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Na medida certa

Publicado por carollfts@gmail.com - Monday, 7 September 2015

Utilizado na produção de roupas sob medida, aplicativo desenvolvido na EACH com o objetivo de facilitar o trabalho de costureiras de comunidades carentes é premiado em competição da Microsoft, nos Estados Unidos

CAROLINA OLIVEIRA

Fotos: Cecília Bastos

Costura, tecidos, roupas e informática: se essa combinação a princípio não faz muito sentido para você, conheça o Clothes For Me, programa criado por um grupo de professores e alunos da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, que facilita a produção de roupas sob medida. O projeto, desenvolvido por alunos e professores, acaba de vencer o Imagine Cup 2015, competição mundial organizada pela Microsoft.

O software produzido pela equipe da EACH automatiza a produção de moldes de roupas, processo que era tradicionalmente feito de forma manual por um modelista especializado. Esse molde é necessário para que costureiras e alfaiates consigam produzir roupas sob medida, indo além dos tradicionais tamanhos P, M e G comprados em lojas. “Fazer um molde sob medida é trabalhoso, porque é preciso conhecimento de modelagem e são figuras geométricas não regulares”, explica o professor Luciano Araújo, um dos responsáveis pelo projeto.

Com o Clothes For Me, todo esse processo de modelagem se torna mais prático e barato, pois o sistema fabrica moldes específicos para cada cliente de forma automática, bastando apenas que a pessoa insira suas medidas. Os moldes podem ser impressos através de impressoras comuns e, por fim, usados por costureiras ou alfaiates para produção de peças personalizadas.

Cooperativas – A professora Isabel Italiano, também mentora do projeto, explica que o intuito era facilitar o trabalho de costureiras de comunidades carentes. “A gente tinha pensado inicialmente em atender às comunidades e cooperativas de costura, porque a EACH trabalha muito com projetos de cultura e extensão. Então, a ideia foi fazer algo fácil de usar, que rodasse em qualquer computador, fosse impresso em qualquer impressora e usado por qualquer pessoa”, conta.

Aplicativo da EACH: produção de moldes de roupas automatizada

O Clothes For Me começou a ser desenvolvido há quatro anos e, ao longo do tempo, novas ideias foram agregadas ao software. O sistema foi expandido para novas plataformas, ganhando formato on-line e aplicativo de celular. Além disso, a equipe desenvolveu uma espécie de loja virtual – similar a portais como o Mercado Livre –, visando a facilitar a interação entre produtores de moldes, costureiras e compradores cadastrados. Um modelista pode, por exemplo, desenvolver o molde de uma camiseta e disponibilizá-lo na plataforma. O cliente, então, escolhe o modelo e o programa o adapta às medidas desse usuário. Por fim, o usuário pode optar por levar o molde a uma costureira de sua preferência ou utilizar alguma das profissionais cadastradas no sistema.

Nesse ciclo, tanto o modelista que desenhou a vestimenta quanto a costureira que a produziu ganham um porcentual pela compra. Uma determinada marca também pode vender seus modelos, disponibilizando-os para costureiras que estejam interessadas em confeccioná-los sob medida. “Ajuda quem precisa da roupa, quem cria moldes, quem faz a roupa ou mesmo uma empresa, que pode vender seus modelos”, explica o professor Araújo. “Assim, o sistema atende a todo mundo. A gente não tira ninguém da cadeia produtiva, mas sim, gera oportunidade para todos.”

O software é capaz de construir moldes tanto para peças simples quanto para aquelas mais complexas. Assim, as possibilidades de confecção utilizando o sistema são imensas, indo desde vestuário para cachorros a trajes eclesiásticos ou uniformes sob medida para funcionários. “A gente oferece a plataforma e, a partir disso, o céu é o limite em termos de roupa”, avalia a professora Isabel.

Atualmente, o Clothes For Me já tem uma versão pronta em Windows Phone, além de uma página na web. Por enquanto, últimos ajustes estão sendo feitos e o sistema será disponibilizado ao público em breve. O próximo passo é a expansão do aplicativo para plataformas Android e iOS.

Além de Isabel Italiano, professora de Têxtil e Moda, e de Luciano Araújo, docente de Sistemas de Informação, também participaram do projeto os alunos Juliana Pirani (Têxtil e Moda), Daniel Tsuha e Bianca Letti (ambos da área de Sistemas de Informação) e o professor Fausto Viana (Artes Cênicas e Têxtil e Moda).

Os alunos contam que a experiência de trabalhar com áreas tão diferentes entre si foi bastante enriquecedora, com cada membro tentando entender melhor as questões do outro. “O Daniel me fez perceber que eu tinha de ter uma visão que fosse voltada para o sistema, fazer de um jeito que o sistema conseguisse entender”, comenta Juliana. O mesmo ocorreu com Tsuha, responsável pela parte técnica do software. “Tive de aprender várias coisas da área de moda para conseguir integrar esse sistema e conversar com a Juliana. Vi coisas que eu nunca tinha imaginado, como margem de costura, curva”, afirma o estudante de Sistemas de Informação.

O professor Araújo aponta que a integração entre as áreas foi um dos pontos fundamentais para o sucesso do trabalho. “Essa interação é um desafio na área de desenvolvimento de software”, diz. “A equipe tem de perceber que os dois lados são igualmente importantes”, ressalta a professora Isabel. Para a pesquisadora, o ambiente da EACH também favorece a criação de projetos como esse. “Como a EACH é uma escola multidisciplinar, as pessoas trabalham muito próximas umas das outras, por isso as reuniões são fáceis, a conversa é fácil”, comenta.

Equipe da EACH que desenvolveu o aplicativo

Recompensa – Os anos de esforço no desenvolvimento do Clothes For Me tiveram sua recompensa final no mês de julho passado, quando o software garantiu o primeiro lugar no Imagine Cup 2015, competição mundial criada pela Microsoft, empresa que gerencia o Windows. O concurso conta com a participação de projetos do mundo inteiro, que competem entre si nas categorias Inovação, Cidadania e Games. “É um evento muito grande, e a gente não tem noção da dimensão até chegar lá”, conta a estudante Bianca Letti.

Antes de sagrar-se campeã, a equipe da EACH – nomeada como eFitFashion – passou por diversas etapas, incluindo a filtragem nacional. Após ser escolhido representante brasileiro na competição, o grupo participou da final mundial, que ocorreu em Seattle, nos Estados Unidos. Lá, 33 projetos foram apresentados aos jurados da Microsoft.

Para conquistar o prêmio, a eFitFashion bateu softwares de países com forte tradição em tecnologia, como Índia, Canadá, Japão e Estados Unidos. “Muitas vezes, as outras equipes tinham mais participantes e talvez muito mais recursos do que nós, mas conseguimos chegar na final e vencer”, comemora Bianca.