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A dimensão urbana do habitar

Publicado por admin - Monday, 25 May 2015

Heliópolis: novas construções “conversam” com as já existentes

URBANISMO

Em conferência na FAU, o arquiteto Héctor Vigliecca mostra exemplos bem-sucedidos de projetos de habitações coletivas em áreas críticas, como mananciais, cortiços e favelas

IZABEL LEÃO

O principal desafio da modernidade é o habitar coletivo da sociedade. Nos últimos anos, a problemática do habitar uma metrópole desencadeou centros urbanos esvaziados, com o patrimônio material deteriorando-se e as periferias ampliando-se cada vez mais, a tal ponto que são quase irreconhecíveis como espaços urbanos.

Para tratar desse tema e da forma como se pensa a cidade e suas habitações coletivas, a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP convidou para uma conferência, no dia 13 passado, o arquiteto uruguaio naturalizado brasileiro Héctor Vigliecca, que expôs para os alunos e professores da faculdade uma bagagem recheada de projetos reconhecidos internacionalmente.

Parque Novo Santo Amaro: recuperação ambiental

Durante sua fala, o arquiteto apresentou o livro O Terceiro Território – Habitação coletiva e cidade, organizado pela professora da FAU Lizete Maria Rubano e lançado no final de abril. Com texto de apresentação do também professor da FAU Luiz Recamán, a obra reúne projetos de habitação de interesse social e de reurbanização de favelas concebidos por Vigliecca e sua equipe, que revelam soluções para a construção de habitações coletivas em áreas críticas, como em região de mananciais, cortiços e favelas brasileiras.

Autor de projetos variados, Vigliecca fez propostas de reforma para a rua Oscar Freire, em São Paulo, e para a reurbanização de uma parte da favela Heliópolis, na zona sul paulistana, que hoje, graças à transformação por que passou, é chamada de Nova Heliópolis. A Arena Castelão, em Fortaleza (CE), também é um dos seus projetos.

Para Vigliecca, o maior desafio ao construir casas populares não é conciliar um projeto de qualidade com uma execução a preços baixos, e sim vencer a falta de vínculo entre os moradores e o espaço que ocupam. “Não se trata de fazer arquitetura, mas paisagens que possam inspirar uma promessa de enraizamento dessas pessoas”, reflete.

Segundo a professora Lizete Rubano, o livro de Vigliecca é uma oportunidade de compor o debate sobre o tema da habitação coletiva no Brasil, sobre nossas cidades e sobre o papel do projeto, sua potência e seu desejado vínculo com as estruturas sociais e com a maneira com que nos tornamos, por aqui, cada vez mais urbanos.

Vigliecca convida o leitor a refletir sobre seus questionamentos. Para ele, habitação social não é um problema construtivo nem um problema de quantidade. A questão é como se constrói a cidade, pois o âmbito urbano é entendido como principal fator que determina a qualidade do habitar. “A habitação deve sempre estar diretamente ligada à estrutura da cidade como um todo legível e indissolúvel, seja ele urbano ou suburbano.”

Na FAU: alunos se reúnem para ouvir Vigliecca

Diálogo – A opção de Vigliecca na gleba A de Heliópolis – em que eram previstas a remoção de uma faixa paralela ao córrego canalizado e a construção de unidades habitacionais – foi completar com nova arquitetura o vazio deixado pela desocupação planejada. A respeito dessa intervenção, Luiz Recamán, na apresentação de O Terceiro Território, afirma que as construções projetadas abraçam e conversam com as existentes, sem nenhuma indicação de substituição progressiva ou osmose. “Vigliecca dialoga com as construções existentes não apenas funcionalmente, mas estruturalmente, pois seu objetivo primeiro é a intensificação da vida urbana em direção a uma fronteira na qual modelos estáveis não são mais possíveis.”

O Parque Novo Santo Amaro V, mais um dos projetos de Vigliecca e equipe, se fez necessário por ser uma ocupação irregular em área de manancial em São Paulo. Diante de uma topografia acidentada, fundos de vales ocupados, casas autoconstruídas em situação de risco, raros equipamentos públicos e ligações viárias descontínuas, o arquiteto projetou uma lâmina habitacional “serpenteando” a área, criando condições de habitabilidade e recuperação ambiental. “Criamos uma linha de espelhos de água e uma pista de skate recompondo a área de fundo de vale e de nascentes, dada a impossibilidade de se manter o córrego a céu aberto. Com isso, alteramos a característica de fundos e de desvalorização da paisagem do córrego”, explica Vigliecca.

A favela Boulevard da Paz, também localizada numa área de mananciais, entre as estradas de Itapecerica da Serra e M’Boi Mirim, em São Paulo, é outro projeto que estabelece uma estratégia de ocupação buscando dar um novo significado ao território e integrar os fragmentos habitacionais.

O livro de Vigliecca: projetos

Além da construção de conjunto habitacional, foram criadas ali ligações transversais – as conhecidas passarelas – sobre o vale, para ligar a cidade e o bairro, oferecendo uma inesperada transposição para os moradores. O arquiteto explica que o projeto buscou adicionar qualidade urbana às ideias de conexão, mobilidade e articulação. “Entende-se o projeto como agente ativador de novas situações, compreendido como integrante de um sistema, uma rede mais ampla, atuante na cidade.”