Home » 1078 (07.09 a 13.09.2015)

Para desvendar a Amazônia, seus povos, arte e histórias

Publicado por thiagocastro96@gmail.com - Monday, 7 September 2015

Em cartaz no prédio da Reitoria, mostra do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) apresenta preciosidades da arqueologia amazônica, como cerâmicas datadas do século 5 antes de Cristo, pontas de flechas e vasos da tradição marajoara

LEILA KIYOMURA

São peças, vídeos e fotos que apresentam ao visitante uma paisagem, um tempo, uma cultura e povos a serem desvendados. Na mostra “MAE/USP e a Amazônia: Alguns Olhares da Arqueologia”, inaugurada no dia 26 de agosto passado no salão de exposições do prédio da Reitoria da USP, na Cidade Universitária, os arqueólogos e pesquisadores trazem uma síntese dos estudos que resgatam as origens e a trajetória de um acervo da arqueologia amazônica considerado um dos maiores do Brasil. É formado por três coleções principais: a Haral Shultz, constituída a partir dos anos 50, a Tapajônica, adquirida na década de 1970 de Ubirajara Bentes, um colecionador da cidade de Santarém, no Pará, e a coleção Banco Santos, sob a guarda do MAE desde 2005, por decisão judicial.

Logo na entrada, o público se depara com uma urna funerária feita em cerâmica com a tradição polícroma marajoara. Uma viagem imaginar a magnitude de mãos do século 3 ao 13 da era cristã criando um grafismo elaborado com técnica e criatividade. E observar os aspectos sociais, simbólicos e religiosos que cercam essa peça. Vale a pena parar e observar atentamente o detalhe do desenho das linhas. Uma homenagem do artesão à vida.

Antiguidade brasileira: peças remontam a milênios antes de Cristo. Foto: Cecília Bastos

Nas vitrines, o público também vai poder ver uma tigela de cerâmica da tradição pocó-açutuba, datada de entre os séculos 5 antes de Cristo e 5 depois de Cristo, e outras peças, como uma ponta de flecha de 6.500 antes de Cristo e estatuetas da Ilha do Marajó do século 3 da era cristã, entre outras preciosidades, que vão compondo uma Amazônia desconhecida.

“Nesta mostra, o MAE privilegiou alguns olhares da arqueologia direcionados à Amazônia: para os acervos herdados e suas respectivas trajetórias e para os caminhos dos estudos que têm gerado novas interpretações sobre a história indígena daquela região”, observa a diretora do MAE, professora Maria Cristina Bruno.

Mito e história – Na exposição, o público irá observar, em um mural de imagens, o trabalho do Laboratório de Arqueologia dos Trópicos (Arqueotrop). Irá acompanhar os arqueólogos da USP sob o sol e a chuva nos diversos sítios arqueológicos da Amazônia. O Arqueotrop é originário de um programa de pesquisas arqueológicas na região da Amazônia Central que, no decorrer de 1995 a 2010, promoveu importantes discussões, trazendo à tona debates sobre a ocupação humana pré-colonial na área de confluência dos rios Negro e Solimões, no Amazonas.

“O território amazônico desafia os olhares arqueológicos”, observa o professor Eduardo Goes Neves, do MAE, coordenador da exposição. “Mas a história indígena pode ser construída não só a partir dos objetos. Ela também está inscrita na paisagem, nas montanhas, nos afloramentos rochosos, nas cachoeiras, além dos próprios mitos, borrando assim a separação entre mito e história.”

Ponta de flecha: preciosidade da arqueologia amazônia

A montagem da mostra ficou sob a responsabilidade de uma equipe de curadores integrada por Neves, por Cristina Bruno e pelas arqueólogas Carla Gibertoni Carneiro, Célia Maria Cristina Demartini e Viviane Wermelinger.  A meta dos pesquisadores é tornar a exposição itinerante. “A nossa referência para a seleção das peças foi o documentário Antiga Amazônia Presente”, explica Carla. O objetivo é mostrar o trabalho em Santarém, nos locais por onde a expedição passou, e também nos campi da USP.

O filme tem 115 minutos e é dirigido pelo arqueólogo e cineasta Silvio Luiz Cordeiro, com a participação do documentarista Luiz Bargmann. “O vídeo nasceu da ideia de revisitar os lugares de origem dos artefatos cerâmicos das coleções. Montamos uma equipe interdisciplinar e, em 2013, viajamos ao Pará durante o inverno e ao Baixo Amazonas no verão.”

Uma expedição que resultou em várias horas de gravação e centenas de imagens, registrando as paisagens, o trabalho dos artesãos e os relatos de pessoas que vivem na região. “Pudemos conferir, in situ, muitas daquelas antigas paisagens e sítios importantes para a arqueologia brasileira, desde as pinturas rupestres na Serra do Ererê, em Monte Alegre, ao Teso dos Bichos, na Ilha do Marajó”, conta Silvio Luiz Cordeiro.

O vídeo pode ser apreciado na mostra, mas também está à disposição para download no site http://amazoniantiga.tv.br/documentario. A exposição inclui as fotos de Wagner Souza e Silva, fotógrafo e professor do Departamento de Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, que também integrou a expedição.

A exposição do MAE na Reitoria: mostra apresenta resultados de pesquisa da USP na Amazônia

A exposição “MAE/USP e a Amazônia: Alguns Olhares da Arqueologia” fica em cartaz até 6 de novembro, de segunda a sexta-feira, das 9h às 18h, no prédio da Reitoria da USP (rua da Reitoria, 374, Cidade Universitária, São Paulo). Entrada grátis.