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Novos caminhos do ensino de graduação

Publicado por admin - Monday, 8 June 2015

EDUCAÇÃO

Flexibilização curricular, valorização do ensino na progressão da carreira docente e treinamento dos professores em novos sistemas de avaliação foram algumas das novidades anunciadas por dirigentes durante o 1º Congresso de Graduação da USP, realizado de 25 a 27 de maio

SYLVIA MIGUEL

“Em 81 anos de USP, este é o primeiro em que é realizado um congresso de graduação, o que é simbólico no sentido de passar a mensagem de consolidação da graduação como atividade relevante e elemento fundamental da vida da Universidade”, disse o reitor Marco Antonio Zago durante o 1º Congresso de Graduação da USP, realizado de 25 a 27 de maio no Centro de Convenções Rebouças, em São Paulo. O evento contou com a participação do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, que é professor do Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

O reitor Marco Antonio Zago no evento: fortalecimento do ensino de graduação

O pró-reitor de Graduação da USP, professor Antonio Carlos Hernandes, destacou as novas diretrizes para a graduação da Universidade, sendo a de maior repercussão a decisão institucional de aderir ao Sistema de Seleção Unificada (Sisu). A Fuvest é atualmente a única forma de ingresso na USP. A adesão ao Sisu é feita por cursos e as unidades que aceitarem a nova alternativa de seleção poderão disponibilizar, em média, 15% das vagas oferecidas para os ingressantes via Sisu, disse Hernandes. As unidades têm até esta sexta-feira, dia 12, para se manifestar sobre a decisão. O termo de adesão ao Sisu deverá ser feito pela USP até setembro no Ministério de Educação e Cultura (MEC), acrescentou Hernandes.

O pró-reitor afirma que 28 das 42 unidades de ensino e pesquisa já se manifestaram a favor da introdução de outros mecanismos de ingresso além da Fuvest. “Esta é uma abertura importante para a inclusão social e a aceitação tem sido grande entre os dirigentes. Na próxima reunião do Conselho Universitário, as unidades deverão informar quais cursos irão aderir e quantas vagas irão disponibilizar”, afirmou.

A USP ofereceu 11.057 vagas no vestibular de 2015, correspondentes a 245 cursos de graduação. Se todos os cursos disponibilizassem 15% de vagas para ingressantes via Sisu, haveria uma oferta de mais de 1.600 vagas da USP para o exame nacional. “A Fuvest e o Sisu são provas diferentes e possuem calendários distintos. O aluno pode optar por qual irá fazer. Se passar nos dois, só terá que decidir qual nota vai usar”, explica Hernandes.

Entre as unidades que já manifestaram a intenção de aderir ao exame nacional estão FFLCH, Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA), Faculdade de Medicina (FM), Faculdade de Direito (FD) e todas as unidades do campus de Ribeirão Preto, assim como as de Bauru, Lorena, Pirassununga e Piracicaba. Algumas ainda não se manifestaram, como é o caso da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) e da Escola Politécnica (Poli). A Escola de Comunicações e Artes (ECA) não quer aderir, assim como a Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) e o Instituto de Química de São Carlos (IQSC). As outras unidades de São Carlos se manifestaram favoráveis, segundo Hernandes.

A Pró-Reitoria de Graduação fez a proposta de 15% para as unidades tendo como base a média da relação candidato-vaga e também os índices de desistências de cursos, que apontam as vagas que potencialmente podem surgir ao longo do ano, informou Hernandes.

Ensino valorizado – Para consolidar a graduação como atividade relevante, é preciso que, em primeiro lugar, o docente dê aula com vontade e dedicação, disse Zago. “Sempre ouvi que o trabalho docente não é devidamente valorizado. Há muitas queixas de que a progressão na carreira só olha a produção científica e deixa de lado o bom desempenho no ensino. Por isso criamos um grupo de trabalho que avaliará mecanismos, regulamentos e resoluções que façam com que o ensino da graduação seja importante na progressão da carreira”, disse.

Novas tecnologias voltadas para o ensino: alunos motivados e interessados

O reitor anunciou também que a USP deverá implantar treinamentos para habilitar docentes em novos métodos de avaliação. “Não se nasce sabendo avaliar nem se resolve isso intuitivamente. Há métodos complexos e muitos estudos sobre o tema; precisamos estudar mais e nos modernizar a esse respeito”, disse.

Algumas das decisões do Conselho Universitário, em reunião no dia 19 de maio, afetam decisivamente a graduação. Segundo o pró-reitor Antonio Carlos Hernandes, a flexibilização curricular permitirá que a própria unidade apresente projetos e implemente as alterações de grades curriculares sem que seja necessária a aprovação em instâncias superiores. Além disso, todo esse trâmite passa a ser feito digitalmente.

Com isso, uma alteração curricular que antes podia levar até três anos poderá ser aprovada pela unidade de um semestre para outro. “Na Pró-Reitoria de Graduação, 60% dos processos tinham a ver com reformulação curricular. E tudo era feito em papel, resultando num enorme tempo e alto custo para a Universidade”, disse o pró-reitor ao Jornal da USP.

A internacionalização da USP ainda tem na graduação um gargalo. Uma parte disso poderá ser minimizada com a introdução de disciplinas optativas livres em língua estrangeira, sem a correspondente em português, disse o pró-reitor. “Verificamos que temos respaldo acadêmico e jurídico para implementar disciplinas optativas livres em qualquer língua”, afirmou.

No que se refere ao registro das atividades acadêmicas, além das disciplinas cursadas, o graduando agora terá espaço para incluir no Sistema Júpiter suas atividades extracurriculares, como a participação em diretórios, centros acadêmicos, atléticas, grêmios, associações e outras. “Cada vez que o aluno precisava comprovar habilidades, tinha que solicitar que a Comissão de Graduação incluísse suas horas de participação em atividades externas. Agora, no currículo do Júpiter vão aparecer conteúdo e habilidades”, disse Hernandes.

Democratização – No seu discurso de abertura do 1º Congresso de Graduação da USP, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, defendeu a democratização do acesso à Universidade. “Acho muito feliz o debate sobre novas formas de ingresso. A Fuvest é muito respeitada, mas um pouco restrita, se considerarmos a importância da USP. A seleção, quanto mais ampla, muito melhor para a captura de talentos. Vide as universidades estrangeiras, em que a seleção é voltada aos alunos do mundo inteiro”, disse Haddad.

Para o prefeito, as alternativas de reestruturação estão relacionadas ao debate da extensão, ou seja, ao relacionamento da Universidade com o entorno. Ressaltou que a USP desempenha um papel fundamental na vida da metrópole e na condução dos negócios e dos interesses públicos de todo o Brasil.

O reitor citou iniciativas de extensão em andamento na Universidade. “Há coisas em que podemos cooperar, caso de uma unidade do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) que inauguramos na Universidade. Está em discussão a implantação de um posto de saúde num terreno da USP que poderá ser ocupado pela Prefeitura. As creches também são espaços em que poderemos cooperar fisicamente”, afirmou Zago.

O professor Carlos Vogt, presidente da Universidade Virtual do Estado de São Paulo, também discursou na abertura do evento e ressaltou a importância da democratização do ensino superior através das novas tecnologias do ensino não-presencial. Para Haddad, esse tipo de acesso é importante especialmente para quem já trabalha.

“A juventude que está hoje no mercado de trabalho tem entre 27 e 30 anos de idade e se vale da educação a distancia para aprimorar a carreira. Portanto, esse congresso é uma oportunidade de discutir acesso, permanência nos cursos e expansão do ensino”, disse Haddad.

Novas metodologias de ensino

Esqueça a figura tradicional do professor como mestre detentor do conhecimento, que fala para uma plateia que recebe passivamente determinado conteúdo. As apresentações orais e as exposições de pôsteres durante o 1º Congresso de Graduação da USP mostraram que as novas práticas de ensino valem-se não só de uma diversidade de recursos didáticos e também da educação a distancia, mas também das chamadas metodologias ativas de ensino-aprendizagem, que focam o aluno como produtor do conhecimento em sala de aula.

Para mostrar as novas didáticas de ensino praticadas na graduação, o evento selecionou 399 trabalhos dos 444 inscritos, sendo que 21 foram apresentados oralmente e outros 377 ficaram expostos em forma de pôsteres.

O professor Fábio Siviero, do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, mostrou como conseguiu transpor as dificuldades didáticas diante da expansão de turmas na área da biologia tecidual e celular. “Os alunos faziam filas para observar as lâminas nos microscópios. As aulas não rendiam. Com algumas parcerias, adotamos um software que escaneia as lâminas. A leitura das imagens é feita em grupos de três alunos para cada computador. O rendimento dos alunos melhorou e o docente conduz a aula com maior tranquilidade”, disse Siviero.

O professor Giuliano Olguin com aluno: mudanças no currículo do IME

O professor Giuliano Olguin mostrou a profunda reformulação da grade curricular do Bacharelado em Ciências da Computação do Instituto de Matemática e Estatística (IME) da USP, que em 2016 começará a ser aplicada às novas turmas. O norte da reforma foram as necessidades do aluno, em vez dos conteúdos curriculares por si. O aluno pode escolher entre quatro “trilhas” de conhecimento: algoritmo e complexidade; sistemas de software; ciência de dados; e inteligência artificial. O total de disciplinas obrigatórias deverá somar 60% do curso, em vez dos 80% anteriores. “As novas especialidades e a interdisciplinaridade das ciências da computação apontaram para a necessidade de modernizar um currículo que praticamente não havia se alterado em 40 anos”, disse Olguin.

O professor Fábio Siviero, do ICB: software aplicado à biologia

A professora Carmen Pimentel Cintra do Prado, do Instituto de Física (IF) da USP, mostrou como sua unidade vem aplicando, pelo segundo ano, o método de aprendizagem ativa em cinco turmas do ciclo básico do bacharelado. A disposição da sala de aula é totalmente diferente do que se conhece e o processo de ensino-aprendizagem é focado nas necessidades do aluno e naquilo que ele constrói em sala, e não em conteúdos estáticos, explicou.

O professor Paulo Rogério Miranda Correia, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, mostrou como mapas conceituais estão ajudando a ver a transformação e a estruturação do conhecimento durante o processo de ensino-aprendizagem. “O mapa conceitual está para o conhecimento assim como o mapa cartográfico está para a localização geográfica. Não nos achamos sem a ajuda de um mapa”, disse.