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Deus brinca – e Lauand explica

Publicado por admin - Monday, 3 August 2009

LIVRO
MARCELLO ROLLEMBERG

Livro homenageia o professor da Faculdade de Educação Jean Lauand, que acaba de se aposentar. Especialista em Tomás de Aquino, o professor é autor da originalíssima tese do Logos ludens – aquela que afirma que há componentes racionais e lúdicos na Criação

O professor Jean Lauand sempre foi um homem que estudou o passado, com os olhos voltados para o futuro. E soube contemplar o presente, aplicando nele – nas salas de aula e nos textos que escreveu e ainda escreve – os ensinamentos adquiridos nos estudos de, principalmente, dois filósofos: Tomás de Aquino e o alemão Josef Pieper. Foi esse somatório de qualidades acadêmicas e pessoais (indissociáveis para aquele que deseja ser, de fato, um mestre) que fez dele um professor admirado por seus alunos da graduação e pós-graduação da Faculdade de Educação (FE) da Universidade de São Paulo. E reconhecido também pela própria USP, que lhe concedeu em 1991 o título de “Professor do Ano”. Depois de quase três décadas no ofício de ensinar, Jean Lauand se aposentou em maio – e acaba de ganhar uma justa homenagem: o volume O Intérprete do Logos. Organizado pelo jornalista e doutorando em Filosofia da Educação Roberto C. G. Castro (editor do Jornal da USP), o livro traz 21 textos escritos por vários pensadores da educação que abordam a trajetória acadêmica do professor homenageado, além de uma longa entrevista feita por Castro com Lauand e uma bibliografia comentada de suas principais obras. Ao longo de sua carreira, o professor publicou mais de 50 livros e 200 artigos.
Livros-homenagem são sempre perigosos. Afinal, a possibilidade de cair em um tom rebarbativo e laudatório é muito grande, diminuindo ou relativizando o valor do homenageado e da própria homenagem prestada. Esse, no entanto, não é caso deste trabalho. Os textos apresentados no volume, escritos por especialistas brasileiros e estrangeiros, procuraram seguir um dos ensinamentos de Lauand: o respeito à forma e ao conteúdo e um estrito caráter acadêmico e científico. Ou seja, nas mais de duas dezenas de artigos apresentados, há, claro, uma intenção óbvia de se elogiar o professor que se aposentou e seu trabalho de muitos anos, mas não há uma linha sequer de exagero, de cores mais fortes ou o tom  de “por que me ufano de um mestre”. O rigor das palavras e do pensamento dos articulistas, este sim, é a maior homenagem que Lauand poderia receber. Afinal, como afirma o espanhol Miguel Ángel García Olmo, da Universidade Católica San Antonio, de Múrcia, “entre os objetos preferidos do pensamento de Jean Lauand destaca-se principalmente a linguagem”. Talvez o único senão seja o artigo assinado pelo professor Berthold Wald, da Universidade de Paderborn, na Alemanha. A edição manteve a versão no original em alemão, o que obstaculiza sua compreensão mesmo para aqueles munidos de extrema boa vontade e interesse – mas sem domínio do idioma teutônico.

Lauand: um criador bem-humorado

Lauand: um criador bem-humorado

Deus brinca – Luiz Jean Lauand, neto de imigrantes libaneses, nasceu em 1952 e cresceu e se criou em São Paulo. Em 1970, entrou na Escola Politécnica da USP, onde vivenciou um grande prazer e uma decepção: ao mesmo tempo em que se maravilhava com a álgebra linear – um dos ramos mais abstratos da matemática –, se decepcionou com as disciplinas técnicas e específicas da engenharia. Resultado: deixou a Poli de lado, prestou outro vestibular e ingressou, em 1971, no Instituto de Matemática e Estatística (IME). Foi após obter a licenciatura – e a convite do medievalista Ruy Afonso da Costa Nunes – que Lauand começou seu mestrado na Faculdade de Educação. Uma década depois, em 1981, ele foi admitido como professor da FE e começou sua trajetória de professor, pesquisador, autor e tradutor. Lauand defendeu seu doutorado em 1986, sobre a filosofia da educação do alemão Josef Pieper e, dez anos mais tarde, arremata sua tese de livre-docência acerca da doutrina da prudência do filósofo medieval Tomás de Aquino. Mas é em 2000 que vem a lume talvez sua contribuição mais original para o pensamento filosófico e educacional: a aula “Deus ludens – o lúdico no pensamento de Tomás de Aquino e na pedagogia medieval”.
Apresentada para a obtenção do título de professor titular da Faculdade de Educação, é nela que Lauand – como afirma Castro em sua apresentação ao volume – “revela a ideia de que a realidade criada possui um fundamento lúdico e, como tal, está fundada também no mistério e no incognoscível”. Ao citar dois elementos aparentemente antagônicos – o Logos, racional, e o ludens, lúdico –, Lauand uniu-os e encontrou um ponto de tangência que recobre sua ideia de uma originalidade ímpar. Não é o caso aqui de contrapor sua tese com a famosa frase de Einstein – aquela na qual o físico afirmava que “Deus não joga dados com o Universo” –, mas sim refletir acerca de tudo o que nos envolve. E que é conhecimento. “A Criação é obra do Logos ludens. São, portanto, dois componentes: o racional e o lúdico. Não é só Logos, nem é só ludens, mas uma racionalidade envolvida por bom humor e mistério”, explica Lauand. É curioso pensar em um Criador bem-humorado, ainda mais se levarmos em conta a famosa (quase um clichê) culpa judaico-cristã que nos sobrecarrega os ombros há milênios. Mas é quase um bálsamo sabermos que, em meio a esta barafunda toda conhecida como Universo (com ou sem Teoria do Caos), existe um quê de lúdico, de brincadeira bem arquitetada. Talvez isso explique muita coisa, muito mais do que podemos imaginar.
A justa homenagem a um professor que dedicou tantas décadas de sua vida a bem ensinar e a formar novos pensadores é algo que deveria ser recorrente nas universidades brasileiras. Um professor aposentado não pode ser descartado, como uma vaga funcional que deixa de existir. Ele é um xamã, que precisa e deve continuar a propagar seu conhecimento. Por isso Lauand não vestiu o pijama e continua a ministrar aulas na pós-graduação da FE e a orientar seus alunos. Um farol, que se recusa a apagar.

O Intérprete do Logos – Textos em homenagem a Jean Lauand, de Roberto C. G. Castro (organizador), Editora da Escola Superior de Direito Constitucional (telefone 3663-1908), 294 páginas, R$ 40,00