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A cultura como prioridade

Publicado por carollfts@gmail.com - Monday, 28 September 2015

Livro reúne documentos e cartas de Mário de Andrade durante seus anos como diretor do Departamento de Cultura de São Paulo

PAULA LEPINSKI


Mário de Andrade tinha muitas faces. “Eu sou trezentos, sou trezentos e cinquenta”, escreveu ele em um de seus poemas. Além de poeta, romancista, professor de música, crítico de arte e pesquisador, ele também foi servidor público. Iniciou a carreira em 1935 como diretor do Departamento de Cultura da cidade de São Paulo. O departamento era uma iniciativa pioneira e havia sido criado no mesmo ano, sob a prefeitura de Fábio Prado, a partir de um projeto feito por Mário de Andrade junto aos intelectuais Paulo Duarte e Rubens Borba. Durante três anos, Mário teve de lidar com a burocracia, redigir despachos e regulamentos, analisar e justificar orçamentos e planejar políticas públicas, mas sempre impondo sua personalidade e estilo ao tradicional jargão administrativo.

O livro Me Esqueci Completamente de Mim, Sou Um Departamento de Cultura, editado pela Imprensa Oficial, tece uma narrativa a partir de documentos oficiais em fac-símile e de cartas escritas por Mário a seus amigos e colaboradores, entre eles Dina Lévi-Strauss e Oneyda Alvarenga. Também há duas extensas entrevistas que Mário de Andrade e Fábio Prado concederam, em 1936, ao jornal O Estado de S. Paulo. O crítico, ensaísta e professor da USP Carlos Augusto Calil, que organizou a obra ao lado de Flávio Rodrigo Penteado (mestre em Literatura Portuguesa pela USP), escreveu: “Com a personalidade peculiar de seu protagonista, a história ganha contornos de drama existencial, após vencer curvas emocionais, com direito a desfecho trágico”.

Ao assumir a diretoria do Departamento de Cultura, Mário se dedicou integralmente a esse ofício, abandonando a carreira de escritor. “Eu fiquei completamente… pra depois”, dizia ele. Procurou participar ativamente do projeto político da elite paulista, de cunho social-democrata, que via no acesso à cultura um meio eficaz de superar o atraso intelectual e político de São Paulo. Reunido em torno do governador Armando de Salles Oliveira, o grupo de Paulo Duarte, Sérgio Milliet e Rubens Borba de Moraes, do qual Mário de Andrade fazia parte, visava a criar instituições que, uma vez que o governador fosse eleito presidente, seriam implantadas no País. São Paulo tornou-se então um laboratório de políticas públicas de promoção do bem-estar social pela via da cultura.

Isso porque o Departamento de Cultura na década de 30 abrigava não apenas ações culturais, mas também ações de assistência social, esportes, lazer, turismo, estatística e planejamento e meio ambiente, ou seja, tudo o que pudesse estar ligado à educação. Só ele contava com 10% do orçamento da Prefeitura – o que deixava claro o quanto a cultura estava no centro de um projeto político. No livro , o material pesquisado foi disposto em capítulos nomeados a partir de frases e expressões de Mário, colhidas em ofícios e cartas, como “uma ferocidade deslumbrante, um delírio, um turbilhão sublime, um trabalho incessante” ou “defender o nosso patrimônio histórico e artístico é alfabetização”. Cada capítulo trata de uma parte diferente do projeto do Departamento de Cultura até meados de 1938.

Título de nomeação para a direção do departamento

O sentido profundo da cultura, entranhada no hábito cotidiano, no espaço de circulação dos cidadãos, nos seus modos de sobrevivência e de participação social, é que caracterizou a gestão de Mário de Andrade, preocupado em garantir a cultura como patrimônio universal.  Por isso, as brincadeiras tradicionais e canções folclóricas foram logo incorporadas ao ensino das crianças, e sete novos parques foram implantados, três em sua gestão –  Ipiranga, Lapa e Santo Amaro – e quatro depois – Tatuapé, Barra Funda, Catumbi e Vila Romana. Com relação às bibliotecas, o projeto previa a implantação de bibliotecas infantis, bibliotecas populares de bairro, bibliotecas circulantes e a fundação de um curso de biblioteconomia, incorporado à Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Também houve a tentativa de implantar a Seção de Rádio-Escola, que propunha a melhora do nível da programação das rádios brasileiras por meio de programas diários de informações e palestras, bem como de concertos de música erudita. Para investigar e preservar aspectos formadores de uma verdadeira cultura brasileira, foi realizada a Missão de Pesquisas Folclóricas, que registrou manifestações da cultura popular nordestina em vias de desaparecimento.

Apesar de todo o esforço, a experiência do Departamento de Cultura não se fixou no País. Com o golpe do Estado Novo, Mário foi imediatamente exonerado do cargo e acusado de inúmeras irregularidades, nenhuma comprovada. A cultura acabou não adquirindo valor político, como ele queria. “De uma proteção à cultura todos desconfiam porque ainda não se percebeu em nossa terra que a cultura é tão necessária quanto o pão, e que uma fome consolada não equilibrou nenhum ser e nem felicitou qualquer país”.

Me Esqueci Completamente de Mim, Sou Um Departamento de Cultura, organizado por Carlos Augusto Calil e Flávio Rodrigo Penteado (Imprensa Oficial, 336 págs., R$ 60,00).