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Linguagem recupera aspectos esquecidos da existência

Publicado por mabi.barros.s@gmail.com - Wednesday, 17 February 2016

Em novo livro, o professor Jean Lauand, da Faculdade de Educação da USP, mostra que as palavras contêm profundas revelações sobre o homem e o mundo

ROBERTO C. G. CASTRO

O popular “parabéns” – que se diz a qualquer pessoa que faz aniversário, compra um carro novo ou passa no vestibular – sintetiza a tradição do pensamento ocidental sobre o ser humano, desde Platão até Tomás de Aquino. De acordo com essa tradição, o homem é um ser criado para o bem, mas está sujeito à degeneração e a se voltar para o mal. Assim, ao se falar “parabéns”, está-se advertindo o interlocutor desse risco e lembrando que a sua conquista deve ser sempre usada para o bem, para bens.

Essas revelações extraídas das palavras são o tema do livro Revelando a Linguagem, do professor Jean Lauand, da Faculdade de Educação da USP e da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), que acaba de ser lançado. Através da análise de expressões e estruturas gramaticais de vários idiomas – desde o português e o inglês até o grego, o latim, o árabe, o japonês e o tupi –, Lauand traz à luz aspectos esquecidos da realidade humana. “O filósofo alemão Josef Pieper afirma que os grandes insights sobre o mundo e o homem não permanecem em nossa consciência reflexiva, mas logo se desvanecem, e acabam se refugiando na linguagem, entre outros lugares”, destaca Lauand. “Logo, se quisermos recuperar esses insights, devemos procurá-los na linguagem, onde se escondem preciosas informações filosóficas, e também sociológicas, históricas etc.”

Passado e presente – Lauand cita como exemplo a riqueza expressiva da língua tupi. Esse idioma possui um recurso que não encontra equivalente em português – o sufixo guera (ou quera e puera). Unido a um vocábulo, essa terminação produz uma curiosa alteração semântica, indicando que aquilo do que se diz não existe mais, mas preserva algo do que foi.

Assim, se anhangá é diabo, espírito com poderes, anhanguera é alguém que, sem ser mais diabo, preserva algo dele. Por isso é que esse epíteto foi atribuído pelos índios ao bandeirante paulista Bartolomeu Bueno da Silva, que no século 18 colocou fogo numa vasilha com aguardente para aterrorizar e escravizar os nativos. Já ibirapuera é o que resta daquilo que um dia foi mata (ibirá), itaquera é pedreira extinta (o que era itá, pedra) e piaçaguera é porto em ruínas. “A composição com guera é frequente no tupi e está continuamente a nos recordar que há uma conexão entre o presente e o passado, entre o futuro e o presente, que há leis naturais regendo o desenvolvimento das coisas e que as ações têm consequências: projetam-se, deixam um rastro, um guera”, escreve Lauand.

O latim também conserva expressões ricas em conteúdo antropológico. Nele, o prefixo per inclui o sentido de plenitude, grau máximo, como ficou preservado nas palavras em português “perlavar” (lavar completamente), “pernoitar” (passar toda a noite) e “perfeito” (feito completamente). Com isso, “perdão” adquire um sentido que está relacionado com o pensamento do filósofo medieval Tomás de Aquino, para quem o máximo que alguém pode fazer para o outro, mais do que doar dinheiro ou qualquer outra coisa, é perdoar.

Gratidão – Lauand recorre a palavras em inglês, alemão, francês, espanhol e português para ilustrar outra ideia de Tomás de Aquino – os graus da gratidão. Para o filósofo medieval, a gratidão se compõe de três graus: o reconhecimento, o louvor e a retribuição pelo benefício recebido. Como aponta Lauand, etimologicamente, na língua inglesa, to thank (agradecer) e to think (pensar) são a mesma coisa, do mesmo modo como, em alemão, danken (agradecer) é originariamente denken (pensar) – o que corresponde ao primeiro nível de gratidão.

Por sua vez, as formas espanhola e francesa de agradecer (gracias e merci) remetem ao segundo nível, aquele em que o beneficiado louva, dá graças pelo bem recebido. Quanto ao “obrigado”, Lauand comenta: “A formulação portuguesa, tão encantadora e singular, situa-se, claramente, no terceiro nível, o mais profundo, da gratidão: o do vínculo, da obrigação, do dever de retribuir”.

Os 50 textos de Revelando a Linguagem foram publicados ao longo de dez anos, entre 2005 e 2015, na revista Língua Portuguesa, desativada no ano passado. Alguns são inéditos e outros foram revistos e ampliados. O livro tem estudo introdutório do escritor e tradutor Gabriel Perissé e apresentação do jornalista Luiz Costa Pereira Jr., editor da Língua Portuguesa.

Revelando a Linguagem, de Jean Lauand, Cemoroc-USP/Editora Factash, 360 páginas, R$ 50,00.

Voz média amplia visão da realidade

Em Revelando a Linguagem, o professor Jean Lauand analisa um recurso linguístico precioso, presente no grego e no latim, mas ausente no português e em outras línguas modernas: a voz média.

Nem ativa nem passiva, a voz média permite expressar situações da realidade que não se enquadram bem como puramente ativas nem como puramente passivas, explica Lauand. “Isto é, há ações que são protagonizadas por mim, mas que, na realidade, não o são em grau predominante: há tal influência do exterior que não posso propriamente dizer que são plenamente minhas.”

Ele cita como exemplo os chamados verbos depoentes do latim, como nascor (nascer). “O verbo nascer, a rigor, não é nem ativo nem passivo: eu nasço ou sou nascido?” Versos de algumas canções populares – como “Não sou eu quem me navega/Quem me navega é o mar”, de Paulinho da Viola – reproduzem aquilo que o latim expressa por verbos depoentes, lembra Lauand. “Com a perda da voz média, o português perdeu não apenas um recurso de linguagem, mas sobretudo um poderoso recurso de pensamento, de captação e expressão de imensas regiões da realidade.”