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O novo “lá lá lá…”

Publicado por admin - Sunday, 13 September 2009

Lançamento
Luiza Furquim

O compositor Eduardo Seincman lança nesta semana o CD Histórias Fantásticas, um trabalho de música erudita contemporânea que resgata e atualiza os escritores Borges, Machado, Guimarães e Poe
Ilustrações de Evandro Carlos Jardim para o livro-CD Sonata do Absoluto

Ilustrações de Evandro Carlos Jardim para o livro-CD Sonata do Absoluto

O circuito paulistano de música erudita vai sair do clássico com o lançamento do CD Histórias Fantásticas. A execução da obra – cujo concerto inaugural acontece nesta quarta, às 19h30 – vai além da música e, mais importante, além de uma apresentação pontual. As músicas e partituras já estão on-line para download de quaisquer pessoas e para quaisquer finalidades, de um vídeo caseiro a um novo concerto. O álbum é composto por quatro obras de inspiração literária, escritas por Eduardo Seincman, professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.
O Andante interior, pantomima para piano, clarinete e violoncelo foi escrito a partir de O Milagre Secreto, de Jorge Luis Borges. O Adágio misterioso, solilóquio para piano, viola e violoncelo, sobre O Corvo, de Edgar Allan Poe. O Scherzo inquietante, farsa para piano, clarineta e viola inspira-se em Trio em Lá Menor, de Machado de Assis. E há ainda um Quarteto para piano, clarinete, viola e violoncelo que parte de O Espelho, de Guimarães Rosa. Os músicos, presentes ora aqui, ora ali, mas propositalmente juntos na obra final, são Nahim Marun (piano), Luis Afonso Montanha (clarinete), Marcelo Jaffé (viola) e Robert Suetholz (violoncelo). No lançamento, contos e poema serão narrados pela atriz Ana Luísa Lacombe.

Marcelo Jaffé, Seincman, Nahim Marun, Robert Suetholz e Luis Montanha

Marcelo Jaffé, Seincman, Nahim Marun, Robert Suetholz e Luis Montanha

Uma história fantástica – “Cronos foi, é e sempre será ardiloso”, diz Seincman. O Andante foi escrito em 1984; o Adágio, em 1990; o Scherzo, em 2003. Todos eles estavam engavetados. “Ninguém quis tocar. Ótimo!”, lembra o compositor, para quem “a razão está com o tempo e o tempo nada tem a ver com a pressa”. Foi só em 2007 que, desengavetadas e desempoeiradas as partituras, Seincman teve um vislumbre: as três obras formavam um tríptico, tanto pela instrumentação como pela relação com a literatura. Surge então o livro-CD Sonata do Absoluto (Imprensa Oficial/Edusp, 2007), ilustrado por Evandro Carlos Jardim. As obras tiveram de ser reescritas, em especial a primeira, porque seu estilo já havia mudado. “Comecei como um compositor de vanguarda, aquela vanguarda mais chata que quer negar tudo, inclusive a própria história”, brinca. Detalhes interessantes: a tradução de O Corvo é assinada por Fernando Pessoa e a versão de Trio em Lá Menor é a mais antiga que se pode encontrar na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.
Mas a história não termina por aí. Seincman precisava de uma peça que unisse os quatro instrumentos: piano, clarinete, viola e violoncelo. Antes de terminar o ano de 2007, ele começa a compor o Quarteto, que chama de quarteto-espelho, pois que espelha sutilmente eventos musicais, ou temas, dos trios anteriores. “Essas peças são a minha trajetória, mas, de certo modo, refletem as estéticas dos próprios contos”, explica. Borges é modernista, daí sua composição mais rígida, esteticamente desagradável. Poe é romântico, pura lírica, o que inspira temas taciturnos e melodiosos. Machado é dramático, metafísico, além de propor o desafio de resgatar a ironia em música. Tudo isso é comportado perfeitamente no Quarteto, que é uma composição fragmentária, “quase estilhaçada”, em consequência de uma linguagem cinematográfica que suporta fragmentos de ideias, no caso, temas musicais.

Um aquário de sinapses – Tudo é relação. Relação é ambiguidade. E “a música é ambiguidade organizada como sistema” (palavras do personagem Adrian Leverkühn em Doutor Fausto, de Thomas Mann). À parte todos os questionamentos filosóficos que a afirmação provoca, é isso o que faz Seincman em Histórias Fantásticas. Um acorde pode ser o começo de um tema e o término de outro. No Trio em Lá Menor, por exemplo, “tive que costurar tão bem [a escrita] que quem estivesse ouvindo achasse que é natural”, conta o compositor. A música junta Reverie, de Schumann, a uma modinha carioca; além de citar Casta Diva, um tema muito conhecido de Norma, uma ópera de Bellini; Papageno/Papagena, tema de A Flauta Mágica, de Mozart; e um Beethoven deturpado, que remete ao modo desafinado de tocar da protagonista do conto de Machado, Maria Regina.
Uma obra desse porte só poderia ser composta por um homem capaz de citar Victor Hugo, Rousseau, Villa-Lobos, Thomas Mann, Baudelaire, Verdi, Sartre, Scriabin e Platão em menos de uma hora. A música não é meramente ilustrativa, mas faz um contraponto à literatura. A ideia é que uma pessoa possa “chegar à música” através do texto e vice-versa. “Você precisa conversar com as outras linguagens”, diz Seincman, ou sua música será abstrata e autorreferente. “A minha opção foi pensar a música num aquário onde eu possa fazer sinapses com outras linguagens”. Sem esse diálogo, não há comunicação. “Não existe arte sem comunicação nem comunicação sem arte.”

CD Sonata do Absoluto

CD Sonata do Absoluto

Para ele, a musicalidade do texto vem do gosto e entendimento musical dos escritores. “Machado não saía da ópera!” E se contos podem ser feitos a partir da música, Histórias Fantásticas é o caminho inverso. Ao mesmo tempo, explica, ao citar número tão grande de compositores, o álbum promove o retorno dos clássicos em uma leitura contemporânea. Nesse sentido, Seincman não poderia ser mais diferente da idealista Maria Regina, que, a verdade pede que se diga, “pensava amorosamente em dous homens ao mesmo tempo”. No conto Trio em Lá Menor, ela toca sempre a mesma sonata ao piano, tal qual uma musicista fracassada, e sonha com um terceiro homem que seria o melhor de cada um daqueles que a cercam. A história, que aparentemente fica no banal e no cotidiano, eleva-se ao metafísico quando Machado faz uma voz surgir do abismo e prenunciar que “a tua pena é oscilar por toda a eternidade entre dois astros incompletos, ao som desta velha sonata do absoluto: lá lá lá…”.

O CD Histórias Fantásticas será lançado nesta quarta, com coquetel e espetáculo a partir das 19h30, na Livraria Cultura do Shopping Villa-Lobos (av. Nações Unidas, 4.777, tel. 3024-3599). Mais da metade dos exemplares serão distribuídos gratuitamente a instituições culturais e de ensino, profissionais de áreas afins, equipes artísticas e formadores de opinião. É preciso fazer o pedido através do site www.historiasfantasticas.mus.br, onde estão mais informações. O CD também está à venda por R$ 25,00 no site www.lojaclassicos.com.br.