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O que está dando errado na economia brasileira?

Publicado por carollfts@gmail.com - Monday, 23 November 2015

Professores da USP afirmam que expectativa para 2016 não é animadora e que quadro político vem agravando a crise

CAROLINA OLIVEIRA

Inflação vem aumentando preço de itens essenciais. Foto: Jorge Maruta

Ao longo deste ano, as televisões, jornais e portais brasileiros passaram a exibir um noticiário econômico cada vez mais pessimista: a inflação acumulada atingiu quase 10%, enquanto o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto, a soma de tudo o que o País produz) pode fechar o ano com taxa negativa, chegando a -3%. Assim, os baixos índices de crescimento colocam o Brasil em estado de recessão. E nem é preciso saber esses números para perceber que algo está errado na economia brasileira, com alta em preços de alimentos, serviços, combustíveis e energia, entre muitos outros itens.

Contudo, quatro anos atrás, o Brasil comemorava a posição de sexta maior economia do mundo e uma imagem de respeito no cenário econômico internacional. Em 2010, no primeiro ano de governo da presidente Dilma Rousseff, o PIB cresceu 7,5%, um dos maiores índices da história. A renda do brasileiro aumentava e a inflação, um dos grandes fantasmas da economia do País, mantinha índices estáveis. Até mesmo a crise econômica mundial, que assolou a Europa e os Estados Unidos em 2008, não mostrou muitos sinais preocupantes por aqui. Dessa forma, como o País chegou ao contexto de recessão que é vivido hoje?

Trajetória da crise – Para o professor Heron do Carmo, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA), o cenário atual é resultado da junção de uma série de fatores. O principal deles, segundo Carmo, é o chamado agravamento da questão fiscal, ou seja, um desequilíbrio nas contas públicas. Entre 2013 e 2014, o déficit público mais do que dobrou e, neste ano, é previsto que esse valor ultrapasse R$ 50 bilhões – ou seja, o Brasil terá gastado R$ 50 bilhões a mais do que arrecadou. Soma-se a isso a conjuntura internacional, já que muitos países ao redor do mundo ainda se recuperam a passos lentos da crise iniciada em 2008, prejudicando, sobretudo, as exportações brasileiras.

Além de todos os problemas econômicos, o conturbado cenário político nacional também contribui para agravar a crise. Desde as eleições de 2014, o Brasil vem enfrentando uma grande polarização partidária, com forte enfrentamento entre partidários do governo e da oposição. A base apoiadora do governo no Congresso é hoje pequena se comparada ao primeiro mandato da presidente Dilma, o que dificulta a discussão de reformas. “Formou-se na Câmara um contingente razoável contra a presidente. Esse conjunto de fatores torna o governo frágil, e à medida que ele fica frágil todos os agentes econômicos ficam um pouco retraídos”, explica o professor André Singer, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. “Então, os investidores têm um pouco de dúvida sobre o que vem pela frente. Há uma retração do consumo e do crédito, e, em função disso, a crise política alimenta a crise econômica e vice-versa.”

Reforma fiscal – Dentre os economistas ouvidos pelo Jornal da USP, é consenso que uma reforma fiscal precisa ser realizada visando ao retorno do crescimento. Na opinião do professor Alex Ferreira, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (Fearp), uma saída duradoura para a crise inclui a redução dos gastos do governo, acompanhada de um aumento na eficiência do setor público, simplificação tributária e desburocratização do Estado. Medidas que, segundo ele, não precisam necessariamente incluir cortes em programas sociais. Outra ação apontada pelo professor seria o uso de parte das reservas para diminuir a dívida pública, o que seria desejável caso alguns dos ajustes citados ocorressem. “Você pode suavizar os efeitos das reformas com outros instrumentos de política econômica. As reservas externas são como um seguro que pode ser acionado”, diz.

Já para o professor Heron, a via de escape é por meio do aumento de impostos, como a CPMF (Contribuição Provisória sobre  Movimentação Financeira). “O espaço para reduzir despesas públicas é pequeno. O superávit deve ser viabilizado com aumento de impostos, pelo menos no período entre 2016 e 2017.” Além disso, Heron aponta que várias reformas ainda precisam ser realizadas, para que a diminuição do déficit público seja atingida. Uma delas é o fator previdenciário, que hoje consome muitos recursos estatais. “Assim, é possível criar uma expectativa mais favorável em relação ao acerto de contas no futuro”, explica.

“Um acordo político mínimo é necessário”
No âmbito político, o professor André Singer, da FFLCH, defende um pacto mínimo entre os vários espectros do poder, que possibilite estabilidade econômica e, assim, a retomada do crescimento. “Acho que, neste momento, esse acordo seria de interesse de todas as classes, inclusive dos empresários. Essa divisão entre os partidos está dificultando muito.”

Além disso, as discussões sobre um possível impeachment da presidente Dilma não têm justificativa plausível e prejudicam o cenário político nacional, segundo o cientista político. “Fica um esforço um pouco golpista. Seria necessário virar essa página e então partir para alguma forma de acordo que permitisse às diferentes forças políticas disputar o que deve ser disputado, mas dentro de parâmetros democráticos”, aponta Singer.

O professor Heron do Carmo, da FEA, concorda que é necessária a adoção desse pacto mínimo, e reitera que a estabilização política é essencial para uma melhora no cenário econômico brasileiro. “O cenário político conturbado inviabiliza a possibilidade de vários avanços que dependem do Congresso”, afirma. Segundo o economista, a previsão para 2016 não é das mais positivas, de modo que o País deve seguir com altas taxas de inflação e baixo crescimento. Contudo, se o ajuste fiscal e as reformas necessárias forem realizadas, as perspectivas para o futuro podem ser melhores. “Tudo isso resultaria em benefícios a longo prazo para a sociedade como um todo”, diz.