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A finalidade do esporte

Publicado por carollfts@gmail.com - Tuesday, 3 November 2015

Comunicadores falam na mídia sobre atividade física com credibilidade mas sem conhecimentos suficientes, alerta o professor Marcio Atalla, em simpósio na USP

IZABEL LEÃO


Um treinamento de verdade começa quando você quer parar. Sem dor não há ganho. Conhecer limites para depois desafiá-los. A dor é temporária, a glória é eterna. Como mostram essas máximas que circulam entre os esportistas, a finalidade do esporte hoje se resume apenas a ultrapassar os limites. Em razão desse equívoco, é muito importante refletir sobre a prática esportiva, segundo o professor Júlio Cerca Serrão, da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP. Ele foi um dos palestrantes do simpósio Esporte: Da Performance ao Envelhecimento, promovido no dia 23 de outubro passado pela Pró-Reitoria de Graduação.

Para Serrão, com a necessidade de romper limites vem implícita a necessidade de obter sucesso, e desrespeitar esses limites pode ser bem caro, porque, no final, paga-se com o corpo. “Até 83% dos que praticam corrida apresentam algum tipo de lesão, sendo que 30% dessas lesões ocorrem durante os exercícios, e precisam procurar ajuda médica. Essas lesões normalmente se dão por erro de estratégia e falta de controle”, disse. Serrão lembrou que qualquer forma de exercício gera sobrecarga nas estruturas biológicas e desafia os limites dos tecidos biológicos. “Dor não é sucesso. Dor é equívoco.”

O professor destacou ainda que não basta tirar o impacto do exercício, como muitos vêm apregoando, pois, assim como tê-los em demasia é perigoso, não ter nenhum impacto também não é bom. “O que é preciso fazer é aplicar a carga adequada para cada tipo de exercício. Lesão não indica proibição, e sim que é preciso controlar as cargas aplicadas”, explica. “Não é porque o músculo está queimando que estamos indo bem. Pelo contrário, de 50% a 70% das lesões ocorridas durante a corrida são causadas por fadiga.”

Artistas – Outro palestrante do simpósio, o professor Marcio Atalla, criador do quadro Medida Certa do programa “Fantástico”, da Rede Globo, e dos programas “Bem-estar”, também da Globo, e “Movimento”, da Rádio CBN, afirma ser um desafio falar sobre a atividade física na grande mídia, porque tanto uma quanto a outra mudaram muito nos últimos tempos.

Na década de 80, não havia preparador físico com visibilidade, disse. Era a época dos artistas consagrados, que vendiam propostas de atividades físicas, como Jane Fonda. Sem contar que a atividade física ainda era presente no dia a dia de qualquer pessoa. Não havia tantas escadas rolantes nem tantos automóveis e tanta comodidade. Faziam-se mais coisas a pé e a mídia não era tão presente na vida das pessoas. O boom das academias surgiu com a necessidade das pessoas de se movimentar, lembrou Atalla. E isso cresceu porque, com o advento do computador, na década de 90, os casos de obesidade aumentaram consideravelmente. “O Medida Certa surgiu com a intenção de promover o movimento e dar mais valor ao professor de Educação Física”, declarou.

Ele se mostrou preocupado com quem tem usado a mídia virtual para falar de atividade física, porque sempre se procura vender algum produto. Além disso, a internet é o lugar onde os profissionais sérios se misturam com os “picaretas”. “Há muita gente na internet com credibilidade e nenhum respaldo de conhecimento. As pessoas querem segui-los sem critério”, observou.

Para Marcio Atalla, o professor de Educação Física é capaz de mudar a saúde de uma pessoa, pois entende a quantidade de carga de exercícios a ser aplicada para cada indivíduo. “Ele estuda para isso. Tem conhecimento e credibilidade.”

Carreira – Sobre o tema “A Transição de Carreira: A primeira morte do atleta”, a professora da EEFE Katia Rubio destacou o momento em que o atleta que ganha a vida fazendo esporte deixa de ser competitivo e começa uma nova carreira. “Diante de toda a intensidade que foi sua vivência, muitos atletas relatam essa transição como uma morte em vida, porque eles são obrigados a colocar de lado tudo o que fizeram, toda a visibilidade e o reconhecimento, para começar, anônimos, uma nova função e profissão”, comentou.

Embora alguns atletas se preparem para esse momento e façam a transição de forma plena, há aqueles que precisam parar por alguma lesão séria ou pela falta de time para poder jogar. “As transições mais dramáticas, muitas vezes, deixam sequelas. O atleta busca recursos para poder superar a dor e, se bem-sucedido, consegue mudar. Mas há casos de atletas que tornam essa situação uma doença porque não conseguem resolvê-la. Às vezes o sujeito passa anos tentando de alguma forma se colocar no mundo novamente. Não é uma tarefa simples, porque nenhuma atividade é capaz de dar a ele a visibilidade, o reconhecimento e a satisfação que a carreira de atleta dá”, analisou Katia Rubio.

O tema destreinamento e transição de carreira ainda é novo no Brasil, segundo a professora. São poucos os estudos realizados nessa área. Por isso é fundamental que a área social e a biológica trabalhem juntas. A professora lembrou que o atleta está constantemente cercado de pessoas que vivem da imagem dele. Muitas vezes, quando ele para de competir, perde a rede de apoio e a família. “Lidar com a nova identidade é muito difícil”, disse.

O esporte mais perto da graduação

O simpósio Esporte: Da Performance ao Envelhecimento faz parte do objetivo da Pró-Reitoria de Graduação da USP de ampliar o diálogo e compartilhar experiências entre as unidades da USP. Como meta, a Pró-Reitoria vem buscando inserir a prática esportiva no ensino de graduação. O pró-reitor de Graduação, professor Antonio Carlos Hernandes, destaca o esporte como um fator de integração entre alunos e comunidade uspiana. “Os simpósios são uma ferramenta educacional que permite a discussão tanto de temas relacionados ao ensino de graduação como dos que são transversais, interdisciplinares.”

O simpósio foi pensado para integrar os alunos matriculados na disciplina Aspectos Biodinâmicos da Prática Esportiva, oferecida pela primeira vez neste semestre. A disciplina vale dois créditos e é optativa a todos os alunos de graduação dos campi da capital, de Ribeirão Preto e de São Carlos. “O curso é moldado para estimular o aluno a adotar a prática de atividade física, especialmente o atletismo. Apesar de possuir uma parte teórica, a disciplina é essencialmente prática, e é mais um esforço para melhorar a saúde do aluno e promover a integração dos estudantes de diferentes unidades”, explica Hernandes.