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Futuro do planeta depende de acordos na reunião do clima

Publicado por carollfts@gmail.com - Monday, 23 November 2015

É preciso uma governança global que gerencie uma economia globalizada, seguindo interesses do planeta – e não de países –, acredita o professor Paulo Artaxo, às vésperas da COP 21

As soluções e as medidas para salvar a Terra do aquecimento global serão discutidas na 21ª Conferência do Clima (COP 21), a partir do próximo dia 30, em Paris, na França, promovida pela Organização das Nações Unidas (ONU). Apesar dos atentados recentes ocorridos no dia 13 – o pior ataque da história francesa desde a Segunda Guerra Mundial –, cerca de 120 presidentes e chefes de Estado confirmaram presença. A expectativa é de que até o dia 11 de dezembro sejam estabelecidos compromissos sociais, econômicos e políticos na tentativa de chegar a um acordo final para limitar o aquecimento global.

Na avaliação do professor José Goldemberg, docente do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) e ex-reitor da USP, o compromisso dos países na COP 21 deve ser seguido à risca. “O importante é que se chegue a um acordo ‘legalmente vinculante’, isto é, que represente uma obrigação de cumpri-lo por parte do país proponente”, observa. “Mais de 150 países apresentaram propostas do que pretendem fazer para reduzir as emissões. O agregado dessas promessas é encorajador. Porém, o grande problema é assegurar-se de que serão realmente cumpridas.”

Goldemberg lembra que o Brasil, desde a Eco 92, realizada no Rio de Janeiro, apresentou pela primeira vez, em 2005, propostas concretas de redução de suas emissões. “Parte dessas reduções viria da diminuição do desmatamento da Amazônia e maior participação das energias renováveis, como energia eólica e principalmente etanol, como substituto da gasolina.”

Questão política – A falta de políticas públicas, tanto no Brasil como nos demais países, é a questão apresentada pelo professor Paulo Artaxo, do Instituto de Física (IF) da USP. “A crise econômica global, que está se estendendo há vários anos, dificulta a implantação de economias de baixo carbono, mas, se quisermos uma economia sustentável a médio e a longo prazo, não há outro caminho”, observa. “O que na verdade está faltando é um sistema de governança global que possa gerenciar uma economia globalizada, seguindo os interesses não de grupos, países ou setores econômicos individuais, mas do planeta como um todo. Essa governança global é essencial para que um novo acordo climático seja implementado eficazmente.”

Artaxo ressalta que é fundamental que sejam assinados, na COP 21, acordos internacionais que limitem em 80% as emissões de CO2 até 2030 ou 2040. “Essa redução não será uma tarefa fácil, mas é essencial se quisermos estabilizar o clima de nosso planeta.” O professor esclarece que a questão não é tecnológica, já que há alternativas à geração de eletricidade por meios renováveis, como hidroeletricidade, energia solar e eólica. “Também há muito espaço para melhorar a eficiência no uso de energia nas indústrias e no setor de transporte, com automóveis mais eficientes e transporte público de massa nos grandes centros urbanos. É importante destacar que já existe tecnologia para dobrar a eficiência de motores de combustão interna, como dos automóveis.”

O papel do oceano nas mudanças climáticas globais é um dos assuntos que devem ser priorizados na 21ª Conferência do Clima. Pela primeira vez, a preservação dos oceanos vai ser discutida, seguindo a orientação da ministra francesa da Ecologia, Ségolène Royal.

Segundo Edmo José Dias Campos, professor do Instituto Oceanográfico (IO) da USP, a COP 21 deve resultar em decisões importantes para o futuro do planeta. “Eu não irei participar pessoalmente, mas já estou acompanhando com muito interesse”, ressalta. “O grande volume e a alta capacidade térmica da água fazem do oceano o regulador do sistema climático, reduzindo as diferenças de temperatura e criando um ambiente propício para a vida em quase toda a superfície da Terra.” Porém, ele alerta que aumentos mínimos do valor médio global da temperatura causado por maior concentração de CO2 na atmosfera e alterações nos gradientes térmicos espaciais podem resultar em mudanças drásticas nos regimes de ventos, de chuvas e de outras trocas de propriedades entre o oceano e a atmosfera. “No oceano, o efeito combinado dessas mudanças pode modificar significativamente o sistema de correntes e as propriedades físicas e químicas, impactando significativamente o ecossistema marinho. Em retorno, alterações nas propriedades das massas de água e na circulação oceânica podem causar mudanças duradouras, ou até mesmo permanentes no sistema climático.”

Terrorismo provoca mudanças no evento
Apesar da apreensão provocada pelos ataques terroristas em Paris, no dia 13 passado, que deixaram a capital francesa em pânico, a 21ª Conferência sobre o Clima (COP 21) será mantida, com algumas mudanças na programação e um reforço intensivo no esquema de segurança. Em entrevista à rádio RTL, o primeiro ministro da França, Manuel Valls, declarou que uma série de eventos paralelos foram cancelados. “A COP 21 ficará concentrada à negociação. Iremos cancelar os shows e eventos festivos.”

A meta da COP 21 é buscar, segundo Valls, uma unidade sobre a questão climática e o compromisso sobre a redução das emissões de gases do efeito estufa, na tentativa de chegar a um acordo para limitar o aquecimento global e impedir que a temperatura suba mais de dois graus Celsius até o fim do século.

A presidente Dilma Roussef, Barack Obama, dos Estados Unidos, Angela Merkel, da Alemanha, Xi Jinping, da China, e os primeiros ministros da Grã-Bretanha, David Cameron, e da Índia, Narendra Modi, estão entre os líderes mundiais que irão participar do encontro. Entre os dias 30 de novembro e 11 de dezembro, cerca de 40 mil participantes de ONGs e da sociedade civil devem se reunir na COP 21.