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1057 O pioneiro da etologia no Brasil

Publicado por admin - Monday, 23 March 2015

ENTREVISTA

Aos 86 anos, o professor Walter Hugo de Andrade Cunha receberá o título de Professor Emérito do Instituto de Psicologia da USP no próximo dia 26

IZABEL LEÃO

Filósofo de formação, psicólogo por opção e etólogo por criação própria, mas acima de tudo pesquisador pleno, observador interessado, interlocutor constante e dedicado, capaz de prolongar-se em diálogos com reflexões incessantes em torno de problemas singelos dos quais extrai grandes revelações, o professor Walter Hugo de Andrade Cunha será homenageado, no próximo dia 26, pelo Instituto de Psicologia da USP com o título de Professor Emérito por seu pioneirismo na etologia – estudo comparativo do comportamento humano e animal – no Brasil.

Walter Hugo – como é conhecido – foi professor do Departamento de Psicologia Experimental do Instituto de Psicologia da USP entre 1958 e 1980, influenciando toda uma geração de estudantes, atuais docentes e pesquisadores que se espalharam por diferentes centros de pesquisa e ensino do País e do exterior. Possibilitou que a etologia brasileira criasse fortes raízes no seio da psicologia, devido à sua constante reflexão como filósofo, que nunca se furtou às críticas nem se vergou às contradições.

Hoje aos 86 anos, é membro atuante e reconhecido da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), da Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP), da Sociedade Latino-americana de Psicobiologia (SBP) e da Sociedade Brasileira de Etologia (Sbet).

Jornal da USP – O que representa para a sua trajetória de vida o título de Professor Emérito do Instituto de Psicologia da USP?

Walter Hugo – Eu não esperava isso, a essa altura da vida. Tenho recebido muitas homenagens. Geralmente sou homenageado por ser o pioneiro da etologia no Brasil. Há países em que a etologia é mais desenvolvida que a psicologia, como é o caso da Holanda. A etologia é uma ciência que surgiu por volta de 1835, foi fundada por Konrad Lorenz, zoólogo austríaco, pai da moderna etologia, e tem por objetivo estudar as causas e comportamentos, a evolução do comportamental animal, o valor de sobrevivência que tem o comportamento e o papel que tem o comportamento na evolução.

JUSP – Conte um pouco sobre a sua trajetória.

Walter Hugo – Nasci no município de Santa Vitória, Minas Gerais. Minha primeira formação é em Filosofia, pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da USP. Em 1956 comecei a atuar como professor e depois fui me aprimorar na Universidade do Kansas, nos Estados Unidos. Voltei com a tarefa de criar um laboratório no recém-criado curso de Psicologia. Minha tese de doutorado, de 1966, foi publicada como livro pela editora Ática com o título Explorações no Mundo Psicológico das Formigas. Ministrei a disciplina Psicologia Comparada, criei o primeiro núcleo universitário de pesquisa e ensino de pós-graduação de Etologia no Brasil e fundei o Laboratório de Psicologia Comparada do Instituto de Psicologia da USP. Quando eu ia fazer um experimento e ficava observando, tinha momentos que meu coração acelerava de tão emocionado que eu ficava de ver uma coisa tão importante. Descoberta é encantamento, dá ansiedade, apresenta um mistério para ser resolvido, um quebra-cabeça, trabalhar com o bicho para o bem do ser humano.

JUSP – Quando e por que surgiu esse interesse pela etologia?

Walter Hugo – Nem conhecia etologia. Fui etólogo antes de conhecer a etologia. Em 1952, depois de ter saído do colégio normal e de ter passado um ano numa fazenda com meu pai, voltei para o Colégio Roosevelt. Uma noite, conversando com meu irmão no quarto da pensão em que eu morava, bem atrás dele notei uma trilha de formigas que descia do alto do teto, até o chão, e subia o pé da pequena mesa onde havíamos deixado um doce aberto. Ele, muito aborrecido enquanto falava, ia esmagando algumas formigas. Observei, sem muita pretensão, que as formigas começavam a tremer e saiam numa correria, de modo geral, escapando. Defini essa atitude das formigas como uma reação emocional. Essa minha definição ia totalmente contra a corrente psicológica da época, o behaviorismo, que prega que os estados que experimentamos subjetivamente não têm papel caudal, simplesmente acompanham os fenômenos fisiológicos. Como admitir, no caso das formigas, que pudesse ser um fenômeno subjetivo, relacionado à memória, à percepção do perigo? Intrigavam-me os conceitos de vontade e representação, defendidos na metafísica de Schopenhauer. Consegui comprovar minhas impressões de que as formigas tinham um comportamento emocional diante da percepção do perigo.

O professor Walter Hugo de Andrade Cunha: "Descoberta é encantamento"

JUSP – Do seu ponto de vista, no que consiste a emoção?

Walter Hugo – A definição de emoção tem um significado muito contraditório na psicologia. São dezenas de definições que não concordam entre si. Tanto que já se pensou em eliminar o termo da ciência. Isso não aconteceu porque sentimos que a emoção diz respeito a algo importante que ainda não sabemos direito definir. No meu modo de ver, a emoção aparece numa relação que as coisas e acontecimentos têm conosco, ou seja, como foram as coisas e acontecimentos no nosso passado. Isso significa que não se pode separar um organismo psicológico do que foi o passado dele, de quais foram suas estimulações e diferenças do passado. A emoção se dá no momento em que sua memória, seu conjunto de experiências assimiladas dá sentido a um fato que aconteceu. A emoção é a pedra de toque do fenômeno psicológico.

JUSP – O que comprovam os seus estudos?

Walter Hugo – Meus estudos mostram que as formigas, pelo menos quando percorrem suas trilhas, estão num ambiente psicológico, cuja descrição só estará completa se conhecermos e entendermos a memória de cada indivíduo e suas experiências recentes e remotas. Suas reações a uma perturbação, que pode ser qualquer tipo de obstáculo, dependem de a formiga estar indo para o ninho ou para a fonte de comida. Depende também da distância que a separa do ninho, da sua experiência imediatamente anterior ou mais antiga com o estímulo perturbador. E, se a trilha não é um percurso simples, mas bifurca-se, formando duas vias paralelas que se unem de novo adiante, as reações da formiga dependem de ela estar numa ou noutra das duas vias. Ela age como se soubesse que há outra via à sua direita ou à sua esquerda. E depende ainda de ela ser uma veterana ou uma novata na arte de buscar comida.