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Pistas do mal

Publicado por thiagocastro96@gmail.com - Tuesday, 3 November 2015

Estudos do Centro de Pesquisa sobre o Genoma Humano e Células-Tronco sugerem relação entre a gravidade de câncer infantil e a ação de genes que regulam a capacidade de diferenciação das células-tronco – o que abre a possibilidade de usar esses genes como indicadores de prognóstico dos pacientes

SILVANA SALLES

Núcleo de Divulgação Científica

Dois artigos publicados por pesquisadores do Centro de Pesquisa sobre o Genoma Humano e Células-Tronco sugerem que a ação de substâncias típicas de células-tronco embrionárias – aquelas que são capazes de gerar todas as outras células do organismo, formando diferentes tecidos – é determinante na piora do quadro clínico de crianças que sofrem de meduloblastoma, um tipo de câncer do cérebro. As descobertas relatadas pelos pesquisadores brasileiros relacionam a piora a certos genes que, em células-tronco embrionárias, estão “ligados” justamente para dar a elas a capacidade especial de se transformarem nas células necessárias aos diferentes sistemas do corpo. As novas informações abrem a possibilidade de utilizar esses genes como indicadores de prognóstico dos pacientes. A versão early view (ou seja, aquela que a revista deixa on-line antes da publicação física da edição) de um dos artigos está disponível na Stem Cells and Development. O outro artigo foi publicado na edição de setembro da Cancer Science, ligada à Associação Japonesa do Câncer.

O laboratório de genômica Translacional de Biociências da USP: estudos com a proteína L1TD1 e com moléculas relacionadas ao meduloblastoma, um tipo de câncer no cérebro. Foto: Silvana salles

Ambos os experimentos que embasam os artigos foram coordenados por Oswaldo Okamoto, do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva do Instituto de Biociências (ib) da USP. O artigo “Embryonic stem cell-related protein L1TD1 is required for cell viability, neurosphere formation and chemoresistance in medulloblastoma” (“Proteína relacionada a célula-tronco embrionária é necessária para a viabilidade celular, formação de neuroesfera e resistência à quimioterapia no meduloblastoma”, em tradução livre), da Stem Cells and Development, trata da proteína L1TD1, pouco conhecida pelos cientistas e produto comum em células-tronco embrionárias, codificada pelo gene de mesmo nome.

O outro artigo, “miR-367 promotes proliferation and stem-like traits in medulloblastoma cells” (“miR-367 promove proliferação e traços típicos de células-tronco nas células de meduloblastoma”), da Cancer Science, mostra que certo tipo de microRNA, o 367, acelera a proliferação do meduloblastoma. MicroRNAs são pequenas moléculas que não codificam informações, mas controlam a expressão de genes em proteínas ao bloquear sua tradução ou desestabilizar o RNA mensageiro, que leva a informação do gene até a área da célula encarregada da produção de proteínas. O miR-367, em conjunto com o microRNA 302, é conhecido pela relação com a capacidade que certas células adultas têm de se diferenciarem – ou seja, se transformarem em células de tipo diferente.

Céluas com meduloblastoma: sistema nervoso central

Sequelas – O grupo trabalha com tumores do sistema nervoso central. Entre eles, o meduloblastoma, que, depois das leucemias, é o que mais acomete crianças até 10 anos de idade. Sua incidência é mais frequente entre 3 e 4 anos ou 8 e 9 anos. Cerca de um terço das crianças não sobrevive à doença, e os sobreviventes convivem com sequelas neurológicas. É um tumor que se manifesta logo nos primeiros anos de vida da criança.

O tratamento consiste em remover cirurgicamente o máximo possível do tumor e, em seguida, submeter o paciente à rádio e quimioterapia. “Parte grande dos pacientes não responde bem ao tratamento, que agride o sistema nervoso – em especial o das crianças, ainda em maturação”, explica Okamoto. Crianças com meduloblastoma podem ter afetados seus movimentos, sua capacidade de se comunicar e o equilíbrio na produção de hormônios. “O meduloblastoma afeta significativamente a vida dos pacientes”, conclui.