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Um novo modelo para identificar os dirigentes da Universidade

Publicado por mabi.barros.s@gmail.com - Monday, 9 November 2015

MARTIN GROSSMANN

Em abril deste ano, o Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP recebeu em suas instalações 13 jovens pesquisadores, acompanhados por 40 pesquisadores seniores provenientes de 13 países. Abrigamos durante duas semanas esse grupo interdisciplinar e heterogêneo de cientistas e outros pesquisadores durante a primeira edição da Intercontinental Academia. Tratou-se do primeiro encontro imersivo de um novo formato de academia, cujo principal objetivo é identificar e promover novos líderes universitários. Essa empreitada interdisciplinar é realizada em parceria com os institutos de estudos avançados ligados à rede University Based Institutes for Advanced Studies (Ubias). O próximo encontro de imersão ocorrerá em Nagoya, no Japão, em março de 2016.

Um marco importante na concretização desse programa foi o processo de seleção dos jovens pesquisadores. Foi nesse momento que alcançamos, pela primeira vez, o consenso necessário para avançarmos no desenvolvimento do projeto. A partir da convergência de critérios e balizas para a avaliação e seleção, a confiança mútua finalmente foi estabelecida entre os integrantes do comitê científico sênior (pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento e provenientes de diferentes partes do mundo), passo fundamental na continuidade da empreitada e nos ajustes que têm sido realizados nessa trajetória.

Como o consenso para a formação da linha de frente da Intercontinental Academia foi obtido? Obviamente que o currículo acadêmico e a produção científica foram essenciais, mas o que se mostrou imprescindível foi a carta de intenção. Nela, a volição em desempenhar o papel a eles designado pelo projeto estava claramente demonstrada. Ou seja, a oportunidade de participação não era fruto de uma premiação ou de um reconhecimento pelo trabalho já realizado. Tampouco pesou na decisão o fato de pertencerem a uma determinada universidade ou mesmo a uma comunidade científica ou a uma unidade universitária.

O consenso na seleção realizada pelo comitê foi pautado no mérito. Dois japoneses, dois alemães, dois brasileiros, um finlandês e um israelense não divergiram em suas escolhas, o que aponta para o fato de ter havido uma universalidade compartilhada nesse processo de avaliação e seleção.

Mas o que isso tem a ver com a identificação de novos líderes universitários, em particular aqueles que poderão governar museus e institutos especializados que pertencem à USP?

Os principais valores associados a esse sistema de escolha e gestão são a formação, a produção, a experiência adquirida, bem como a aptidão demonstrada para determinada atividade. Essas condicionantes têm clara correspondência, no Brasil, com os critérios mínimos que são observados para a avaliação dos candidatos que atendem aos editais ou que são recrutados pelos comitês de busca do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), que objetivam a escolha de diretores de suas unidades de pesquisa com base em competência técnico-científica, gerencial e administrativa, conforme estabelece a Portaria MCT nº 1.037 de 10/12/2009:

I – formação acadêmica de alto nível (ou equivalente), experiência técnico-científica e competência profissional na área de atuação da unidade de pesquisa, demonstrada no curriculum vitae;

II – experiência gerencial e administrativa envolvendo atividades de relacionamento com organizações de fomento, do governo e entidades da sociedade em geral;

III – notoriedade junto à comunidade científica ou tecnológica;

IV – entendimento e comprometimento com a execução do Plano Diretor da unidade de pesquisa e com o Plano de Ação do Ministério da Ciência e Tecnologia;

V – visão de futuro voltada para o crescimento científico e tecnológico da unidade de pesquisa e do País;

VI – capacidade de liderança para motivar o corpo técnico e científico e os demais colaboradores da unidade;

VII – competência para propor soluções, capacidade para enfrentar desafios e superar obstáculos com o objetivo de fortalecer a atuação da unidade.

Esses critérios também estão explicitados em processos semelhantes como os adotados pelas universidades norte-americanas do porte e importância de Harvard, MIT, Emory, Stanford, bem como por importantes instituições da Europa, como o European Research Council e universidades relacionadas à Comissão Europeia.

Diferentemente das unidades de ensino da USP, os museus e institutos especializados têm algo em comum: são interfaces interdisciplinares que atuam interna e externamente integrando experiências, saberes e práticas. Orientados por sua missão, desígnio, genealogia, história e trajetória, buscam uma maior proximidade com a sociedade em geral, bem como são essenciais no aprimoramento da ambiência universitária. Mais recentemente, sinais concretos, como a nova sede do Museu de Arte Contemporânea (MAC), no Ibirapuera, e as novas instalações do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) demonstram que essas unidades da USP estão em crescente evidência, merecendo especial atenção não só dos dirigentes da Universidade, como de instâncias exteriores à USP. No entanto, há muitos desafios pela frente, seja a crise econômica, seja a busca por efetiva participação dessas unidades na estrutura de poder da Universidade.

As manifestações de junho de 2013 indicam um ponto de virada para a democracia brasileira. Estes novos tempos demandam transformações reais nas políticas e estruturas públicas. Cabe à Universidade papel central neste momento, não só no debate e na formulação de discursos, mas na proposição e efetivação de novos modelos de gestão e governança, que possam de fato modernizar a máquina pública do Estado. Em meio à discussão da reforma estatutária e de novas formas de eleição de dirigentes, a condução do processo eleitoral de museus e institutos especializados – estruturalmente menores que as demais unidades de ensino –, mediante um comitê de busca formado por proeminentes pesquisadores, proporcionará pluralidade e permitirá que quaisquer docentes capacitados para essas funções, no âmbito da USP, sejam considerados e motivados a apresentar programas de gestão que contemplem os papéis dessas unidades dentro e fora de nossa universidade.

Martin Grossmann é diretor do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP