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O equilíbrio necessário

Publicado por admin - Monday, 22 June 2015

LANÇAMENTO

O sistema monetário de preços estáveis permite equilibrar a economia, ao mesmo tempo em que reproduz e perpetua as desigualdades. As contradições das duas principais linhas teóricas da economia são repassadas no novo livro do professor João Sayad, Dinheiro, Dinheiro, lançado no dia 16 passado

SYLVIA MIGUEL

Política monetária é o tema principal do novo livro do professor João Sayad, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP. Dinheiro, Dinheiro – Inflação, desemprego, crises financeiras e bancos, lançado no dia 16 passado pela Portfolio Penguin, da Editora Schwarcz, não se limita a fazer um relato histórico sobre os usos e funções da moeda e sua relação vital com o equilíbrio ou o desequilíbrio da economia. Leva o debate para as visões contraditórias reproduzidas na área econômica com diferentes nomes ao longo do tempo: de um lado, os pressupostos da cartilha econômica clássica, conservadora; de outro, os keynesianos, neoclássicos, ou progressistas.

O equilíbrio necessário

“O livro é uma visão desesperançada do conflito permanente entre duas linhas de pensamento mais tradicionais da economia e que refletem as teorias conservadoras e as progressistas. Não é possível vivermos sem um sistema monetário de preços estáveis, pois isso organiza as sociedades capitalistas desde os anos de 1700. É um sistema gerador de iniquidades, mas, ao mesmo tempo, o que organiza a sociedade no momento”, diz o professor.

Embora contraditórias entre si, as concepções conservadora e neoclássica possuem raízes comuns, calcadas nas diferentes noções sobre individualismo, liberdade e preocupações com igualdade e estabilidade social, lembra o professor.

Para os monetaristas, “é preciso manter a instituição monetária a qualquer custo”. Já os keynesianos acreditam que “é preciso manter o emprego a qualquer custo, caso contrário o atual sistema de organização social pode sofrer uma ruptura política tal qual foi o nazismo ou o stalinismo nas décadas de 1930”, afirma Sayad.

Os subtemas do livro – inflação, desemprego, crises financeiras e bancos – dizem respeito à vida de todo cidadão. Uma diversidade de assuntos é tratada em capítulos curtos, em geral, algo como duas páginas para cada tópico. Mas o tema unificador é sempre o dinheiro.

Assim, nos capítulos sobre inflação latino-americana, inflação brasileira, indexação econômica, Plano Real, ou sobre o Plano de Ação Econômica do Governo (Paeg), só para citar algumas abordagens sobre o mesmo tema, o autor mostra as diferentes funções assumidas pela moeda em determinados períodos inflacionários.

Mito – Dinheiro, para os monetaristas, é apenas um expediente que facilita as transações de uma imensa e complexa economia de troca. Para keynesianos, além de facilitar trocas, é unidade de conta e também reserva de valor, isto é, todos os bens têm preços expressos em dinheiro, que pode ser acumulado para ser trocado no momento oportuno por bens e serviços; é um porto seguro contra a incerteza dos investimentos, traz o livro.

Mesmo que não sintonizados com monetaristas ou keynesianos, pensadores obrigatórios também entram em algumas partes do livro. Karl Marx, por exemplo, constrói seu pensamento tendo como ponto inicial a mercadoria. Ele assume a mercadoria como unidade de valor de uso e de valor de troca. O dinheiro seria a expressão do valor. Na visão marxista, o dinheiro serve antes como meio de circulação, depois como unidade de conta e, finalmente, como reserva de valor, segundo o autor.

Em Marx, mercadorias são trocadas por dinheiro, que será trocado por mercadorias. Na economia capitalista, o esquema de circulação de Marx é substituído pelo circuito no qual o dinheiro é trocado por mercadorias para serem trocadas por mais dinheiro, que se valoriza. O sujeito da economia é o capital, que tem por objetivo se valorizar, mostra o livro.

Talvez por assumir funções tão importantes na vida econômica e social, o dinheiro acaba por assumir o papel de mito, na interpretação do autor. Porque ultrapassa o símbolo ou o valor que ele representa, figurando um pedaço de papel que pode representar “virtualmente tudo e efetivamente nada”.

Seu valor é dado com rituais como as reuniões periódicas do Copom ou os regimes de meta de inflação. Mas, na essência, ele tem valor porque existe confiança e credulidade dos participantes da economia que aceitam o dinheiro como dinheiro. Portanto “é um mito cuja funcionalidade depende da fé de quem o utiliza, assim como os santinhos religiosos”, comenta a professora Leda Paulani, também da FEA, no texto de orelha de capa.

Em entrevista ao Jornal da USP, Sayad diz que a crise do euro tem origem numa “união incompleta”, já que a moeda foi criada sem a instituição de uma fiscalização monetária e financeira centralizada no Banco Central Europeu. Isso permite que os bancos dos diferentes países da região possam assumir posições temerárias que não levem em conta a área total da zona do euro. Além disso, não há controle fiscal nenhum, afirma.

“Passada a crise, esperamos que exista uma união bancária no mercado comum europeu, de forma que todos fiquem submetidos à mesma fiscalização. Além disso, a região precisa de uma lei de responsabilidade fiscal, para que todos os Estados soberanos da região não assumam divisas sem limites”, afirma o ex-ministro de Planejamento, ex-secretário da Fazenda e ex-ministro da Cultura.

Dinheiro, Dinheiro – Inflação, desemprego, crises financeiras e bancos, de João Sayad, Portfolio-Penguin, 352 páginas, R$ 49,90