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As caras lembranças dos estudantes da Glette

Publicado por admin - Monday, 30 March 2015

MEMÓRIA

Histórias que documentam um tempo precioso da cidade e do cotidiano da USP estão reunidas no livro A Glette, o Palacete e a Universidade de São Paulo, com textos e depoimentos de professores, pesquisadores e ex-estudantes. Registram a primeira sede própria que a antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras ocupou em 1937, na alameda Glette da São Paulo da garoa

LEILA KIYOMURA

“A memória se apoia em sinais deixados no ambiente e no comportamento dos outros indivíduos com os quais interagimos; são palavras ditas ou escritas, são os produtos de nossos atos e dos atos dos outros que podemos reencontrar e que trazem o testemunho de períodos anteriores.” A frase de César Ades, ex-professor titular do Instituto de Psicologia da USP, abre o livro A Glette, o Palacete e a Universidade de São Paulo, uma edição que ele estava organizando e coordenando com afinco. Mas o sonho de ver o livro das boas lembranças acabou se tornando, com a sua morte, no dia 14 de março de 2012, uma homenagem também à sua memória e dedicação.

O trabalho de Ades continuou sendo organizado pela equipe que o acompanhava. Os professores Aparecida Angélica Zoqui Paulovic Sabadini, Carlos Ribeiro Vilela, Neuza Guerreiro de Carvalho e Viktoria Klara Lakatos Osorio atuaram na empreitada de resgatar a história da USP no palacete da alameda Glette, 463. O prédio que, em 1937, sediou a antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, (FFCL) da USP, hoje Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH).

“Conservar e transformar são desafios difíceis de articular”, observa o professor Lino de Macedo, autor do prefácio. “O que conservar de uma USP que já não é? Como manter e honrar, em suas transformações, aquilo que embalou os primeiros sonhos e as primeiras práticas – de ensino, pesquisa e gestão – de nossos antigos professores, alunos e funcionários? Como não esquecer ou perverter? Como atualizar?”

O palacete da Glette, sede da antiga FFCL da USP: recordações

Macedo ressalta que o livro evoca esses questionamentos, propiciando comparações e reflexões que, na contextualização, tiram a condição de um livro só de memórias. “É notável na obra a presença, em todos os sentidos, da figueira, em cuja sombra já se abrigava a família Street, dona do palacete, e depois todos aqueles professores, alunos e funcionários que compartilhavam a USP da Glette.”

A árvore, denominada cientificamente de Ficus Macrophylla, virou símbolo daquele bom tempo. E tornou-se parte do patrimônio da cidade, sendo incluída no livro de tombo do patrimônio ambiental num decreto de 20 de setembro de 1989. O brio de sua história está documentado em inúmeras fotos. No livro há várias imagens e depoimentos dedicados à figueira. Para imortalizá-la, foram tiradas várias mudas e clones que estão espalhados pelo campus da Cidade Universitária. “Sua presença é tão marcante que quase me ocorreu sugerir que seu nome também fizesse parte do título”, conta o professor Lino. “Mas uma árvore, diferente de nós, não se importa com essas coisas, não sofre as dores de um estar ou não estar. Sua função é outra. Ela faz parte do que é mais primordial na vida dela mesma, de todos os outros seres e da própria natureza. Ela é pura presença e sombra.”

O professor César Ades: grande mestre

Barões do café – A história do luxuoso palacete construído no final do século 19, na época áurea dos barões do café, é contada por Carlos Ribeiro Vilela, professor do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva do Instituto de Biociências (IB) USP. “O imóvel foi, por mais de uma década, a residência do médico e industrial carioca Jorge Luiz Gustavo Street. Foi comprado, por volta de 1916, de Firmiano Morais Pinto, que se tornaria pouco tempo depois prefeito da capital paulista.”

Os leitores têm a oportunidade de apreciar as imagens em tom sépia do palacete, com quadra de tênis e piscina coberta, e também dos espaços internos, com salas com vitrais em curva, decoradas com requinte. As fotos foram digitalizadas, compondo o acervo fotográfico do Centro de Memória do Instituto de Psicologia da USP. “Por ocasião da grande crise mundial de 1929, hipotecado, o imóvel foi incorporado ao patrimônio da Companhia de Seguros Sul América, sendo adquirido pelo governo do Estado de São Paulo no segundo semestre de 1937.”

O interior do palacete da Glette e a famosa figueira: memória dos momentos marcantes dos primeiros tempos da USP

Os detalhes da instalação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras são narrados por Viktoria Klara Lakatos Osorio, professora aposentada do Instituto de Química da USP que, desde 2003, vem se dedicando aos projetos de resgate de memória institucional da Universidade, como a implantação do Centro de Memória do Instituto de Química da USP. “Desde a implantação da FFCL, em 1934, a administração, as cadeiras humanísticas e os setores de química e ciências naturais vinham funcionando em dependências provisórias no prédio da Faculdade de Medicina. No início de junho de 1937, porém, a situação se deteriorou com os graves acontecimentos desencadeados quando estudantes de Medicina derrubaram os andaimes instalados para uma construção num terraço do edifício, que visava a ampliar o espaço da subseção de Química. Esse episódio ficou conhecido como a derrubada da torre da Filosofia.”

Aqueles fatos acabaram impulsionando a mudança. “Nas férias de dezembro de 1937, o palacete Street passou a sediar a administração, a biblioteca e as cadeiras de humanidades da FFCL, vindas da rua da Consolação. Quando a Assembleia Legislativa aprovou a compra e a administração pública passou a escritura do imóvel, as aulas já estavam sendo ministradas na nova sede.”

Entre os estudantes sonhadores da Glette estava Neuza Guerreiro de Carvalho, que ingressou em 1948 no curso de História Natural da FFCL. “Tinha 18 anos e vinha do curso científico do Ginásio Paulistano, atraída pelo estudo de ciências, ainda não sabendo se para pesquisa ou ensino”, relata.
A jovem estudante guardou na memória o cotidiano do curso com 23 ingressantes, que, como ela própria relata no terceiro capítulo do livro, foi se esvaziando e apenas cinco chegaram até o final, em 1951. “A maioria tinha escolhido o curso de História Natural como uma segunda opção de uma escolha para Medicina.”

Neuza apresenta as fotografias com os amigos nos laboratórios, em frente ao palacete, nas salas de aulas ou nos momentos de lazer. “Talvez justamente pelo pouco espaço e pelo pequeno número de alunos, a união era maior. O relacionamento com os professores era bastante amistoso e, embora não houvesse muitas festas, sempre que alguém defendia tese de doutorado havia uns comes e bebes. E excursões para lugares próximos como, Perus e São Vicente.”

A estudante atuou como professora por 30 anos, com um método próprio de ensino de ciências registrado no Ministério da Educação (MEC). Em 2005, retornou à USP, no Programa Universidade Aberta à Terceira Idade, já tendo frequentado cerca de 50 cursos semestrais.  Neuza fez questão de, no livro A Glette, o Palacete e a Universidade de São Paulo, um tributo aos primeiros professores: Ernest Gustav Gotthelf Marcus, Felix Kurt Rawiracher, André Dreyfus, Paulo Sawaya, Mário Guimarães Ferri e Crodowaldo Pawan.
Relato pessoal – Na apresentação e também nos capítulos que seguem, o professor César Ades está presente. Aparecida Angélica Zoqui Paulovic Sabadini, professora do Instituto de Psicologia, traz no capítulo “A Psicologia na Glette”, o olhar do professor diante da história da psicologia no palacete da alameda Glette (ou Glete, na grafia atual). E, ao mesmo tempo, resgata a trajetória de Ades, documentada em fotos desde a sua infância. Explica que foi o professor que queria escrever esse capítulo, mas não teve tempo. “Acredito que seria diferente de todos os trabalhos que já produziu em relação à sua passagem pela Glette, pois lembro-me de suas palavras: ‘Meu texto será diferente. Será um relato pessoal’.”

Aparecida reuniu os escritos, depoimentos e anotações de Ades e se aventurou em elaborar o capítulo como o professor planejou escrever. “Procurei fazer o registro sensível dos seus textos publicados e anotações não publicadas, alinhados a uma sequência de imagens e de minhas lembranças.”

Clone da figueira da Glette, plantada na Cidade Universidade: legado

No artigo, a professora vai integrando as lembranças do professor com a história da USP, destacando o tom humano de quem constrói e compõe a vida na Universidade. “César Ades se referia à USP como ‘o local onde me criei’, sempre com muita alegria e entusiasmo, como se estivesse iniciando sua carreira naquele momento. Gostava de falar de seus grandes mestres e se tornou ‘o grande mestre’, amado, respeitado e admirado por todos aqueles que com ele conviveram.”

A história do jovem estudante é contada pela amiga Aparecida Angélica: “No início dos anos 1960, um jovem egípcio entrava em uma jovem Universidade: César Ades, no auge de seus 18 anos, e a USP, no auge de seus 26 anos. Assim, podemos dizer que ele vivenciou o começo da Universidade na sociedade paulistana. No momento do vestibular, César Ades relata que ficou dividido entre a biologia e a psicologia e chegou a pensar em fazer filosofia, mas dizia que queria mexer com o concreto das coisas e fazer descobertas. Optou pela psicologia.”

A Geologia na Glete é lembrada no texto de Celso de Barros Gomes, Professor Emérito do Instituto de Geociências (IGc) da USP e membro titular da Academia de Ciências do Estado de São Paulo e da Academia Brasileira de Ciências (ABC). “Felizmente, como que despertando da letargia que se estendeu por algumas décadas, a comunidade uspiana de egressos dos cursos de Geologia, História Natural, Psicologia e Química, pertencentes à antiga FFCL, começou, a partir de 2001, a voltar a sua atenção para aquele período do tempo, distante, mas tão rico de valores humanos, que foi a fase de ocupação da alameda Glette.

A iniciativa pioneira surgiu com a criação do site “Figueira da Glete”, que teve como principal mentor o geólogo Nelson Custódio da Silveira Filho, graduado na turma de 1967, objetivando a reunião de fatos ligados à história daqueles tempos, marcados por muito convívio humano e espírito de amizade.

O professor ressalta que o Instituto de Geociências representa hoje o produto consolidado de uma cultura que se instalou na alameda Glette. “O objetivo continua sendo o mesmo, que é a busca contínua de padrão de excelência para as suas atividades primordiais, que são ensino, pesquisa e prestação de serviços à comunidade. É reconhecidamente um dos mais conceituados centros de ciências geológicas do País, como testemunhado pela qualificação do seu corpo docente, capacitação da sua infraestrutura física e laboratorial e produção científica quantitativa e qualitativa das mais expressivas.”

A Glette, o Palacete e a Universidade de São Paulo, de César Ades (in memorian), Aparecida Angélica Zoqui  Paulovic Sabadini, Carlos Ribeiro Vilela, Neuza Guerreiro de Carvalho e Viktoria Klara Lakatos Osorio (organização), publicado pelo Centro de Memória do Instituto de Psicologia da USP, com apoio da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária (PRCEU) da USP. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (11) 3091-4300.