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“A censura nunca é necessária”

Publicado por admin - Monday, 20 July 2009

MEMÓRIA

Numa entrevista concedida em 1998 a uma estudante do ensino médio – publicada agora pela primeira vez –, a antropóloga Ruth Cardoso, que morreu há um ano, faz análises ainda atuais sobre a mídia no Brasil

Em 1998, a hoje advogada Marina Borges Pereira Cegal Turri cursava o 1º ano do ensino médio no tradicional Colégio Visconde de Porto Seguro, em São Paulo. Na época, ela participou, com outros colegas de classe, de um trabalho para a disciplina de Sociologia sobre “A influência da mídia na formação do indivíduo”. Coube a Marina entrevistar a antropóloga Ruth Cardoso. Professora da USP, doutora em Antropologia, em 1972, com a tese “Estrutura familiar e mobilidade social: estudo dos japoneses no estado de São Paulo”, Ruth era, na época, primeira-dama do Brasil, casada com o então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). Ela foi a criadora do Programa Comunidade Solidária, de combate à exclusão social.
Na entrevista concedida por e-mail à aluna do Porto Seguro – inédita até hoje –, Ruth Cardoso faz análises sobre os meios de comunicação que permanecem atuais. Afirma que a televisão “não dá formação” para o indivíduo, tarefa que cabe a instituições como família, escola e sindicato, e rejeita terminantemente a censura na mídia. Para a antropóloga, é preciso que a própria sociedade – e não o governo – encontre os mecanismos que considere mais adequados para controlar o excesso do que pode ser negativo na programação. “Mesmo com o árduo dia a dia de primeira dama, Ruth respondeu pontual e gentilmente a todas as perguntas que lhe fiz”, lembra Marina.
Ruth morreu no dia 24 de junho de 2008, em São Paulo, em decorrência de problemas cardíacos. Um ano após sua morte, a entrevista a seguir serve também para rememorar e homenagear uma trajetória pautada pelo brilho intelectual, a honestidade acadêmica e a luta em favor da dignidade do indivíduo.

Qual a influência exercida pela televisão na formação do indivíduo?
Ruth Cardoso –
A televisão obviamente tem muita influência sobre a formação de opiniões, sobre uma série de informações que ela passa aos indivíduos. Mas na verdade a televisão não dá formação. O que dá formação aos indivíduos são as instituições como a família, a escola, a vivência no trabalho, o sindicato. É aí que se forma a visão que o indivíduo tem da sociedade. A televisão não é um elemento fundamental nessa formação, embora seja um complemento disso tudo.

Quando a censura é necessária e até que ponto?
Ruth –
A censura nunca é necessária. O que é preciso é que a própria sociedade encontre seus mecanismos de controlar o excesso de violência, enfim, o excesso daquilo que possa ser negativo e que esteja presente na programação. Esse é um assunto para reflexão da sociedade, é preciso que ela discuta isso e imponha seus limites. A censura, a partir do governo, não é solução, não deve existir, sob risco de se tornar um ingrediente a mais num contexto de violência.

A antropóloga e professora da USP Ruth Cardoso, criadora do Programa Comunidade Solidária

A antropóloga e professora da USP Ruth Cardoso, criadora do Programa Comunidade Solidária

O que a senhora acha que a televisão brasileira, hoje, demonstra como mais importante?
Ruth –
A televisão brasileira tem grandes qualidades. Ostenta recursos técnicos de primeira linha, e isso a distingue de outras televisões. Tem também outras coisas importantes: no que diz respeito às telenovelas, por exemplo, que são uma característica importante da tevê brasileira, há um conteúdo muito ligado ao cotidiano e mesmo à história do País. Então a televisão é uma fonte importante de informação à sociedade.

Por que os programas de auditório estão se tornando cada vez mais populares?
Ruth –
Este não é um fenômeno brasileiro, não é um resultado da televisão que é feita no Brasil. Os programas de auditório estão se tornando um fenômeno mundial. Nesses programas, com a participação do auditório, são discutidos problemas da intimidade das pessoas, coisas que não eram discutidas de público antes, isto é um fenômeno que tem que ser controlado. É preciso haver um movimento da sociedade para evitar que isso aconteça.

Certas pessoas têm como modelo personalidades televisivas. Qual a sua opinião sobre isso?
Ruth –
Isso sempre aconteceu, não só na televisão. Também no cinema, no teatro, sempre houve essa identificação com os ídolos. Mas vejo isso como algo passageiro. O indivíduo não é, ao contrário do que possa parecer, enganado por esses modelos, num processo de mistificação.

Para classes sociais mais baixas, a televisão muitas vezes substitui a escola. Como esse fato prejudica a formação do indivíduo?
Ruth –
Eu não acho que a televisão substitua a escola. Isso não é possível. Muitas vezes vemos que as crianças de classes sociais mais baixas, que não estão na escola, estão diante da televisão, mas isso não é porque a televisão exista. Não estando na escola, as crianças estão frequentemente diante da tevê. Existem as tevês educativas, mas elas não são as mais vistas. Mas não acho que exista essa substituição.

Como a televisão interfere na estrutura familiar?
Ruth –
Eu diria que não interfere. A televisão pode mostrar diferentes arranjos de família, diferentes modos de as pessoas viverem, mas ela está mostrando algo que há na sociedade. Há na sociedade essa multiplicidade de formas, de arranjos familiares.

A senhora acredita que antes da existência da televisão as pessoas tinham personalidades mais bem formadas do que hoje em dia? E o senso crítico, mudou com a televisão?
Ruth –
Não acredito que a televisão tenha qualquer influência no sentido da formação de personalidades. Ela pode criticar valores que já estão estabelecidos, ela pode mudar um pouco a atitude das pessoas, principalmente no sentido de que há comportamentos que hoje são mais generalizados do que eram antes. Mas isso não é responsabilidade da televisão – ela é somente uma parte daquilo que chamamos de comunicação de massa.

A televisão transmite a ideia de que as pessoas devem ser magras. Isso muitas vezes prejudica a saúde. Qual a sua opinião?
Ruth –
Eu acho que não é a televisão que faz isso. O mundo moderno, a ideologia que está presente no mundo moderno, as revistas de moda transmitem essa idéia de elegância, enfim. Esse não é um fenômeno somente brasileiro. No mundo contemporâneo a juventude, a elegância são cultuadas. Esse não é um problema que se explique ou se deixe de explicar tomando-se a saúde como exemplo. Existe também na sociedade uma série de movimentos que pretendem defender melhor a saúde das pessoas, toda uma defesa da alimentação natural, por exemplo. Isso também está presente na televisão e passa para diferentes setores da sociedade.

Qual o papel da televisão na sociedade?
Ruth –
O papel da televisão na sociedade é de entretenimento, de levar informações. A parte de informações é a mais deficiente. Não há uma parte importante da programação voltada para a informação. E cabe à sociedade manifestar-se sobre isso, demandar por critérios mais estritos, demandar por um conjunto de regras que sejam colocadas para a televisão e outros veículos de comunicação de massa. Esse é o ponto principal para que tenhamos algum controle sobre os meios de comunicação de massa.