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Carmina Burana com todo encanto e magia

Publicado por admin - Monday, 21 September 2009

CONCERTO

Sob a regência de Carmen-Helena Téllez, professora da Universidade de Indiana, os corais, os músicos e a Orquestra de Câmara do Departamento de Música da ECA apresentaram uma das cantatas cênicas mais famosas do mundo

Apresentar Carmina Burana  de Carl Orff  com toda a força e magia  foi o desafio que a maestrina  Carmen-Helena Téllez travou em apenas 18 dias de ensaios. Mas quando os corais, os músicos e a Orquestra de Câmara do Departamento de Música da ECA subiram ao palco do Teatro Santa Cruz – o espetáculo foi realizado nos últimos dias 2 e 3 –, o público ficou surpreso. Diferente de outras apresentações já realizadas, esta cantata cênica ganhou uma nova dimensão exibindo um telão com imagens do nazismo e painéis que sugeriam o destino nas cartas de tarô. Também os poemas cantados originalmente em latim e alemão tiveram tradução simultânea projetada em outra tela.
“Este evento pode ser definido como uma apresentação alegórica ilustrada de uma composição popular e misteriosa”, observa Carmen. “Carmina Burana é a obra mais conhecida do controverso compositor alemão Carl Orff. Sua famosa abertura ‘O Fortuna’ é muito utilizada em filmes e comerciais. Todos os dias, em diversos lugares do planeta, há alguém tocando ou cantando esta música.”

Ó Fortuna velut luna
statu variabilis, semper crescis
aut decrescis vita detestabilis,
nunc obdurat et tunc curat;
ludo mentis aciem,
egestatem,
potestatem
dissolvit ut glaciem.

Traduzindo:

Ó Fortuna és como a Lua
mutável sempre aumentas
e diminuis;
a detestável vida
ora escurece
e ora clareia
por brincadeira a mente;
miséria,
poder, ela os funde como gelo.

Manuscrito medieval – Os textos que originaram Carmina Burana foram retirados de um manuscrito medieval de mesmo nome, encontrado na Abadia de Benediktbeuern, na Bavária. “É uma coleção de canções e poemas escritos entre os séculos 11 e 12 em latim, alemão, francês e outras línguas por goliardos universitários itinerantes da época”, explica a regente. “Hoje, a Carmina Burana medieval alcançou o nível de símbolo da unidade europeia por representar um tempo em que acadêmicos facilmente viajavam de região para região, todos falando latim, mas ao mesmo tempo preservando e disseminando a cultura vernácula.”
Carmen-Téllez é professora e diretora do Centro de Música Latino-Americano da Universidade de Indiana em Bloomington, EUA. “Há 1.600 alunos estudando música e a música brasileira desperta um interesse muito grande. Daí a importância das relações estabelecidas com a USP, que vêm desde 1995.” Carmen trouxe para o espetáculo três dos seus alunos de pós-graduação: a soprano Abigail Mitchell, o contratenor Dan Bubeck e o barítono Howard Swers. “Os corais já estavam se preparando para a apresentação. Logo nos primeiros ensaios percebi o talento dos jovens da USP.”
Sob a direção cênica de Roberto Borges – que já participou da montagem de grandes espetáculos como Madame Butterfly, West Side Story e My Fair Lady no Teatro Municipal e Teatro Alfa em São Paulo – Carmina Burana ganhou uma versão contemporânea. “Esta é a primeira vez que atuo como diretor cênico e fiquei muito satisfeito, porque do jeito que a apresentamos ela teve uma dimensão interdisciplinar aliando a música à dança, artes cênicas e visuais”, afirma. Borges é ator e cantor formado em Paris pela Académie Internationale de Comédie Musicale, em 2008. Sua meta foi integrar a plateia no espetáculo. Daí, os cantores-atores se espalharem pelo teatro distribuindo folhetos e lembrando a proposta do movimento de resistência antinazista “Rosa Branca”, integrado por universitários alemães. “Quando o espectador chega para ver um espetáculo, ele está aberto. Daí a importância de oferecer algo que seja multi, que tenha um pouco de tudo e que ele possa também participar.”
Carmen-Téllez  explica que a produção não representa a vida de Carl Orff (Munique 1895-1982), que descendia de uma família ativa na vida militar alemã. “Nós procuramos apresentar suas experiências como uma referência. O espetáculo medita sobre o terrível destino de artistas vivendo em um regime fascista. A crueldade desse destino, para o artista, pode ser não apenas o exílio, o ostracismo ou pior, mas também o fato de que uma necessidade de aquiescência pode destruir a sua alma.”
Segundo a regente, Carl Orff considerava-se um herdeiro dos mitos da humanidade e das mensagens arquetípicas da tragédia grega. “Ele fez versões de Édipo e Antígona. Na verdade, entre todos os símbolos presentes em seu trabalho, a lua é a que aparece com mais freqüência. Em Carmina Burana a lua representa o feminino, o inconsciente e a relação com as massas e a decepção.”
A direção geral do espetáculo coube ao professor de Regência Coral da USP, Marco Antonio da Silva Ramos, que vem se apresentando como regente de importantes coros como o International Vocal Ensemble, Coral do Conservatório Nacional de Lisboa e Coro Infantil da Orquestra Filarmônica de Las Palmas entre outros. “Este espetáculo foi uma excelente oportunidade de cooperação entre as diferentes áreas: o Coral da ECA, o Comunicâmara, o Stúdio Coral-Vozes Femininas, os professores e pianistas Heloísa e Amilcar Zani, o Percussivo-USP, grupo de estudantes de graduação, além da preparação anterior aos concertos com a atuação dos professores Susana Igayara e Ricardo Bologna”, destaca Ramos.