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A arte de formar gestores do futuro

Publicado por admin - Tuesday, 28 July 2015

Convívio do administrador com a música, com o cinema e com as artes plásticas enriquece seu repertório de ideias e o torna um líder necessário, defende professora da Fearp, que promove visita de alunos a exposições de arte

RITA STELLA
De Ribeirão Preto
A professora Claudia Souza Passador – docente do Departamento de Administração da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (Fearp) e coordenadora da Escola Técnica e Gestão, ambas da USP – leva alunos de pós-graduação em Administração de Organizações para aulas numa exposição de arte contemporânea da cidade. O objetivo, segundo ela, é formar gestores mais criativos e capacitados – por meio das novas sinapses que a arte oferece às mentes desses futuros profissionais – para fazer diagnósticos, prever futuro e criar estratégias em meio a crises.
A atividade é chamada de Laboratório de Ideias pela professora Claudia, responsável pela iniciativa, em conjunto com os arte-educadores do Instituto Figueiredo Ferraz, de Ribeirão Preto, que realiza, até 19 de dezembro deste ano, a exposição “O Espírito de Cada Época”, sobre arte contemporânea, enfatizando as décadas de 1980, 1990, 2000 e 2010. “Como a exposição trabalha com eixos temáticos, resolvi cruzá-los com os assuntos de sala de aula. Assim, trabalho a questão da redemocratização, que é tema da exposição e ao mesmo tempo é assunto das aulas da disciplina de Gestão Pública e Desenvolvimento.”
A professora fez o mesmo cruzamento de assuntos e ideias com outros temas que pinçou da exposição: nos anos 1990, destacou Cultura e Leis de Incentivo; nos 2000, Crescimento e Redução da Desigualdade Social, e nos 2010, o Questionamento do Território.
Os alunos, explica Claudia, “vão procurar na arte moderna a relação dos eixos temáticos que permeiam a exposição e que também estão presentes na minha aula em sala”. No fundo, continua a professora, “alinhamos com a coordenadora pedagógica do museu, Vera Barros, essa dinâmica, que é chamada de Laboratório de Ideias, e conseguimos cruzar o conteúdo da disciplina da sala de aula com o da arte em exposição”.
Não se trata apenas do consumo da arte. Claudia adianta que o relacionamento dos temas das aulas com o processo de criação artística desencadeia novas formas de pensar e inovar em gestão pública. O que se tornou também um dos eixos de ação da Escola Técnica e Gestão da USP.
Novas sinapses – A teoria da professora Claudia – que também é coordenadora do Centro de Estudos em Gestão e Políticas Públicas Contemporâneas (Gpublic), grupo de pesquisa ligado à USP – é que a arte, trabalhada multidisciplinarmente com os conteúdos tratados nasVisitas de pós-graduando da Fearp a exposição sobre arte contemporânea: estímulo à criatividadeaulas, oferece um eixo “muito forte para a formação desse gestor público, pois ela auxilia nas sinapses para encontrar respostas inovadoras aos problemas”. O Gpublic prega já há muito tempo, segundo a professora, a questão da relação das “artes de maneira geral com outras áreas que saiam da administração”.
“Em nossas teses no Gpublic, acreditamos que o conhecimento formal de um curso de graduação não é suficiente para formar um gestor que dê conta e respostas efetivas na transformação das organizações.” Ela conta que, ao longo de vários anos de estudos, percebeu que o convívio desse gestor com a música, com o cinema e com as artes plásticas enriquece seu repertório de ideias e faz com que ele se diferencie e se torne um líder.
A experiência com alunos de pós-graduação da USP está chamando a atenção dos funcionários do museu. Seu diretor administrativo, Alcebíades Junqueira, diz que difundir arte contemporânea é sempre muito importante, mas a esse nível e com estudantes de pós-graduação tem sido muito gratificante. Falando sobre a aproximação da arte com o ensino de administração, ele afirma que o contato com as artes sempre leva a outros horizontes, tanto que “o artista, ao ter contato com a ciência, também amplia sua visão de mundo”.
O arte-educador Carlos Alexandre Silva Rodrigues, que trabalha há um ano no museu, acredita no poder de reflexão por trás da arte, que pode trazer resultados importantes para o nosso dia a dia. Nesse sentido, acha muito interessante que o trabalho que está realizando com a USP esteja “voltado para pessoas que se preparam para fazer a diferença no meio em que vivem, seja político ou social”.
Futuro – Aluno de mestrado em Administração de Organizações, Marco Antonio Catussi Paschoaloto acredita que esteja se preparando para fazer a diferença em sua formação como gestor público. “A cultura e a arte podem contribuir para abrir nossa cabeça para enxergarmos uma realidade que, às vezes, só inserido numa disciplina, nós não conseguimos enxergar.”
Formado em Administração Pública pela Unesp de Araraquara, Marco Antonio acredita que deve retribuir o que a sociedade investiu nele. Por isso quer, além de atuar como professor, ocupar um cargo público que lhe faculte mudar uma cidade, contribuindo para melhorá-la. “Criticamos muito as prefeituras e a universidade pública, mas só criticamos. Não contribuímos”, diz. “Precisamos de apoio teórico muito forte para que possamos contribuir na prática com a sociedade”, afirma Paschoaloto.
Ele alerta para o fato de a democracia ser uma “via de mão dupla”, tanto do governo para com a população quanto da população para com o governo. “Mas precisamos criar uma cultura a esse respeito, para que a população saiba ocupar espaços de participação administrativa pública.”
Paschoaloto acredita que as experiências que vive hoje e as possibilidades abertas pelo seu curso de pós-graduação vão ajudá-lo a entender as necessidades dos novos padrões que precisam ser criados agora, em 2015, para pensar um novo futuro. “Futuro esse que não tem um padrão a ser seguido. A gente é quem tem que criá-lo.”