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A favor dos negros

Publicado por thiagocastro96@gmail.com - Tuesday, 3 November 2015

Depois de um ano do processo de restauração, o jornal abolicionista A Redempção ganha exposição a partir de terça no Arquivo Público do Estado de São Paulo

PAULA LEPINSKI

No dia 2 de janeiro de 1887, a primeira edição do jornal A Redempção circulava por São Paulo. O jornal abolicionista, de cunho popular, desmoralizava a escravidão e atacava abertamente fazendeiros, políticos e outros veículos que defendiam a instituição escravista. Foi criado e mantido pelo advogado Antônio Bento, a quem era atribuída a liderança do movimento abolicionista conhecido por Ordem dos Caifazes. O periódico, que circulava duas vezes por semana, pretendia ser, assim como a Ordem, clandestino, mas foi bem recebido e distribuído pela população. Pelo seu papel na luta contra os escravocratas, os exemplares remanescentes do periódico, que existiu até a promulgação da Lei Áurea em 13 de maio de 1888, tornou-se uma fonte valiosa para historiadores e para a pesquisa do processo de abolição na cidade.

Reconhecendo a relevância do periódico, o Arquivo Público do Estado de São Paulo (Apesp) inaugura nesta terça, dia 3 de novembro, às 17h30, a exposição “Memória da Imprensa Abolicionista: O jornal A Redempção”. Além de divulgar parte do acervo do jornal, a mostra também celebra a inclusão do mesmo entre os 11 inscritos no Registro Nacional do Programa Memória do Mundo, da Unesco (MoWbrasil), que reconhece como patrimônio da humanidade documentos, arquivos e bibliotecas de grande valor internacional, regional e nacional. Paralelo a abertura da mostra, a instituição promove, terça e quarta, o seminário “A Imprensa Abolicionista Paulista: de Luiz Gama ao Jornal A Redempção”. Estarão presentes nas mesas Maria Helena P. T. Machado, professora do departamento de História da USP, e Alexandre Otsuka, doutorando da USP que pesquisa A Redempção para a história do abolicionismo no Brasil, ambos responsáveis pelo texto de apresentação da mostra. A proposta é que a exposição e o seminário levantem o debate sobre o movimento abolicionista no mês da Consciência Negra.

Exemplares do jornal abolicionista

Mostra – Os exemplares sob a guarda do Arquivo Público do Estado vieram do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). “O jornal é centenário, impresso em papel frágil, e chegou na Apesp fragmentado e muito deteriorado”, diz Marcelo Chaves, curador e organizador da mostra e do seminário. Segundo Chaves, o tratamento de restauro exigiu um ano de trabalho contínuo do Núcleo de Conservação da Apesp e contou com a ajuda de cópias de microfilme dos exemplares existentes na Biblioteca Lamont da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. “Foi um verdadeiro quebra-cabeça, mas o trabalho foi feito para que se tivesse a menor perda de informação possível”, acrescenta o curador. Foi preciso ainda um banho para diminuir a acidez do papel e, posteriormente, de pequenos reparos e velatura, utilizando folhas de papel japonês. Ao longo do processo, foram descobertos sete exemplares que se imaginavam perdidos, formando uma coleção de 135 edições do jornal – estima-se que tenham sido publicadas 138.

“Agora, essa coleção está completamente restaurada e encapsulada, e terá uma vida longa”, diz Chaves. Também a partir de terça, os exemplares digitalizados em alta resolução ficam disponíveis para o público nas páginas do site do Arquivo Público. Parte do acervo do jornal poderá ser visto na exposição por meio de reproduções de banners, painéis, fac-símile e algumas edições recuperadas pelo Núcleo de Conservação do Apesp. O público esperado, segundo Chaves, é de majoritariamente estudantes e pesquisadores, mas acrescenta: “A mostra é uma porta aberta para o cidadão e para as entidades nessa luta pela reparação do negro na sociedade”.

A exposição “Memória da Imprensa Abolicionista: o jornal A Redempção” será inaugurada nesta terça, às 17h30, com temporada até 11 de dezembro, no hall do prédio do Arquivo do Arquivo Público do Estado (r. Voluntários da Pátria, 596, Santana, tel. 2089-8100), que funciona de segunda a sexta, das 9h às 17h, com entrada franca. Mais informações pelo site www.arquivoestado.sp.gov.br/.

A África no cinema

Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Cabo Verde são países que compartilham independências recentes. São territórios que experimentaram, em curto espaço de tempo, a euforia da libertação e as profundas tensões do processo de construção de nações forjadas e marcadas pela exploração colonial portuguesa. Suas produções cinematográficas, tão recentes quanto as autonomias políticas, vinculam-se intimamente. É isso o que apresenta a mostra África Lusófona, exibida pelo Cinusp, em parceria com a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, que reúne 13 filmes desses países. Das lutas de libertação, passando por longos períodos de guerras civis, até os dias atuais, os filmes discutem o contexto social de cada país. Entre os destaques está a cópia restaurada do moçambicano Mueda, Memória e Massacre (1981), filme de Ruy Guerra, diretor nascido em Moçambique e radicado no Brasil, que trabalha entre o documentário e a ficção, entrelaçando depoimentos de membros da Frente de Libertação de Moçambique a um registro de uma representação teatral do massacre ocorrido em junho de 1960, quando soldados portugueses abriram fogo contra manifestantes em Mueda matando centenas de civis – uma história oficial avessa à narrativa criada por Portugal. Representante de Cabo Verde, Ilhéu da Contenda (1995), de Leão Lopes, adaptação da obra literária homônima, volta-se aos processos de modernização social e econômica da década de 60, apresentando a decadência da burguesia portuguesa e a ascensão social dos mulatos e mestiços, tendo como pano de fundo uma trilha sonora interpretada por Cesária Évora. Produzido ainda durante a luta de independência de Angola, Sambizanga (1972), com direção da francesa Sarah Maldoror, é baseado em novela de Luandino Vieira e retrata a luta de libertação, a partir da perspectiva de uma mulher em busca de seu marido preso, militante do Movimento Popular de Libertação de Angola (o roteiro é de Mário Pinto de Andrade, ex-presidente do MPLA). E de Guiné-Bissau, título mais recente da mostra, A República di Mininus (2012), de Flora Gomes, história de fantasia que pode ser interpretada como um relato distópico de uma sociedade em guerra, em que as crianças, abandonadas pelos adultos, organizam-se em torno de inúmeras estratégias de sobrevivência. Para aprofundar a discussão, a mostra ainda inclui dois debates: nesta quinta, o cinema moçambicano é tema do professor José Luís Cabaço, com mediação da professora Rita Chaves; e na próxima quarta, dia 11 de novembro, data em que se completam 40 anos da Independência de Angola, é a vez do cinema angolano, temática de palestra com a professora Fabiana Carelli. A mostra vai até 14 de novembro. Programação completa, com horários e locais, no site www.usp.br/cinusp.