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Debate expõe ideias para aumentar interação com a sociedade

Publicado por admin - Monday, 19 October 2009

ELEIÇÕES

Extensão, fontes de financiamento extraorçamentárias e relação com movimentos sociais foram temas abordados em encontro promovido pelo Instituto de Estudos Avançados

No debate promovido pelo IEA no dia 8, os candidatos falaram sobre as relações da USP com a sociedade, as fontes de financiamento extraorçamentárias para a Universidade e extensão. A mediação ficou a cargo de Renato Janine Ribeiro, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Ao final do encontro, Janine agradeceu aos professores pelo esforço de participar de uma longa e extenuante jornada de debates. “As ideias na Universidade não têm dono. Uma vez lançadas, ganham vida própria, pertencem à comunidade”, disse Janine. “Que elas ajudem a desatar uma série de nós que não podem continuar nos emperrando.”

Armando Corbani Ferraz
Já temos grupos, como o Núcleo de Estudos da Violência e o Laboratório de Estudos sobre a Intolerância, que fazem essa interação com a sociedade. A necessidade é fazer muito mais. Podemos auxiliar na resolução dos problemas e ao mesmo tempo receber as demandas para auxiliar os grupos sociais. Esse processo deve ter participação muito grande dos estudantes, ajudando-os a ter uma formação mais cidadã. As pesquisas de ponta na fronteira do conhecimento são mais onerosas, e precisamos ter um novo marco regulatório para obter recursos para sua ampliação. As atividades de extensão devem ser consideradas como importante instrumento de identificação de problemas e tomada de consciência da realidade social pela comunidade universitária.

Francisco Miraglia
As relações com os movimentos sociais devem ser intensificadas a partir das unidades. A captação dessa relação tem que ser de base. A interação das unidades no seu campo específico, incentivada pela direção geral da Universidade, vai captar as demandas e transformá-las em projetos de ensino, pesquisa e extensão. Não podemos fazer de conta que não temos problema com o ICMS. Arcamos com os hospitais universitários, sem ressarcimento da Secretaria da Saúde ou do SUS, e 24% dos nossos recursos ainda vão para pagamento de aposentados. O gasto público com educação neste país é ínfimo, uma vergonha. A contribuição de São Paulo para o PIB nacional é muito significativa. O governo federal deve contribuir mais para a educação superior pública em São Paulo. A União tem obrigações em São Paulo e o retorno não é correspondente à contribuição que o Estado faz. A extensão deve ser uma política institucional visando a estimular e organizar grupos multidisciplinares para estudar a formulação de políticas públicas em diversas áreas, tendo destinação orçamentária anual específica para essa finalidade.

Glaucius Oliva
Inovação não é só em tecnologia. A inovação social está no topo da agenda. Temos o compromisso, como Universidade, de interagir com a sociedade, especialmente com seus grupos organizados. Para institucionalizar essa integração, devemos criar um centro multidisciplinar de apoio de políticas de Estado, recebendo demandas dos governos, das ONGs e dos movimentos sociais, e buscar comissões para formatar sugestões de ação em relação a essas questões a partir do conhecimento da Universidade. O componente público é a principal fonte de recursos, mas é essencial diversificar os recursos extraorçamentários. Temos os Fundos Setoriais, as empresas, as doações. As doações de ex-alunos são um instrumento muito pouco utilizado no País. Temos uma excelente biblioteca sendo construída a partir de uma doação, mas estamos perdendo oportunidades de apoio porque não temos instrumental jurídico para isso. A sociedade precisa resgatar a confiança na sua universidade maior como grande fonte de transformação deste país.

João Grandino Rodas
A Universidade não pode ignorar os variados setores sociais e suas diferentes finalidades. Temos que lhes dar guarida, sem ser assistencialistas. É importante que nossos alunos tomem contato com essas entidades. Não temos receio de dizer que a Universidade precisa de financiamento extraestatal, seja de instituições internacionais ou empresariais. É preciso que o reitor busque de forma sistemática e contínua fundos para melhorar a estrutura da USP: prédios, laboratórios, bibliotecas, rede computacional. Vamos definir regras para as Parcerias Público-Privadas na USP e a partir dessas regras as unidades poderão buscar as parcerias. Não vemos os museus apenas como adendos da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão, mas como unidades plenas com ensino e pesquisa e autonomia para se desenvolver. O projeto de digitalização da Biblioteca Mindlin deve ser estendido a outros acervos para que a USP se transforme no principal centro de digitalização do Brasil, permitindo um acesso que pode contribuir para aumentar o nível cultural da população.

Candidatos no IEA: sociedade em foco

Candidatos no IEA: sociedade em foco

Ruy Alberto Altafim
A relação com os movimentos acontece intensamente em nossa universidade. Temos 745 projetos só no Aprender com Cultura e Extensão. A Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares já está aqui há dez anos. Uma universidade de classe mundial é cara. Devemos buscar todos os recursos extraorçamentários possíveis. Há os Fundos Setoriais, aos quais podemos recorrer. Mas devemos demandar nossas próprias necessidades. Toda atividade envolvendo a sociedade, indissociável de ensino e pesquisa, é extensão. Precisamos clarificar e anunciar o que é exatamente extensão universitária. Muitos confundem extensionismo com assistencialismo. Nossos museus são exemplos que estão sendo copiados. Têm ensino e pesquisa de altíssima qualidade, e hoje clamam por maior representatividade.

Silvio Sawaya
A relação com o setor produtivo para obtenção de recursos extraorçamentários deve ser incentivada, com autonomia e isenção, sem que a Universidade se filie aos vezos do mercado. A Universidade tem o dever de se relacionar com a sociedade, especialmente com os movimentos organizados. É o papel da cultura, entendida como coisa orgânica, viva. A Universidade é de alguma forma repositório da cultura, tem que se abrir à sociedade e vice-versa. Temos que entrar no debate social levando nosso conhecimento e também ouvindo. É preciso explicar à sociedade por que a Universidade gasta tanto dinheiro e qual a contribuição que ela tem dado. Se os governos estadual e federal estão se fechando e indo por outros caminhos, é porque nós não apontamos possibilidades para que caminhassem conosco. O ICMS não é garantido, não está na Constituição do Estado. Precisamos entender os recados que o governo tem dado a respeito desses recursos.

Sonia Penin
A missão da universidade, desde o século 12 pelo menos, é olhar para toda a sociedade. Precisamos nos relacionar com os grupos sociais, os governos e com os poderes distribuídos em toda a sociedade, mas é preciso também ter uma discussão intelectual de políticas públicas. Os gastos públicos com educação são de apenas 4,5% do PIB. É muito pouco. Para que a educação saia do momento em que está, é preciso haver um ensino superior que faça a diferença no desenvolvimento do País. Não pode existir excelência na Universidade se o País ao redor é injusto e desigual. A Universidade deve formar profissionais comprometidos com um país melhor para chegarmos a uma sociedade menos injusta. Distribuir também é extensão. Nas universidades americanas, 40% dos recursos vêm do orçamento. Os reitores têm que buscar o restante. A USP pode adotar modelos semelhantes para captar recursos.

Wanderley Messias da Costa
As interações multidimensionais com a sociedade devem ser objeto de esforço para uma posição institucional da Universidade no debate de alguns grandes temas. Há cerca de vinte anos o então reitor José Goldemberg promoveu uma série de debates sobre pacto, um tema importantíssimo na ocasião. A Universidade entregou ao presidente da República o relatório dessa discussão. Mais recentemente fizemos um congresso sobre transgênicos e o ex-reitor Adolpho Melfi entregou a contribuição da USP ao presidente do Senado na semana da votação da Lei de Biossegurança. As boas empresas sabem que inovação é importante para a competição no cenário da globalização e estão fazendo seus próprios centros de pesquisa. Isso é ruim, porque estamos à margem. Sou contra ter museus presos no campus. Todo o acervo que pode ser exposto deve ser colocado para usufruto da população e dos milhares de turistas de alto padrão econômico e cultural que visitam São Paulo. A USP também deve liderar um grande projeto para estudar a metrópole do ponto de vista da pobreza e ajudar a propor soluções.