Home » 1077 (31.08 a 6.09.2015), Opinião

Uma fraude coletiva

Publicado por thiagocastro96@gmail.com - Monday, 31 August 2015

JOSÉ APARECIDO DA SILVA


Permeia o sistema educacional brasileiro a crença de que todas as crianças que não estejam se desempenhando bem na escola têm potencial para fazer muito melhor. Correlativamente, grande parcela de nossos educadores acredita que o desempenho acadêmico das crianças é determinado pelas oportunidades que as mesmas recebem e que as limitações intelectuais inatas (se elas existem) desempenham papel secundário nesse contexto. Logo, acreditam que as escolas, em geral, têm uma grande avenida para o melhoramento cognitivo. Em adição, legisladores, supondo que todas as crianças, em todos os níveis educacionais, devam alcançar o mesmo desempenho cognitivo, estabelecem metas para que isso ocorra indubitavelmente.

No discurso público, os educadores brasileiros silenciam-se, amedrontados, acerca do papel dos limites intelectuais do desempenho acadêmico. Tente relembrar quando você ouviu ou leu a manifestação de um político ou educador que tenha mencionado que a baixa habilidade intelectual é a causa de muitos estudantes não se desempenharem a contento do que se espera da série escolar em que eles estão. Relembrou? Não. Sabe por quê? Porque isso nunca ocorreu. O que você constata, na mídia, nas escolas, nas secretarias de Educação e nas manifestações dos políticos e dirigentes educacionais é que os estudantes que têm baixo desempenho originam-se de ambientes desvantajosos ou chegam de escolas ruins ou, ainda, vivem em culturas que não valorizam o ambiente educacional. Ninguém afirma que o problema origina-se do fato de que os estudantes não são suficientemente brilhantes. Sabe por quê? Porque temem, ao afirmar isso, serem mal compreendidos, no sentido de estarem afirmando que tais alunos são incapazes de elevar seu nível intelectual, quando, na verdade, o que querem dizer é que tais alunos estão, sim, se desempenhando abaixo do potencial de desempenho que, com certeza, se fomentado, tem chance de acontecer. Na verdade, o que ocorre é que os dirigentes educacionais, políticos ou institucionais não têm coragem de assumir o fracasso do sistema escolar brasileiro. Mas reconhecer as verdadeiras causas não significa que nossas crianças não possam melhorar seu desempenho cognitivo, tampouco que nossas escolas não possam ser, qualitativamente, melhoradas.

Muitas das leis e manifestações emanadas do poder público transcendem o otimismo. Seus objetivos não têm qualquer contato com a realidade. E, até mesmo, parece que nossos educadores vivem no país de Alice das Maravilhas, onde tudo é passível de acontecer, ou como na Disneyworld, onde a fantasia sobrepuja a realidade. Nossos políticos e educadores, com raras exceções, afirmam que, “para se alcançar tudo o que se quer, basta acreditar”. Mas eu afirmo: não acredite nisso. As habilidades cognitivas diferenciadas constituem, sim, o ingrediente ativo desse “alcançar”. Realidade educacional e romantismo educacional são cenários totalmente opostos. Mesmo os pais de crianças que frequentam a pré-escola percebem que aquelas exibem um variado perfil de habilidades. E, quando observamos uma dada potencialidade, geralmente tentamos fomentá-la.

De modo análogo, quando detectamos uma dada fraqueza, tentamos remediá-la ou, então, encontrar quem o faça. Mas, quaisquer que sejam os perfis observados, quando nossas crianças ainda são muito pequenas, a chance de enriquecer seu potencial cognitivo ainda é, relativamente, elevada. O desempenho escolar pode aumentar ou diminuir porque outras coisas, em nossas vidas – tais como problemas emocionais, pressão dos pares ou distrações geradas por adversidades familiares –, podem acontecer. Mas o perfil de habilidades que nossas crianças carregam ao ingressar no ensino básico não destoa muito do perfil que elas apresentam quando ingressam nos níveis subsequentes. Na realidade, um vivo debate continua sobre a maleabilidade da habilidade intelectual na infância, mas poucos são os estudiosos que argumentam, favoravelmente, sobre tal maleabilidade, após as crianças entrarem no ensino fundamental. Não há, na literatura, exemplos de programas escolares intensivos que, permanentemente, elevaram a habilidade intelectual ao longo dos ensinos básico, fundamental e médio.

Essa problemática nos conduz a uma análise de algumas concepções falsas que impregnam o sistema educacional brasileiro, por nós entendidas como fundamentais, por acreditarmos que, se continuarmos a endossá-las, elas, certamente, devastarão a vida dos nossos jovens num futuro muito próximo.