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Da cerveja à agroecologia

Publicado por admin - Wednesday, 20 May 2015

LANÇAMENTO

Arqueologia brasileira é tema de dossiê organizado pelo professor Eduardo Góes Neves para o número 83 da revista Estudos Avançados, que apresenta também estudos sobre saúde pública, economia e políticas culturais

SYLVIA MIGUEL

Para os produtores de um vídeo de grande circulação na internet, a cerveja não só mudou o mundo, mas o salvou. Tanto que sugerem uma nova classificação da linha do tempo para a história da humanidade. Os acrônimos a. C. e d. C., em vez de antes e depois de Cristo, deveriam significar antes e depois da cerveja, segundo esses produtores.  A discussão tem fundamento, pois a história e a arqueologia até hoje perguntam se foi a manufatura do pão ou da cerveja que teria proporcionado uma nova realidade para nômades caçadores coletores, de forma que começaram a se organizar em sociedades e a trocar mercadorias. Embora não seja possível estabelecer o que veio antes – o pão ou a cerveja – é certo que, na Mesopotâmia e no Egito antigo, homens, mulheres, crianças, ricos e pobres consumiam bebidas fermentadas. Porém, pouco se ouve falar da produção e do consumo de fermentados entre indígenas da América do Sul.

O professor Fernando Ozorio de Almeida, da Universidade Federal de Sergipe (UFS), envereda pela história etílica dos tupis-guaranis. No artigo que assina para a edição número 83 da revista Estudos Avançados – que acaba de ser lançada pelo Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP –, o professor argumenta que, muito além de um papel recreativo, os fermentados tinham um sentido social e ritualístico na vida das populações indígenas.

O dossiê “Aspectos da Arqueologia Brasileira”, organizado pelo professor Eduardo Góes Neves, do Laboratório de Arqueologia dos Trópicos (Arqueotrop) do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP, reúne estudos sobre a pesquisa arqueológica do Brasil. Num eixo, o dossiê explora conceitualmente a identidade do que se convencionou chamar arqueologia brasileira. Noutra vertente, os textos mostram aspectos da arqueologia da Amazônia, do Pantanal, dos povoamentos iniciais da América do Sul e de paisagens culturais do planalto sul brasileiro, além das práticas etílicas de povos tupis-guaranis.

Sinal de status e de hospitalidade, os fermentados criam excedentes e favorecem a cooperação entre grupos. Podem ter impulsionado o desenvolvimento de uma arte cerâmica mais sofisticada, pois o consumo de bebidas alcoólicas entre os povos se dava em potes diferenciados. Como ocorre hoje com taças para vinhos e tulipas para o chope, por exemplo. Os fermentados podem inclusive ter propiciado, nos últimos 30 mil anos, uma “revolução cognitiva”, demonstrada nas pinturas rupestres e na manipulação da argila, sugere o professor. Os grandes feitos da humanidade, as inovações, as artes e a religião teriam sido encorajados e aumentados pelo consumo de bebidas alcoólicas e seus profundos efeitos sobre o cérebro.

Se quase todos os grãos e tubérculos podem potencialmente resultar em cerveja, os relatos referentes aos tupis-guaranis mostram uma bebida produzida a partir da mandioca, segundo o artigo. A bebedeira teria sido também a culpada pela derrocada dos tupinambás por colonos europeus. Impedir as bebedeiras era tarefa mais complexa que impedir o canibalismo, traz o texto. Os índios voltaram a beber água, afinal, mas acabaram expostos às impurezas de seus dejetos e perderam os benefícios vitamínicos dos fermentados.

Disputas culturais – Ulpiano Bezerra de Menezes, Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, defende uma volta ao empírico na arqueologia, no sentido de os estudiosos pararem de buscar referências apenas fora do continente e se debruçarem mais nas evidências locais.

No artigo introdutório do dossiê, o professor Góes Neves faz uma homenagem a Menezes, e retoma as disputas culturais e a questão da autenticidade de vestígios históricos para introduzir o que chama de arqueologia brasileira.

Escavações: estruturas subterrâneas revelam as paisagens culturais

Claide de Paula Moraes, doutor pela USP e professor da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), questiona o determinismo agrícola na arqueologia amazônica e discute interpretações alternativas para o surgimento de grandes contingentes populacionais na Amazônia antiga.

Eduardo Bespalez, doutor pela USP e professor da Universidade Federal de Rondônia (Unir), faz uma abrangente revisão de dados arqueológicos do Pantanal e seu entorno, principalmente Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

O povoamento inicial da América do Sul é o tema tratado por Lucas Bueno, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), numa coautoria assinada por Adriana Dias,  professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

As paisagens culturais constituem-se na interação entre o homem e a natureza ao longo do tempo. Esse é o assunto de que trata o artigo da professora Silvia Moehleche Copé, também da UFRGS. Os estudos nos sítios arqueológicos dos municípios de Bom Jesus e Pinhal da Serra, no nordeste do Rio Grande do Sul, permitiram conhecer momentos importantes na história do planalto sul do Brasil, traz o artigo.

Escavações: estruturas subterrâneas revelam as paisagens culturais

Tradição e ciência – A seção “Ciência, valores e alternativas II” finaliza a série iniciada no número 82 da revista Estudos Avançados. Em contraste à edição anterior, que focava questões metodológicas, o número 83 traz textos sobre temas concretos da ecologia, da saúde pública, economia e políticas culturais.

“A ocupação do Congresso: Contra o que lutam os índios?” é o titulo do artigo assinado por Artionka Capiberibe, professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e  Oiara Bonilla, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF).

O novo Acordo Ortográfico é analisado por Evanildo Bechara, Professor Emérito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e da UFF.

“O sistema financeiro atual trava o desenvolvimento econômico” é o título do artigo do professor Ladislau Dowbor, professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. Ana Tereza Reis da Silva, professora da Universidade Nacional de Brasília, contrapõe os saberes tradicionais e a ciência no que se refere à proteção ambiental.

Nicolas Lechopier,  do IEA, analisa o que chama de quatro tensões na área de saúde pública. Agroecologia é tema de dois estudos dessa seção, assinados, respectivamente, por Hugh Lacey, membro do IEA, e Rubens Onofre Nodari, em coautoria com Miguel Pedro Guerra, ambos professores da Universidade Federal de Santa Catarina.

A revista finaliza com as resenhas de livros, com destaque para os três volumes sobre habitação social, escritos pelo arquitelo Nabil Bonduki e outros autores.