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De volta ao Cairo

Publicado por admin - Monday, 22 June 2015

LANÇAMENTO

Livro faz homenagem ao professor Helmi Nasr – fundador, em 1962, do curso de Língua, Literatura e Cultura Árabe da USP –, que anunciou o seu retorno definitivo para o Egito

O mestre da língua e cultura árabes da USP está em fase de despedida do Brasil. O professor Helmi Nasr – fundador, em 1962, do curso de Língua, Literatura e Cultura Árabe da então chamada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da USP – anunciou seu retorno definitivo para o Egito, de onde saiu há mais de 50 anos para lecionar na Universidade. A despedida foi marcada pelo lançamento, no dia 8 passado, em São Paulo, do livro O Diplomata da Língua e Cultura Árabes – Estudos em homenagem a Helmi Nasr.

No evento de lançamento do livro, estavam presentes docentes da USP que atuaram com o professor ao longo de sua carreira na Universidade, como Aida Hanania, ex-chefe do Departamento de Línguas Orientais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), Jean Lauand e Roseli Fischmann, ambos da Faculdade de Educação, além do jurista português Paulo Ferreira da Cunha, da Universidade do Porto, em Portugal.

O livro em homenagem a Nasr: entrevistas

A homenagem tem boas razões de acontecer. Além de ser o pioneiro dos estudos árabes na USP e de ter formado gerações de alunos, Nasr é o tradutor para o português do Alcorão, num trabalho que levou mais de 20 anos para ser concluído. Publicado no Brasil em 2005, é a única versão para o português autorizada pelo Complexo do Rei Fahd, na Arábia, instância mais oficial do Islã. Nasr publicou ainda o Dicionário Árabe-Português e traduziu para o árabe obras como Novo Mundo nos Trópicos, do sociólogo pernambucano Gilberto Freyre. Em 2007, foi indicado para integrar o Conselho dos Sábios da Liga Islâmica Mundial, em Meca, órgão consultivo que reúne 21 personalidades do mundo islâmico.

Essa trajetória de Nasr está contada no livro em sua homenagem, organizado por Aida Hanania e Jean Lauand. Nele, o professor conta como “uma série de circunstâncias” fez com que o jovem professor do Cairo fosse enviado ao Brasil para lecionar árabe. Segundo ele, no início de 1962, o então presidente brasileiro Jânio Quadros fez uma visita aos principais líderes orientais da época, como o primeiro-ministro da Índia, Pandit Nehru, e o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser, que então gozava de enorme prestígio internacional. “Voltando ao País, cheio de admiração por esses estadistas, decidiu criar, no Brasil, estudos orientais, e pediu à Universidade de São Paulo que criasse esses cursos”, lembra Nasr. “A USP, em atenção ao pedido do presidente, resolveu criar sete cursos (Árabe, Hebraico, Russo, Chinês, Japonês, Armênio e Sânscrito) e contatou os países correspondentes, em busca de professores que se dispusessem a vir para cá.”

O Alcorão: tradução

Nasr chegou ao Brasil em 1º de maio de 1962 e foi recebido pelo então diretor da FFCL, professor Mário Guimarães Ferri. Em setembro, eram iniciados os primeiros cursos livres, ministrados nos três períodos (manhã, tarde e noite). “Para mim, foi muito bom, porque gosto muito do Brasil e de seu povo, que tem características semelhantes ao povo do Oriente, além do fato de que há uma numerosa colônia árabe no Brasil. Essa colônia, em geral, ocupa uma boa posição econômico-social, mas necessita também, ao lado dessa posição privilegiada, de uma posição intelectual adequada. O curso de Árabe na USP era um núcleo para esse trabalho.”

Valores – Numa das entrevistas de Nasr publicadas em O Diplomata da Língua e Cultura Árabes, o professor aborda também o desconhecimento mútuo que ainda persiste entre o Oriente e o Ocidente. “É necessário um trabalho para corrigir os preconceitos e para a divulgação da genuína cultura, das tradições, da história”, diz Nasr, e acrescenta: “Os árabes têm uma tradição importante e valiosa para a história universal: durante oito séculos, lideraram o mundo, o que não se pode contestar. Mas esse fato é, por vezes, ignorado, como se isso não tivesse ocorrido. Fala-se dos gregos, dos romanos, da Europa e passa-se por cima de 800 anos de esplendor árabe, negando injustamente o papel da cultura árabe para o desenvolvimento da civilização europeia. Foram os árabes que transmitiram à Europa toda a cultura das civilizações anteriores a ela: egípcia, grega, indiana, persa… Os árabes assimilaram a cultura desses povos e a transmitiram à Europa: a matemática, a filosofia, a medicina, a geografia etc. Como negar esses fatos?”.

Helmi Nasr: mais de 50 anos a serviço da cultura árabe no Brasil

Os valores ocidentais também são discutidos por Nasr nas entrevistas publicadas no livro. Sobre o caráter cada vez mais laico da sociedade ocidental, diz o sábio árabe: “O Ocidente, embora esteja tão avançado em termos de ciência e tecnologia, minimiza o lado espiritual. Ora, sem a espiritualidade, o progresso material não chega a ser autêntico progresso humano. E a Europa toda e a América do Norte estão esquecidas do espírito e do coração, voltadas somente para um progresso material: a tecnologia, o capital etc. Esquecem-se do coração, da compreensão, de ver o próximo, ao mesmo tempo em que fomentam o materialismo, o consumismo, a violência, em detrimento da religião e da ética, essenciais para a vida”. E completa: “O Ocidente deve voltar-se um pouco para a espiritualidade e, portanto, para o Oriente, para poder desfrutar de um modo humano do progresso material que criou. Sem isso nunca haverá paz”.