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Odontologia e hipertensão descontrolada: riscos

Publicado por admin - Tuesday, 28 July 2015

Com o aumento da hipertensão arterial na população, é importante alertar sobre a importância de cuidados especiais com os hipertensos .A pressão alta pode ter causas como má alimentação, fumo, álcool e falta de exercícios. Por isso, é importante alterar esses hábitos

CARLA ANDREOTTI DAMANTE, FLÁVIO AUGUSTO CARDOSO FARIA, MATHEUS VÖLZ CARDOSO, LUÍSA ANDRADE VALLE E RAPHAELLA COELHO MICHEL

A hipertensão arterial, popularmente chamada de “pressão alta”, é considerada um problema de saúde pública, pois contribui para a maioria dos casos de doença cardiovascular, derrame, falência dos rins, invalidez e morte prematura. Informações divulgadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que mais de uma em cada três pessoas têm pressão alta. Em 2008, 40% dos adultos com 25 anos ou mais, no mundo, sofriam de hipertensão. No mesmo ano, 17,3 milhões de pessoas morreram apenas em razão de doenças cardiovasculares.

Muitas pessoas não sabem que estão com esse problema, já que a maioria dos casos não apresenta sintomas. Às vezes, o cirurgião- dentista pode ser o primeiro profissional a detectar a hipertensão. Como consequência, isso contribui para mais de 9 milhões de mortes registradas todos os anos, sendo metade dos óbitos provocada por doenças cardiovasculares e derrames. No cotidiano do cirurgião-dentista, muitos pacientes relatam esse problema, fazendo com que haja algumas limitações nos tratamentos odontológicos. Com o aumento da prevalência de hipertensão arterial na população brasileira, torna-se importante divulgar, para a comunidade e profissionais da saúde, a importância e necessidade de exames clínicos criteriosos dos pacientes e um cuidado especial aos hipertensos, inclusive em procedimentos odontológicos, em que as complicações podem ser severas.

A pressão alta pode ter diversas causas, como má alimentação, fumo, falta de exercícios e consumo de álcool. Assim, alterar esses hábitos é muito importante, mesmo quando algum tratamento medicamentoso já esteja sendo feito, evitando alguns problemas associados a essa doença (doenças renais, complicações cardíacas) que tragam ainda mais agravos ao paciente.

A hipertensão é classificada da seguinte forma: 12/8 a 13/8 (normal); 12 a 13,9/8 a 8,9 (pré-hipertensão); 14 a 15,9/9 a 9,9 (hipertensão, estágio I); 16 a 17,9/10 a 10,9 (hipertensão, estágio II) e acima de 18/11 (hipertensão, estágio III).

Uma pessoa é considerada hipertensa quando, em diferentes ocasiões de aferição da pressão arterial, possuir os índices de (ou acima de) 14/9. Se o paciente possuir doença renal crônica, diabetes ou outras condições que também possam afetar o coração e a circulação sanguínea, o índice de pressão ideal é abaixo de 13/8. Sendo que em todos esses casos, têm extrema importância os constantes acompanhamentos médicos para diagnóstico e tratamento.

Algumas situações alteram a medição da pressão arterial, como agitação devido às atividades diárias, respiração ofegante, temperatura ambiente alterada, período ou situação de sobrecarga do estresse emocional, recente realização de esforço, estar apresentando dor, hora do dia, uso recente de cigarro ou álcool, além do tempo decorrido desde a última refeição e a posição na hora do exame.

Curiosamente, existe uma condição denominada “hipertensão ao jaleco branco”, em que o estresse pré-exame pode estar associado a uma resposta de alerta ou até mesmo ao medo em relação ao procedimento que será realizado. Tal condição gera aumento da pressão arterial ao ser aferida no consultório pelo profissional, porém, quando mensurada em casa ou outros locais, a pressão se mostra normal.

O tratamento odontológico, principalmente cirúrgico, em hipertensos descontrolados tem riscos sérios, como angina (dor no peito), infarto do miocárdio e derrame na cadeira do dentista. Outra possível complicação está relacionada ao uso dos anestésicos locais, que possuem na composição substâncias que promovem a vasoconstrição e o aumento da pressão arterial, em pacientes com pressão sanguínea alta, podendo desencadear a elevação da pressão sanguínea e levando ao risco de desenvolver arritmia cardíaca, derrame ou infarto do miocárdio no paciente durante o atendimento odontológico. Nesses casos, é necessário o adiamento das cirurgias.

Portanto, quando uma cirurgia odontológica é cancelada por motivos de pressão alta, o paciente deve confiar no profissional e aceitar o aconselhamento de procurar um cardiologista com urgência.

Em muitos casos, o cirurgião-dentista trata pacientes hipertensos e controlados. Estes, no estágio I ou II da doença, que usam medicação anti-hipertensiva, toleram as doses usuais de anestésico com vasoconstritores e podem ser submetidos a tratamento odontológico. Já pacientes com hipertensão no estágio III devem ser submetidos apenas a procedimentos não-invasivos, evitando procedimentos cirúrgicos odontológicos.

É de extrema importância que a população esteja consciente dos benefícios existentes ao cuidar e proteger a sua saúde, pois a hipertensão e outras condições sistêmicas, como diabetes, podem influenciar no tratamento odontológico. Os dentistas e outros profissionais da saúde também devem estar atentos à condição sistêmica dos seus pacientes, identificando possíveis alterações e indicando os tratamentos condizentes às condições apresentadas.

É necessário o correto entendimento dos agravos mais comuns de saúde da população e suas principais características, além de contar sempre com o apoio e opinião de outros profissionais na área da saúde, visando a tratar as condições apresentadas como um todo, utilizando para isso as competências e conhecimentos acumulados das diferentes áreas.

Carla Andreotti Damante é professora assistente da disciplina de Periodontia da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) da USP

Flávio Augusto Cardoso Faria é professor titular da disciplina de Farmacologia da FOB

Matheus Völz Cardoso, Luísa Andrade Valle e Raphaella Coelho Michel são alunos de mestrado em Periodontia da FOB