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Vírus zika gera debate sobre ciência e saúde

Publicado por mabi.barros.s@gmail.com - Wednesday, 17 February 2016

ESPER GEORGES KALLÁS

Não vou aborrecer o leitor explicando as coisas básicas do vírus. Vou fazer uma reflexão sobre o impacto da epidemia e muitas dúvidas que restam. O momento é único. Trocamos os debates sobre a crise política e econômica por discussões de doenças infecciosas, virologia, entomologia, epidemiologia, defeitos congênitos, pesquisa e desenvolvimento. Apesar de toda a tragédia, é uma oportunidade de discutir com a sociedade a importância do debate científico e a saúde pública.

Mas vamos aos fatos. Aprendemos bastante com a epidemia na Micronésia. Em um elegante artigo publicado há seis anos, pesquisadores mostraram que 73% da população de maiores de 3 anos de idade que vive em um pequeno arquipélago no Pacífico pegou o vírus zika em um período de quatro meses. Sim, quase 3/4 dessa população foram infectados em quatro meses. Olhem agora para a epidemia atual. Após a entrada no Brasil (a maioria dos especialistas acredita que tenha ocorrido no segundo semestre de 2014), o vírus já está circulando em praticamente toda a América subtropical e tropical, percorrendo grandes extensões territoriais até o México. Temos que admitir a extraordinária capacidade de transmissão do vírus zika, o que levanta a suspeita de privilégios no mosquito transmissor. Embora o vírus seja também encontrado na saliva, na urina e no sêmen, não sabemos, ainda, se outras formas de transmissão são possíveis além da picada do mosquito, sanguínea e sexual.

Outro aspecto é a característica explosiva da epidemia. Tudo leva a crer que os casos de zika acontecem em um período relativamente curto, quando o vírus é maciçamente transmitido. O fato de que só uma minoria tenha apresentado sintomas sugere que o número de infecções que ocorreram no Nordeste brasileiro no primeiro semestre de 2015 tenha se concentrado em poucos meses. É como uma onda rápida no relógio epidemiológico.

Isso mostra a necessidade de sabermos para onde essa onda está indo. Só assim poderemos ajudar as mulheres em fase reprodutiva a decidirem o que fazer. A epidemia de microcefalia é a revelação de uma fotografia tirada meses antes, quando a onda epidêmica passou. Para prevenirmos os problemas congênitos, é de muito mais valia monitorarmos onde o vírus está sendo transmitido.

A associação entre o vírus zika e a microcefalia é cada vez mais forte. Será confirmada com estudos no formato de caso-controle ou um modelo experimental que certifique que o vírus causa alterações congênitas. Isso ocorrerá em breve. Vários grupos em todo o mundo estão realizando os experimentos (já perdi a conta de quantos pesquisadores conheço que estão perseguindo essa pergunta). O debate recai sobre o que fazer com as mulheres que estão grávidas ou querem engravidar.

Há uma forte polêmica sobre o que dizer a elas. Devemos aconselhar a evitar a gravidez? Vamos dar um passo atrás na discussão. O Brasil tem condições e está aparelhado para promover o planejamento familiar? Temos distribuição de métodos contraceptivos em larga escala? Todas as mulheres brasileiras têm poder para tomar essa decisão? O Brasil tem uma discussão ampla sobre contracepção? Anunciar que elas devam evitar a gravidez é uma medida de impacto duvidoso se não há uma política pública eficaz para planejamento familiar. Vejo aqui uma oportunidade única para revisitar o assunto, de forma responsável e contundente.

Outra polêmica diz respeito à política hipócrita de interrupção da gravidez vigente no Brasil. Estamos agora levando puxão de orelha até da Organização Mundial da Saúde (OMS). A interferência de correntes de pensamento dogmático e moral não somente atua contra a interrupção. Pior, impede até mesmo o seu debate. E, se essa discussão nos parecia indispensável em épocas de calmaria, torna-se absolutamente imprescindível neste momento. O vírus zika pode ter trazido, junto com tantas outras questões, uma oportunidade sem precedentes de instalar o debate, de forma realista.

A epidemia de microcefalia revela outra mazela brasileira: a assistência às pacientes que apresentam necessidades especiais e às suas famílias. Temos um sistema limitado de identificação e notificação de casos. A imprecisão dos dados traz muita preocupação. No último boletim do Ministério da Saúde sobre os casos de microcefalia associados ao vírus zika, publicado em 2 de fevereiro, 404 foram confirmados, 709 descartados e… 3.670 suspeitos. Não é questão de exigir que estejamos preparados para enfrentar qualquer epidemia desconhecida. Mas ter 154 casos de microcefalia notificados em 2014 versus cerca de 20.000 casos notificados nos Estados Unidos todos os anos expõe uma fragilidade.

Uma pesquisa forte é peça importante no enfrentamento de epidemias. Basta olhar para a gripe H1N1. Em 2009, a circulação do vírus epidêmico foi identificada em duas pessoas em San Diego no dia 15 de março daquele ano, em dois projetos de pesquisa independentes, um estudo- sentinela para gripe e outro realizado por uma instituição acadêmica. Duas semanas depois, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos notificou a Organização Mundial da Saúde sobre a circulação de uma nova cepa de gripe, mais tarde conhecida popularmente (e erroneamente) como gripe suína. Esse mesmo vírus vinha causando mortes no México meses antes de entrar pelo sul dos Estados Unidos. Em setembro do mesmo ano, a vacina estava disponível. No Brasil, a identificação da circulação do vírus zika só foi possível graças a um estudo de campo de colegas da Fiocruz. Em trabalho realizado pelo brilhante pesquisador Guilherme Ribeiro, foi descrita a circulação do vírus em uma comunidade de Salvador, onde havia investimento em pesquisa. Rogo que esses exemplos fiquem vivos na memória da sociedade e dos nossos representantes no Legislativo, Executivo e Judiciário, especialmente na hora de escrever e executar as leis para fomento da pesquisa, desenvolvimento científico e inovação.

A história da humanidade foi escrita com as canetas das condições climáticas, de desastres naturais, guerras e epidemias. Após o mérito de conseguir identificar a associação entre o vírus zika e novos agravos de saúde (defeitos congênitos e a síndrome de Guillain-Barré), temos que reconhecer que é papel do Brasil, país de dimensão continental e com enorme diversidade, identificar a circulação de agentes infecciosos emergentes e reemergentes. Enfrentar uma nova epidemia não é nosso calvário. É a missão de um país com nossas características e que almeja ser desenvolvido.

Esper Georges Kallás é professor associado de Imunologia Clínica e Alergia da Faculdade de Medicina da USP