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Do digital: atualizo, logo (não) existo

Publicado por admin - Wednesday, 20 May 2015

WILTON GARCIA

A cultura digital amplia as formas de comunicação, em particular na produção de conhecimento e subjetividade. Pensar sobre comunicação, consumo e tecnologias emergentes – como estratégia discursiva de pesquisa acadêmica/intelectual – constitui uma leitura de mundo capaz de (re)considerar a sociedade atual. Os projetos de investigação acerca das tecnologias emergentes, na universidade, potencializam o campo contemporâneo da comunicação, uma vez que observa a experiência humana, sobretudo quando se trata de fatores percepto-cognitivos.

“Atualizo, logo existo” é uma frase paródica de Andrew Keen. Resolvi subvertê-la ainda mais.

Nesse fluxo, são inúmeras as implicações que atestam a atualização e a inovação no contemporâneo. A cultura digital torna-se um facilitador predominante para o cotidiano, incluindo internet, redes sociais e telefone celular. Isso tem a ver com conexão, colaboração, compartilhamento, contato, interatividade etc.

Por um lado, eliminou-se a barreira entre espaço privado e público, ao se criar condições adaptativas de uma vida digital sociabilizada. A comunicação tecnológica ajuda a perceber melhor o outro, bem como a adentrar muito mais em uma empresa como cliente/consumidor, para além de um mero observador. Agora, a participação é mais (inter)ativa, em uma troca de pergunta-resposta constante entre envolvidos.

Por outro lado, há um bisbilhotar na vida alheia. A hipermídia invade lares, carros, escritórios, entre outros. As pessoas, assim, têm dificuldade de localizar e separar as afinidades e os relacionamentos, como distinguir quem é amigo, colega ou conhecido. Nas redes sociais, os seguidores confundem suas posições/funções, que deveriam gerar somente contatos amistosos.

Talvez a quebra de hierarquia nas redes provoque esse tipo de engano/equívoco, cujo espaço privado é exposto e se torna rapidamente público. Este último é bastante invadido, inclusive na individualidade do sujeito. Por isso, deve-se tomar providência para identificar uma imagem pública longe da vida pessoal. Mesmo que a conectividade on-line promova, paradoxalmente, maior distância entre as pessoas.

Verifica-se que a informação está cada vez mais pulverizada, ainda que consiga circular mais e melhor. Com a internet, a humanidade passou a produzir mais textos, imagens, sons etc.

Também há o aumento da flexibilidade com erros de português. A edição, correção e/ou revisão de um texto tornou o critério menos exigente. O copiar (ctrl c) e o colar (ctrl v) recuperam a escrita, com maior precisão; o que reduz, quiçá diminui a possibilidade de criação.

Para criar, é preciso pensar! E isso foi eliminado do cotidiano, com a acomodação do sujeito mediante a facilidade provocada pelo digital. As pessoas encontram quase tudo à mão, então não exercitam a capacidade de pensar e, consequentemente, agir.

Com a cultura digital acelerada, surge a dificuldade sobre a concentração no pensar. A sociedade adquiriu um alto grau de dispersão percepto-cognitiva, em razão da navegabilidade na internet – fluxo recorrente. O usuário-interator dispersa fácil, ao navegar pela rede como um barco, na superfície que vai ao longe, e não como um submarino, imerso, que pode aprofundar.

Do ponto de vista geográfico, trata-se de obter acesso às experiências de deslocamentos com mais ênfase à virtualidade. Por exemplo, saber o que acontece na cidade de Nova York, sem se deslocar até lá.

Diante da relevância adquirida por esse meio digital, como se fosse outro lugar, em que também se deve existir, não basta estar no mundo real. Se não estiver no mundo virtual, atualizando-se, a pessoa ou a empresa está excluída do sistema.

Também há tecnologias que compreendem a comunicação olho no olho traduzida a distância, como, por exemplo, o aplicativo de interface Skype, no qual se faz uma videoconferência. Portanto, pretende aumentar a noção de presença no virtual – eis um paradoxo.

Hoje, as pessoas têm um estranho medo de não ter acesso à internet e vivem o desespero de se atualizar sobre qualquer coisa: notícias, novidades, informes, lançamentos etc. Se for uma empresa, então, acredita que poderia até falir: se a empresa não está na internet, perde uma enorme parcela de contatos, como potenciais consumidores.

Contudo, cuidado, leitor, pois isso seria, na verdade, uma visão utilitarista ao extremo. É preciso atualizar a existência nessa cultura, mas com cautela e ponderação. Senão, seria uma mensagem apocalíptica contra a própria dinâmica das tecnologias emergentes, em conjunto com a sociedade contemporânea.

Foi-se o tempo em que a ideia de mercado seria vista/lida como lugar de troca da moeda, de circulação do capital. Um lugar em que a sociedade vivia e se comunicava por meio de intercâmbios. Também é impossível dissociar mercado-mídia. Estão extremamente vinculados a favor do consumo.

Wilton Garcia é artista visual e doutor em Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes (EAC) da USP