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O País para estrangeiros

Publicado por carollfts@gmail.com - Tuesday, 3 November 2015

Projeto da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária oferece curso sobre Geografia do Brasil para refugiados e contribui para a integração de recém-chegados do Oriente Médio, da África e até da Ásia

ALINE NAOE
USP Online

Filho de palestinos, Jamal Zaiter viveu a maior parte de sua vida na Síria, onde se formou em Química pela Universidade de Damasco. Em consequência da guerra, precisou sair do país, chegando a passar curtos períodos nos Emirados Árabes Unidos e no Líbano, até chegar ao Brasil, no final de 2014. “Um amigo me ligou, disse que o Brasil concedia vistos para sírios e eu vim. Agora posso trabalhar e estudar, algo que eu não podia fazer nos outros países onde me refugiei”, relata em português ainda um pouco hesitante. Jamal é um dos alunos que, todos os sábados, vão ao Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP para estudar geografia do Brasil.

Os sírios representam hoje o maior grupo dentro do total de estrangeiros reconhecidos como refugiados pelo governo brasileiro, somando mais de 2 mil pessoas. O perfil dos alunos, no entanto, é bem variado: iniciado em agosto deste ano, o curso teve 63 interessados de 17 nacionalidades diferentes. Além de sírios, frequentam as aulas pessoas da Nigéria, Congo, Camarões, Venezuela, Haiti, Egito, Bolívia e até mesmo do Nepal. O curso é voltado a refugiados mas acolheu também não refugiados senegaleses. A faixa etária também varia bastante.

“Recentemente recebemos uma senhora síria que havia chegado ao Brasil há apenas dois dias. Há também crianças pequenas e de colo e, para atendê-las, os voluntários sempre trazem lápis de cor e brinquedos.” É o que conta o professor Luis Antonio Bittar Venturi, idealizador e coordenador do projeto vinculado à Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária (PRCEU) da USP, que conta com a parceria da Cáritas Arquidiocesana de São Paulo.

A ideia surgiu durante as aulas de português para refugiados que Venturi ministra como voluntário há cerca de um ano. Lá, percebeu que os alunos tinham poucas noções sobre São Paulo e o Brasil, além do papel do País na América Latina e no mundo, mas se interessavam pelo assunto. “Fiquei muito surpreso com esse interesse, porque aprender a geografia do País não é prioridade para quem está passando por dificuldades, para uma pessoa que precisa aprender português e conseguir um emprego, um lugar para morar.” O professor então propôs o projeto à PRCEU, conseguiu três bolsas e passou todo o mês de julho organizando e divulgando o curso na própria Cáritas e em mesquitas da cidade, distribuindo folders em português, francês, inglês e árabe. Para isso, contou também com o apoio de vários voluntários. “Apareceram pessoas da Odontologia, da Veterinária, das Ciências Sociais, de Relações Internacionais e mesmo de fora da USP. Atualmente tenho mais voluntários do que bolsistas”, comemora.

Integração – As aulas acontecem todos os sábados pela manhã. Para os bolsistas e voluntários, é uma oportunidade de praticar a docência, ao mesmo tempo em que entram em contato com realidades muito diversas e conhecem um pouco mais da geografia mundial. “O principal desafio, de longe, é se colocar no lugar dos alunos no momento da preparação das aulas. ‘O que é relevante aprender sobre o Brasil na condição de refugiado?’ é uma questão que o grupo enfrenta constantemente”, afirma Luciana Niro de Souza Passos, aluna do primeiro ano do curso de Geografia e uma das bolsistas do projeto.

Aulas são dadas por voluntários e bolsistas de diferentes unidades da USP

Outro desafio mencionado por Luciana é a questão da língua. Na sala de aula, fala-se principalmente inglês e francês, mas também se ouve árabe e espanhol. Alguns dos alunos que frequentam as aulas acabaram de chegar ao Brasil e nunca tiveram contato com a língua portuguesa. O nigeriano Churchill Anagbogu, de 48 anos, chegou ao Brasil em maio do ano passado e já compreende um pouco o português, embora ainda ache difícil se expressar no idioma. O curso, conta, além de ajudar a conhecer melhor a geografia e a história do País, tem sido uma oportunidade para praticar a língua e melhorar sua fluência – Churchill já trabalhou como relações públicas e jornalista na Inglaterra e gostaria de trabalhar na área também no Brasil. “E o mais importante, o curso está me ajudando a me relacionar melhor com as pessoas daqui.”

Após a aula, que termina ao meio-dia, professores e alunos almoçam juntos no Restaurante Central da USP. O almoço é custeado pelo Departamento de Geografia da FFLCH. Sempre que possível, a organização do projeto busca também promover programas culturais com os alunos, que já foram à Pinacoteca, ao Instituto Butantan, à Praça Benedito Calixto e à Virada Científica da USP. No final do curso, no dia 14 deste mês, farão também uma viagem pela Baixada Santista, quando poderão conhecer a Serra do Mar e a reserva da biosfera de Mata Atlântica, o complexo petroquímico de Cubatão, o Porto de Santos e a orla.

Diplomas – As dúvidas que surgem após as aulas extrapolam a geografia do Brasil e a língua portuguesa. “Eles nos perguntam muito sobre como funciona o processo de ingresso na Universidade, no caso deles, e também sobre revalidação de diploma, cursos de línguas, tradução de currículos e até mesmo se conhecemos lugares que estão empregando”, exemplifica Luciana Passos. A questão do diploma é uma das principais demandas, pois entre os alunos refugiados há médicos, químicos, farmacêuticos, professores e tradutores, entre outros profissionais com boa formação e que desejam fazer uso dela. A demora no processo e as taxas cobradas para a revalidação do diploma, no entanto, acabam representando um grande obstáculo.

Segundo o professor, alguns dos alunos deixam de frequentar as aulas à medida que vão conseguindo trabalho, pois passam a ter os sábados ocupados, mas novos alunos estão sempre chegando. “E queremos mais. Se não couber na sala, mudamos para o anfiteatro”, afirma.

Até o momento, o curso tem tido uma procura alta e repercussão bastante positiva, despertando o interesse de entidades que trabalham com refugiados e voluntários que querem ajudar não apenas com as aulas, mas com os procedimentos necessários para sua nova vida no País. “A realidade no Brasil é um contraponto ao que está acontecendo agora em alguns países europeus, onde os refugiados estão sendo maltratados. Aqui, a Cáritas, por exemplo, oferece assistência jurídica, psicológica e profissional”, diz o professor. “O Brasil ainda não tem, talvez, a infraestrutura necessária, especialmente no que se refere a hospedarias e abrigos, mas oferece todo o resto. Só temos a ganhar com isso, cultural, social e economicamente”, pontua.

Interessados em participar do curso, como alunos ou voluntários, podem escrever para o e-mail geografia.brasil.usp@gmail.com ou falar com o professor Luis Venturi pelos telefones (11) 3091-0433 e 3091-3769 ou pelo e-mail luisgeo@usp.br. Mais informações podem ser obtidas na página www.facebook.com/GeografiaparaRefugiados.