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As surras globais e a apologia da violência

Publicado por admin - Monday, 28 September 2009

SOCIEDADE
FERNANDO LEFEVRE

No artigo a seguir, professor da Faculdade de Saúde Pública analisa os preconceitos e a ética imoral veiculados em Caminho das Índias, o mais recente sucesso da televisão

No final de mais uma novela das oito, na primeira semana de setembro, pudemos presenciar o espetáculo da segunda surra aplicada à vilã Ivone, a primeira aplicada pela dondoca pseudo-histérica Melissa Cadore e a segunda, pela crédula e correta Sílvia.
Afinal das contas, não é, ela merece! Trata-se de uma psicopata total, completamente sem escrúpulos, em regime de dedicação integral à maldade, da qual nem a pobre mãe velhinha escapa.
Merece! Merece?
Se respondermos sim, chegaremos facilmente à conclusão de que os maus merecem ser castigados fisicamente, isto é, linchados, chutados, chicoteados, apedrejados em público.
E “em público” em dois sentidos do termo: no primeiro, mais evidente, na medida em que hoje, nos tempos da pós-modernidade, não existe nada mais público que a televisão.
De fato, a ética totalmente imoral da nossa televisão (e das alheias também, talvez apenas em menor escala) é regida pela máxima de que, como máquina icônica, ela nada mais faz do que retratar – pouco importa se no noticiário ou na ficção, já que tanto um quanto a outra são diferentes formas de ficção – “a vida como ela é”, o que conduz sutilmente à reprodução dos piores aspectos do ser humano, na medida em que escamoteia o desígnio perverso de  reapresentar, no plano simbólico, o mundo de tal forma que ele  continue eternamente sendo o que  é.
Assim sendo, a televisão é eminentemente pública porque é, hoje, a grande forma que o mundo se dá a ver e a  reproduzir.
Mas Ivone está também sendo chicoteada em público porque tal castigo ainda aparece hoje, para a grande maioria dos mortais (ainda que boa parte deles não confesse em público), moralmente justificado com base na velha lei do “olho por olho, dente por dente”, princípio moral real que permanece desafiando todos os códigos republicanos, leis iluministas e estatutos de direitos humanos.
Ora, se chutar, linchar, apedrejar o “malvado” é moralmente justificável, por que esconder tal castigo?
E, é claro, o linchamento é público também porque é “educativo” (e vice-versa): Ivone merece apanhar porque, assim, ela e quem quiser imitá-la aprendem que o mal não pode ficar impune.
Um detalhe do “caso Ivone” levanta mais um aspecto interessante: trata-se de uma psicopata e “de livro”, na medida em que, na novela, didaticamente, o psiquiatra aparece várias vezes, após uma cena de psicopatologia, explicando a seu aluno (e a nós todos) as diversas facetas dessa patologia, ilustrada pela cena anterior.

Cenas da novela Caminho das Índias, em que Ivone (Letícia Sabatella) leva uma surra de Melissa (Christiane Torloni): um doente compulsivo merece apanhar?

Cenas da novela Caminho das Índias, em que Ivone (Letícia Sabatella) leva uma surra de Melissa (Christiane Torloni): um doente compulsivo merece apanhar?

Ora – sem entrar na velha questão jurídica e moral de saber se o doente pode ou não ser formalmente condenado por seus atos doentios –, trata-se de um doente ou, no mínimo, de um ser humano movido por uma compulsão que não consegue controlar, que o faz praticar atos moralmente condenáveis.
Ora, ninguém merece apanhar, muito menos um doente compulsivo.
A violência é uma disposição latente em todos nós, seres sociais e entidades psíquicas, e todo esforço merece ser feito para que aprendamos, como agentes sociais e pessoas, a entender suas causas e raízes, a reprimi-la e sublimá-la (seja num concerto de rock “pauleira” e mesmo, por que não, no baile funk).
Com a novela Caminho das Índias, da Globo, o esforço louvável de desconstruir, para o bem, um lado do psiquismo humano, a esquizofrenia, visto generalizadamente de modo preconceituoso, acaba anulado ou, no mínimo, perdendo muito de seu brilho na medida em que passa a coexistir com uma visão preconceituosa, atrasada, de outro lado do nosso psiquismo, a psicopatologia.
Pergunta-se: o esquizofrênico merece toda nossa solidariedade e o psicopata, todo nosso ódio?
Olhando as coisas de um modo cínico, podemos dizer que a televisão educa e deseduca, mobiliza a solidariedade e o ódio, porque ambas as coisas chamam audiência, excitam patrocinadores, movem mercados e bolsas de valores e geram empregos.
É verdade, mas é medíocre. Nós podemos ser melhores do que isso. O mercado não é tudo nem muito menos o centro de nossas vidas humanas.

Fernando Lefevre é professor da Faculdade de Saúde Pública da USP