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A cura pela homeopatia

Publicado por admin - Monday, 31 August 2009

SAÚDE
IZABEL LEÃO

Professor da Faculdade de Medicina mostra, em tese de doutorado, que medicamentos homeopáticos podem eliminar sintomas da rinite alérgica por um longo tempo

O médico homeopata Marcus Zulian Teixeira, na tese de doutorado que defendeu na Faculdade de Medicina da USP – onde leciona a disciplina Fundamentos da Homeopatia –, demonstrou que após um tratamento homeopático o paciente com rinite alérgica pode ficar livre da sua doença por um longo tempo.
Na tese “Ensaio clínico quali-quantitativo para avaliar a eficácia e a efetividade do tratamento homeopático individualizado na rinite alérgica perene”, Teixeira constatou que os pacientes analisados que atingiram melhora de 100% da doença em alguma fase do estudo, permaneceram, após a suspensão do tratamento, por uma média de três anos sem manifestar nenhum sintoma, indicando uma provável mudança no curso natural da doença.
Teixeira propôs um modelo de ensaio clínico que buscou satisfazer tanto a racionalidade científica homeopática quanto a convencional. Em vista da grande taxa de abandono nos tratamentos e ensaios clínicos controlados de longa duração (indispensáveis para testar a eficácia do tratamento homeopático individualizado), o que por si só inviabiliza a avaliação quantitativa tradicional, o pesquisador sugeriu um ensaio clínico “misto”, composto por uma fase inicial e fechada de seis meses de duração, seguida por uma fase aberta de 12 a 36 meses de tratamento homeopático exclusivo, com análises quantitativas e qualitativas em todas as etapas do estudo, “inclusive discutindo os possíveis erros sistemáticos desse tipo de estudo”, destaca o médico.
Durante a pesquisa, os pacientes foram avaliados por uma médica alergoimunologista indicada pelo Serviço de Alergia e Imunologia Clínica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, sem vínculo com o estudo, através da Ficha de Rinite Alérgica daquele serviço.

Teixeira: homeopatia é eficaz

Teixeira: homeopatia é eficaz

Erros e acertos – A população em estudo foi composta por indivíduos adultos, em idade média de 30 anos, que apresentavam rinite alérgica de gravidade moderada, com tempo médio de doença de 14 anos, que faziam uso crônico dos diversos tratamentos alopáticos sem apresentarem mudanças no curso natural da doença.
Dos 55 pacientes, 41 completaram os seis meses da fase placebo-controlada inicial, apresentando, em média, 25% de melhora em relação ao escore de sinais e sintomas basais, sem diferenças significativas entre os grupos.
Na fase aberta, em torno de 70% dos pacientes completaram 12 meses de tratamento homeopático individualizado, apresentando 50% de melhora em relação aos sinais e sintomas basais, com diferença significativa em relação à melhora da fase inicial.
Vale ressaltar que não houve problemas na aferição dos resultados, pois o ensaio clínico utilizou um mesmo instrumento de avaliação, que foi aplicado por uma mesma médica imunologista e, segundo Teixeira, isso elimina os possíveis erros sistemáticos que normalmente ocorrem na mensuração dos resultados; os vieses na seleção dos pacientes e na confusão dos resultados também foram exaustivamente discutidos na análise qualitativa do estudo, minimizando a ocorrência desses possíveis erros sistemáticos. A tese foi orientada pelo professor Mílton de Arruda Martins..

Visão globalizante – Nas últimas décadas, vários aspectos explicam o aumento do interesse pelos tratamentos não-convencionais, como a homeopatia e a acupuntura, que não apresentam efeitos adversos ou colaterais, diferentemente da alopatia, segundo Teixeira.
Esses tratamentos vêem o adoecimento do indivíduo a partir de uma visão globalizante, que inclui corpo, mente e espírito, considerando o paciente como um ser único e não dividido em partes estanques, diz Teixeira. Outro aspecto responsável pelo crescimento da homeopatia no Brasil, embora ainda tímido quando comparado à medicina convencional, é a produção de trabalhos científicos na área da pesquisa básica, que respaldam os pressupostos homeopáticos, e também na área da pesquisa clínica, mostrando a efetividade do tratamento homeopático contra diversos tipos de doenças, como a rinite alérgica.
Segundo Teixeira, a desinformação da classe médica, que acabou criando preconceitos sobre essas práticas, começa a ser dissolvida por diversas iniciativas, como a do SUS, que passou a oferecer tratamento homeopático a partir de 1985.
No entanto, o serviço público de saúde ainda apresenta deficiências. Dos 5 mil municípios do País, apenas 110 contam com a prática homeopática no sistema público, embora no último ano a especialidade tenha respondido por mais de 300 mil consultas no SUS, o que corresponde a 10% das consultas de atenção básica do período, segundo dados do Ministério da Saúde.
O Conselho Federal de Medicina reconhece a homeopatia como especialidade médica desde 1980, com título de especialista conferido pela Associação Médica Brasileira (AMB) desde 1990. Em 2004, começou a ser oferecida no programa de residência médica da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, como opção de treinamento em serviço.
Os convênios e seguros de saúde atuais também têm contribuído para aumentar a procura pelos tratamentos não convencionais. Com a facilidade do reembolso, os procedimentos e consultas homeopáticas ficaram mais acessíveis.
Em 2006, o Ministério da Saúde criou a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), a fim de incrementar o ensino, a assistência e a pesquisa dessas práticas no SUS. “Infelizmente, as verbas para a implementação da PNPIC não têm sido disponibilizadas como se esperava”, diz Teixeira. “O meu doutorado é um exemplo de pesquisa clínica em homeopatia praticada no SUS, por ter sido realizada no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, que não recebeu nenhum subsídio dessa política.”

Tratamento é de médio a longo prazo

A homeopatia foi elaborada em 1796 pelo médico alemão Samuel Hahnemann, com a proposta de estimular uma reação vital do organismo contra seus próprios distúrbios. Cientificamente, explica o professor Marcus Zulian Teixeira, a homeopatia apresenta quatro pressupostos fundamentais: o princípio da similitude terapêutica, a experimentação das substâncias medicinais em indivíduos sadios, o medicamento dinamizado e o medicamento individualizado.
O tratamento homeopático procura administrar aos indivíduos enfermos medicamentos que causaram sintomas semelhantes em pessoas sadias, em doses infinitesimais, para evitar uma agravação nos sintomas do paciente, englobando as diversas características individuais, como sintomas mentais, gerais e locais na escolha do medicamento mais apropriado para cada indivíduo.
Teixeira ressalta que, após conhecer a totalidade de sinais e sintomas característicos da doença no paciente, o médico homeopata seleciona algumas hipóteses medicamentosas dentre as milhares de substâncias experimentadas, que deverão ser administradas de forma isolada e gradual, em avaliações e prescrições periódicas, até que se atinja a resposta curativa almejada. Normalmente a homeopatia resulta em um tratamento a médio e longo prazo.