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Esperança contra a “barriga d’água”

Publicado por carollfts@gmail.com - Tuesday, 3 November 2015

Pesquisadores do Instituto de Química da USP utilizam drogas combinadas para eliminar parasitas causadores da esquistossomose

ANTONIO CARLOS QUINTO
Agência USP de Notícias

Espécie do gênero Biomphalaria, vetor da esquistossomose: doença atinge 230 milhões de pessoas no mundo

No Instituto de Química (IQ) da USP, pesquisadores identificaram uma nova combinação de drogas que se mostrou eficaz na morte de vermes adultos de Schistosoma mansoni. O parasita é o causador da esquistossomose, doença popularmente conhecida como “barriga d’água”, que atinge cerca de 230 milhões de pessoas em todo o mundo. A doença é endêmica em 76 países da África, do sudeste da Ásia, América Central e América do Sul. Os experimentos foram realizados in vitro com os medicamentos Praziquantel (PZQ) e Omeprazol (OMP). O artigo sobre a pesquisa acaba de ser publicado na revista PLOS Neglected Tropical Diseases.

O professor Sergio Verjovski Almeida, do Departamento de Bioquímica do Instituto de Química, explica que o trabalho foi identificar quais novas drogas poderiam apresentar o que ele chama de “sinergia” com o PZQ, a droga atualmente usada contra o parasita. A ideia era encontrar uma nova droga e comprovar a eficácia da combinação dessa droga com o PZQ para a morte do parasita.

Ele explica que o PZQ já é utilizado como medicação contra a doença. Apesar de matar o parasita, não há a garantia de proteção contínua da droga contra o Schistosoma mansoni, visto que, mesmo após a medicação, os pacientes voltam a entrar em contato com a larva em locais de alta contaminação. “Além disso, trata-se de um custo de saúde pública caro. Mesmo no Egito, onde foi largamente utilizada, a droga não foi capaz de erradicar a doença”, lembra Verjovski, ressaltando que já foram geradas, inclusive, formas resistentes do parasita ao PZQ.

Inicialmente, os cientistas analisaram cerca de 13 mil genes extraindo o RNA de parasitas S. mansoni controle, mantidos em cultura. De acordo com o cientista, em todo organismo vivo alguns genes funcionam mais e outros menos, em algum momento da vida das células daquele organismo.

Em seguida, foram aplicadas em alguns parasitas doses subletais de PZQ, foi extraído o RNA e comparado o funcionamento dos mesmos 13 mil genes nesses parasitas tratados com PZQ com o funcionamento dos genes nos parasitas controle, não tratados. A comparação mostrou que havia um conjunto de genes afetados pelo PZQ. Posteriormente, os cientistas buscaram, entre esses genes afetados do parasita, se havia algum semelhante a um gene humano para o qual já se conhecesse a ação de outra droga. Assim, identificaram o gene ATP1A2, sobre o qual age o Omeprazol (OMP). “O Omeprazol é um antiácido que entra na circulação sanguínea via parede do intestino, e sabe-se que ele age sobre o gene ATP1A2 humano. Vale lembrar que ao testar o OMP vimos que ele, sozinho, não tem a capacidade de matar o parasita, mas, combinado com o PZQ, conseguiu aumentar muito a morte do S. mansoni”, descreve Verjovski, ressaltando que nos parasitas fêmeas o OMP aumentou em três vezes a morte e, nos machos, em oito vezes.

Diferenças – Há diferenças entre os parasitas machos e fêmeas de S. mansoni, como o tamanho. “Além de maiores, sabia-se que os machos morrem antes das fêmeas sob o efeito do PZQ”, explica Verjovski. Outra característica desse organismo é que a fêmea vive dentro do macho.

As fêmeas maduras que vivem dentro dos machos, antes de sua morte, são denominadas pareadas. Após a morte do macho, ela passa a ser “não pareada”. De acordo com o cientista, o OMP agiu nas duas espécies de fêmeas (pareadas e não pareadas). “As fêmeas têm características diferentes, mas, no caso das pareadas, houve mudança na reação à droga”, descreve o professor.

Com base nesses resultados, conclui-se que doses subletais de PZQ combinadas com OMP são eficazes na mortalidade do verme in vitro, evidenciando um efeito sinérgico. Segundo Verjovski, os experimentos abrem caminho para que se apontem novos fármacos sinérgicos que possam ser utilizados no combate ao parasita. Ele conta que os estudos com a rede de genes alterados por PZQ em S. mansoni iniciaram-se há cerca de três anos. “Contudo, nossa percepção sobre a utilização de drogas sinérgicas acontece há pouco mais de um ano. Essa sinergia pode ser o caminho para a obtenção de novos e eficientes medicamentos para combater a doença”, ressalta o cientista.