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Brasil, Argentina e México debatem os confrontos políticos nos espaços culturais

Publicado por carollfts@gmail.com - Monday, 23 November 2015

Em seminário internacional realizado na USP, professora da Universidade de Buenos Aires afirma que a política oficial da Argentina é construída com gestos da cultura de massa, tornando difícil diferenciar uma da outra

MICHEL SITNIK E VERÔNICA CRISTO
Especial para o Jornal da USP

Carlos Altamirano, da Argentina, Christopher Michael, do México, André Singer, do Brasil, e Jorge Myers, da Argentina

Os dias 12 e 13 de novembro foram de intensas discussões no Centro Universitário Maria Antonia (Ceuma)    da USP. O local foi sede do seminário internacional Espaços Culturais de Confronto Político na América Latina: Brasil, Argentina e México, promovido pela Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP. O evento foi coordenado pela professora Maria Arminda do Nascimento Arruda, pró-reitora de Cultura e Extensão Universitária, e Sérgio Miceli, professor titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

Na primeira mesa do evento, “Indústria Cultural e Imprensa”, a professora Mirta Varela, da Universidade de Buenos Aires, fez uma análise da imagem pública construída pela presidente Cristina Kirchner, que mostrou semelhanças com outra personalidade argentina, a apresentadora de televisão Susana Gimenez. “A política oficial é construída com materiais e gestos da cultura de massa, a ponto de não sermos capazes de diferenciar uma da outra”, disse.

O professor Marcelo Ridenti, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), enfocou a situação financeira das empresas de mídia do Brasil, o impacto das ondas de demissões de jornalistas e os desafios que tais empresas têm para manter tanto a sua lucratividade como seu poder de influência sobre a opinião pública. Para ele, “apesar de ainda manter seu poder, a imprensa sente-se fragilizada, e assume o papel de guardiã da moral e da democracia, uma espécie de palmatória da sociedade brasileira, atribuindo-se legitimidade para pautar a agenda do País”.

Já o professor Álvaro Morcillo, do Centro de Investigación y Docencia Económicas, do México, abordou as relações entre a imprensa e o governo mexicano, em especial a força da publicidade oficial sobre as empresas de mídia e a sombra da autocensura que ronda as redações mexicanas, atrás de um manto de liberdade de imprensa. Um dos exemplos mais contundentes é a demissão, em março, de Carmen Aristegui, jornalista da rádio MVS, após reportagens sobre o caso Casa Branca, uma luxuosa moradia da família presidencial comprada de um empresário que possui diversos contratos com o governo mexicano.

O segundo dia do evento foi aberto com a mesa “Intelectuais Públicos”. O professor Jorge Myers, da Universidad Nacional de Quilmes, na Argentina, destacou que parcela relevante da intelectualidade argentina, inclusive artística, inicialmente foi incorporada pelos governos Néstor e Cristina Kirchner, mas que vem crescendo o espaço para a oposição especialmente na internet e nas redes sociais, ambiente que tem abrigado discursos altamente agressivos.

O professor André Singer, da FFLCH, buscou aprofundar alguns dos elementos que podem estar na origem da crise política em curso no Brasil, como os conflitos entre as forças que exercem pressões sobre o poder presidencial. Para Singer, curiosamente muitas das dificuldades hoje impostas a Dilma Rousseff teriam sido previstas pelo intelectual Fernando Henrique Cardoso já nos anos 60 em sua tese “Empresário industrial e desenvolvimento econômico no Brasil”.

Sociologia – Por fim, a terceira mesa – “Universidade, Ciências Humanas, Tensões Institucionais e Disciplinares” dedicou-se a aprofundar o passado e o presente dos estudos sociais e das universidades públicas. O professor Alejandro Blanco, da Universidad Nacional de Quilmes, na Argentina, traçou um panorama das transformações da sociologia como disciplina acadêmica nos últimos 30 anos, relacionando tais estudos com o contexto político vigente. Em seguida, o professor Guillermo Palacios, do El Colegio de México, apresentou as relações dos conflitos revolucionários presentes em seu país entre 1920 e 1940 com as ciências humanas como profissões institucionalizadas, demonstrando como, no primeiro momento, a formação dos cientistas sociais no país não obedeceu a projetos acadêmicos formais, e sim a uma formação empírica.

A pró-reitora Maria Arminda, que também é professora titular do Departamento de Sociologia da FFLCH, destacou que “os processos de institucionalização da universidade, ainda que necessários, levam à fragmentação e, portanto, ao recuo diante de uma agenda pública. No caso das ciências sociais e, em particular, da sociologia, isso é um retrocesso. É preciso sair dessa prisão de ferro que têm sido as universidades”, afirmou.

“Evento valoriza relações da USP com América Latina”

A pró-reitora de Cultura e Extensão Universitária da USP, professora Maria Arminda do Nascimento Arruda – que coordenou o seminário internacional Espaços Culturais de Confronto Político na América Latina: Brasil, Argentina e México – considerou a discussão bastante oportuna. “Os temas da programação são recorrentes nos debates atuais e nas pautas da imprensa, e é importante que a Universidade contribua com um olhar acadêmico e sociológico sobre isso”, disse a professora.

Já o professor Sérgio Miceli, também coordenador do encontro, destacou o caráter internacional do seminário. “O evento valoriza as relações que a USP tem desenvolvido com a América Latina, em especial México e Argentina. Esses três países têm contribuições notáveis e em formas e expressões bastante diversas”, lembrou Miceli.