédicas no Brasil produziu e lançou no último dia 25 de novembro, em cerimônia no Auditório Luiz Rachid Trabulsi do ICB. São quatro produções que contam a trajetória pessoal e acadêmica de Malnic e de três outros Professores Eméritos do ICB: Erney Felício Plessmann de Camargo, Flávio Fava de Moraes e José Carneiro da Silva Filho.

“Uma instituição não é feita nem é reconhecida por tijolos, mas pelas pessoas que a integram. A instituição tem a obrigação de preservar o que ela tem de mais rico, que são seus recursos humanos”, afirmou o pró-reitor de Pesquisa, José Eduardo Krieger, durante o evento. E contar a história desses Professores Eméritos é também contar a história das ciências biomédicas no País. Além da reconhecida contribuição ao conhecimento científico em suas respectivas áreas, esses professores também se destacaram por sua atuação no ambiente acadêmico, assumindo posições de liderança em cargos de gestão.

Inspiração – “Invariavelmente colocamos as memórias em papel, elas viram livro e ficam nas estantes da biblioteca, raramente consultadas. Queríamos um projeto vivo, que despertasse o interesse dos jovens”, explica Rui Curi. Daí surgiu a ideia de produzir material audiovisual sobre os Professores Eméritos do ICB, viabilizada pelo programa Difusão e Popularização da Ciência do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

A juventude também inspira a continuidade do trabalho de Gerhard Malnic. “Ainda estou aqui na Universidade por causa dos jovens. Para mim, sempre foi um atrativo poder falar e discutir com eles, saber o que eles querem fazer, orientá-los na vida, não só na ciência.” Pesquisador do Departamento de Fisiologia e Biofísica do ICB, Malnic conta que frequenta o laboratório quase todos os dias e ainda tem alunos sob sua orientação. Nascido na Itália, mas naturalizado austríaco, o professor seguiu a área de fisiologia renal por influência do professor Alberto Carvalho e nela tornou-se pioneiro no Brasil. A escrivaninha de metal que herdou do orientador, conta, está hoje na biblioteca do instituto.

Os alunos são também uma inspiração para o Professor Emérito Erney Felício Plessmann de Camargo. O parasitologista conta que é um orgulho poder formar pessoas e que cinco de seus alunos são, atualmente, professores titulares. Mas ressalta que são apenas desdobramentos do trabalho principal: fazer ciência.

Krieger com Camargo, Fava e Malnic: recordações

Seu primeiro trabalho independente, um artigo sobre crescimento e diferenciação do Trypanosoma cruzi (parasita causador da doença de Chagas), publicado em 1964, é citado até hoje. O estudo tornou viável a produção do protozoário em escala, o que viabilizou diversos avanços da pesquisa na área. “Quando comecei minha carreira, a situação era dramática. Havia pelo menos 2 milhões de brasileiros ameaçados pela doença de Chagas. Hoje não tem mais. Então, ao mesmo tempo em que você faz pesquisa, que gosta de fazer, você tem obrigação de prestar atenção no que está acontecendo ao seu redor”, pontua.

Formado em Odontologia, Flávio Fava de Moraes nunca clinicou. Escolheu dedicar sua vida à carreira acadêmica, nas áreas de histologia e embriologia. Foi reitor da USP, diretor científico da Fapesp e assumiu ainda diversos outros cargos em instituições científicas, recebendo prêmios e distinções. Sobre a homenagem do ICB, conta que é gratificante, mas defende que premiações devem ser sempre vinculadas ao bem comum, não ao esnobismo. “A humildade faz parte da boa ciência. Não como comportamento pessoal, mas como valor intrínseco do caráter das pessoas”, acredita.

A humildade é característica que transparece na fala de José Carneiro da Silva Filho, único homenageado que não estava na cerimônia de lançamento dos documentários, por questões de saúde. O recifense é autor, com o professor Luiz Carlos Junqueira, do livro Histologia Básica, cuja primeira edição foi lançada em 1969. A obra já foi publicada em 15 línguas e é considerada um dos livros mais influentes no ensino da ciência. “Nossa combinação foi a seguinte: vamos escrever um livro para servir aos estudantes. Vamos nos colocar na pele deles”, conta o Professor Emérito no documentário.

Próximos passos – A realização dos documentários com os Professores Eméritos do Instituto de Ciências Biomédicas foi o primeiro grande passo para o resgate e difusão da memória da unidade, concretizado no ano em que o ICB comemora 45 anos. Os responsáveis planejam transmitir as produções na TV USP e disponibilizar os vídeos em bibliotecas e pela internet. Foi formado também um Grupo de Memória Institucional, que agora trabalha na construção de um banco de dados e imagens do instituto, dando continuidade à iniciativa.

O público presente no ICB: histórias recuperadas da ciência brasileira

Segundo o diretor do ICB, Jackson Cioni Bittencourt, a proposta é que o próximo projeto registre também depoimentos de todos aqueles que já dirigiram a unidade, por serem testemunhos importantes da evolução do ICB. Ressalta ainda a participação fundamental dos funcionários que encabeçaram o projeto e o tornaram realidade. “Ver isso realizado é uma das melhores coisas que aconteceram nestes dois primeiros anos do meu mandato”, afirma Bittencourt.

Criado em 1969, após a reforma universitária que extinguiu as cátedras, o ICB reuniu professores de diversas faculdades da USP, como a de Medicina e a de Odontologia, constituindo um núcleo de áreas básicas da saúde. Hoje, o instituto agrega uma equipe de 160 professores e 350 técnicos administrativos e de laboratório, 112 pós-doutorandos e 800 pós-graduandos em mestrado e doutorado, além de bolsistas de iniciação científica e de outros programas institucionais. Além dos quatro professores retratados nos documentários, são também Eméritos do instituto Alberto Carvalho da Silva, dono da escrivaninha que inspirou o Projeto Memórias do ICB, e Luiz Rachid Trabulsi, que dá nome ao auditório que sediou a cerimônia do dia 25.