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O inglês como mediador do conhecimento

Publicado por carollfts@gmail.com - Monday, 26 October 2015

RUBENS RUSSOMANNO RICCIARDI E DOROTHEA HOFMANN

“Uma palavra, um livro, um autor são apenas gotas de água isoladas. Os três juntos, contudo, produzem uma correnteza que remove tudo à sua frente e à qual nenhuma força contrária resiste.” O botânico e poeta romântico Adelbert von Chamisso se refere aqui a uma força especial: a linguagem fluente e instigadora do pensamento crítico. Mas essa força pode se transformar em fraqueza quando a “palavra”, ou o “logos”, fundamento primordial da linguagem, já não mais nos pertence, quando se torna algo emprestado, estancado (não fluente) e superficial. No processo de terceirização que vivenciamos no momento, pretende-se terceirizar também o pensamento.

Na discussão sobre internacionalização, é recorrente a questão do inglês como ferramenta de mediação única para o ensino e a pesquisa na universidade. Quem lamenta o fato de o Brasil ter sido colônia portuguesa e não anglo-saxã questiona o colonizador, mas não o colonialismo. A mentalidade colonialista, perpetuando-se ainda em muitos entre nossos pares, reduz a internacionalização a uma via de mão única, como na proposta do inglês adotado em cursos, trabalhos acadêmicos e comunicações oficiais. Pretendem que professores, alunos e até funcionários falem inglês na universidade. Nesse mecanismo unilateral, alunos e pesquisadores, enviados ao exterior, muitas vezes só assimilam tecnologias alheias, cujos equipamentos depois teremos que importar. Cristaliza-se então uma relação de vendedor e freguês ou, em outras palavras, de colonizador e colonizado, esquecendo-se de que a verdadeira internacionalização ocorre no aprendizado recíproco, quando ambos os parceiros se encontram cientes de sua própria dignidade, num diálogo de igual para igual.

Não se trata aqui de uma discussão de identidade. Segundo Theodor Adorno, “a identidade é a forma originária da distorção ideológica”. Também jamais propomos qualquer forma de nacionalismo. Segundo Mário de Andrade, “nacionalismo é uma teoria política, mesmo em arte. Precária como inteligência e perigosa para a sociedade”.

Contudo, não há razão para se abrir mão da língua materna no ensino e na pesquisa. Vejamos um caso na história das ciências. A correspondência existente entre Galileu e Kepler foi redigida em latim, a língua da ciência na época. No entanto, em suas instituições, ambos trabalhavam com seus idiomas maternos, respectivamente italiano e alemão. Para publicar ou desenvolver interlocuções com colegas de outros países, o idioma inglês pode ser útil. Mas, para a pesquisa e, ainda de modo mais veemente, para o ensino, a língua materna é sempre essencial, bem como poder trabalhar com outros idiomas além do inglês.

Se o nacionalismo é perigoso para sociedade, não menos perigoso é reduzir a língua acadêmica a um inglês pidgin, como ocorre em grande parte dos casos. É o idioma “hotel-aeroporto” da comunicação simplificada, terceirizado e distante do “logos”, um vocabulário tanto limitado quanto equivocado, enfraquecendo o próprio inglês e fazendo Shakespeare se revirar no túmulo.

Quem obriga a universidade a adotar o inglês como idioma oficial reitera na prática o colonialismo por meio do pidgin. Lembremo-nos de que, para além do mercantilismo, há também uma colonização da consciência. Foi o caso recente do reitor W. A. Herrmann. Por ter estabelecido o inglês como idioma oficial na Universidade Técnica de Munique, na Alemanha, Herrmann foi condecorado com o prêmio negativo Sprachpanscher (“Falsificador da Língua”), concedido pela Associação Língua Alemã – organismo apartidário, não nacionalista, de caráter científico-cultural e com cerca de 40 mil membros em 110 países.

Temos exemplo na música de como essa falsa internacionalização prejudica também a pesquisa mesmo quando o inglês é bem compreendido. Por mais importantes que sejam textos musicológicos em inglês sobre o Tratado de Harmonia (1722), de Jean-Philippe Rameau – obra fundamental da teoria musical –, a língua essencial para se estudar esse tratado é o francês, e não o inglês. Sem a leitura da obra no original jamais desenvolveremos uma pesquisa fecunda sobre Rameau. Tomar apenas a bibliografia inglesa como referência pode até nos levar a uma visão distorcida da teoria e também já não mais estaremos pensando com nossas cabeças. Umberto Eco nos ensina “que nem sempre as traduções fazem justiça ao pensamento do autor, e redigir uma tese significa exatamente redescobrir esse pensamento original lá onde as traduções e as divulgações de todo o livro o falsearam”.

Eco cita ainda um caso a priori evidente: “É impensável partir para uma tese sobre filologia grega sem saber o alemão, pois é nessa língua que estão escritos alguns dos mais importantes estudos sobre a matéria”. E como adotar então o inglês como instrumento de pesquisa na área do direito, se nossas tradições jurídicas remontam ao sistema romano-germânico? Aliás, em filosofia, direito e artes, bem como em algumas humanidades, os idiomas essenciais são grego, latim e depois italiano, alemão e francês. E só talvez depois venha inglês e espanhol, entre outros.

Numa perspectiva histórico-filosófica, nada pode substituir o acesso direto às fontes primárias. Quando adotamos só o inglês para mediar nosso conhecimento, podemos incorrer na epistemologia redutiva de um idioma terceirizado, ignorando-se complexidades histórico-culturais essenciais. Deveríamos, sim, estimular nossos alunos a desenvolver pesquisas a partir do pensamento original dos grandes autores e não apenas por meio de referências anglo-saxãs. Substituir os grandes livros da humanidade por papers indexados em inglês pidgin torna-se não apenas uma auto involução, como também um suicídio intelectual. Nossos alunos precisam adquirir a força da palavra (logos), a fluência na linguagem e o espírito crítico – algo oposto à postura inferiorizada de um consumidor passivo.

Rubens Russomanno Ricciardi é professor do Departamento de Música da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP

Dorothea Hofmann é professora da Escola Superior de Música e Teatro de Munique, na Alemanha