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Goethe, que amava tanto o Brasil

Publicado por admin - Monday, 19 October 2009

EVENTO

Fundada em março deste ano, a Associação Goethe do Brasil – que reúne interessados na obra do poeta, cientista e filósofo alemão – realiza seu 1º Congresso Internacional nos dias 4 a 6 de novembro

Para incentivar a pesquisa da obra de Johann Wolfgang von Goethe e estudar os vínculos da literatura brasileira com o poeta alemão, bem como a atualidade de sua obra, cerca de 13 professores fundaram em março deste ano a Associação Goethe do Brasil. Entre os dias 4 e 6 de novembro, eles promoverão o 1º Congresso Internacional da associação, com palestras a serem realizadas no Instituto Goethe de São Paulo e na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP (leia ao lado a programação completa do evento).
A associação está ligada à Goethe Gesellschaft de Weimar e possui membros do Brasil e do exterior, incluindo professores da Alemanha. “Há diversas associações importantes que estudam Goethe no mundo todo. Faltava uma no Brasil, e isso era lamentável, porque Goethe se interessava imensamente pelo País”, afirma o professor Marcus Vinicius Mazzari, presidente da Associação Goethe do Brasil e docente do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da FFLCH.

Amor pelo Brasil – Goethe tinha conhecimentos sobre o Brasil e um grande afeto pelo País, que são tema de livros alemães contemporâneos. Ele teve um contato inicial com o Brasil na juventude, quando conheceu canções de indígenas brasileiros por meio do ensaio “Dos canibais”, do filósofo francês Michel de Montaigne. Dessa leitura resultaram dois poemas com o subtítulo “Brasilianisch”.
Nos seus anos finais, o poeta cultivou uma amizade estreita com um grande conhecedor do Brasil na época, o jovem botânico alemão Carl Friedrich Philipp von Martius. Durante quase quatro anos, de 1817 a meados de 1820, o “brasileiro Martius”, como Goethe gostava de dizer, percorreu 11 mil quilômetros do território brasileiro fazendo pesquisas.
O poeta, porém, não viajava. O professor Mazzari conta que ele não suportava cidades com mais de 7 mil habitantes e que recusava convites até mesmo para Berlim. Goethe nasceu em Frankfurt e viveu em Weimar. “Mas ele lia muito sobre o Brasil, e se sentia em casa numa parte do mundo tão distante”, disse. “Ele chegou a conhecer alguns brasileiros e manteve contato com quase todos os cientistas, zoólogos e botânicos que acompanharam a princesa austríaca Leopoldina quando ela veio se casar com d. Pedro I no Brasil. Goethe acompanhava apaixonadamente as pesquisas que eles faziam aqui.”
Sua biblioteca continha 17 títulos relacionados ao País e há um registro extenso de obras similares que ele pegou emprestado da biblioteca de Weimar. Esse interesse pela natureza brasileira continuou até o fim de sua vida. Pouco antes de morrer, ainda retirou mais uma vez da biblioteca pública o Atlas que descrevia as viagens de Martius pelo Brasil.
Um símbolo da relação de Goethe com o Brasil é a homenagem feita a ele por Martius e o botânico Nees von Esenbeck, que deram seu nome a um gênero de planta do País, a goethea. O fato o comoveu profundamente.

Gênio universal – A Goethe Gesellschaft de Weimar foi criada em 1885 para administrar o enorme espólio de Goethe, que, por ocasião da morte do seu neto e último descendente, havia sido doado para o Estado. Segundo o professor Mazzari, as suas obras completas somam cerca de 160 volumes.
Tal obra tão ampla contempla os mais variados temas. “Goethe acompanhava todos os assuntos, era um gênio universal”, disse o professor. “Ele tem estudos importantes em diversas áreas da ciência.” No Instituto de Biociências da USP estuda-se Goethe como botânico, por exemplo. Ele também falou da teoria das cores, dialogando com Isaac Newton, estudou meteorologia e química e foi citado por Darwin em A origem das espécies como um precursor. Também foi citado por Nietzsche, Schopenhauer e Karl Marx, entre muitos outros.
Mas o que o destaca ainda mais, para o professor Mazzari, é a sua modernidade. “Em sua obra, ele antecipou o mundo que vivemos hoje. No Fausto II, em cujo último ato se desdobra a chamada ‘tragédia da colonização’, e em vários capítulos do romance Os anos de peregrinação de Wilhelm Meister, o poeta configurou com lucidez o advento de um mundo para o qual criou o expressivo neologismo ‘velocífero’, mesclando ‘velocidade’ com Lúcifer.” Goethe previu o mundo da velocidade demoníaca. Ali ele também tematiza a destruição da natureza pelo homem para criar o mundo moderno.

O Congresso – O tema do primeiro congresso promovido pela associação brasileira, “Afinidades Eletivas”, tem relação com outra área da ciência que o poeta conhecia bem: a química. Segundo o princípio de afinidade eletiva, dois elementos agregados podem se separar para se unir a dois outros elementos. Goethe projetou esse conceito nas relações amorosas e no adultério em seu romance Afinidades eletivas. Segundo o professor, esse é um campo que a crítica literária brasileira ainda não analisou profundamente. Ele conta que será lançado no congresso um ensaio do crítico alemão Walter Benjamin sobre isso.
No evento, o conceito de afinidades eletivas não será abordado apenas do ponto de vista amoroso, mas será expandido para que se discutam relações no campo intelectual e científico. Mazzari falará, por exemplo, sobre a afinidade entre Goethe e Martius. Outros professores falarão da relação entre Goethe e Max Weber, sociólogo leitor do poeta, e sobre a sua relação com a música. “Acredito que a Associação Goethe do Brasil e o congresso trarão uma contribuição extraordinária para as pessoas que estudam tanto a obra de Goethe como os temas relacionados direta ou indiretamente à sua obra”, diz o professor.
O 1º Congresso Internacional da Associação Goethe no Brasil será realizado entre os dias 4, 5 e 6 de novembro de 2009, no Instituto Goethe de São Paulo (Rua Lisboa, 974, em Pinheiros, São Paulo) e na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Contatos com a Associação Goethe do Brasil podem ser feitos pelo e-mail goethebrasil@uol.com.br.
ANA CAROLINA PRADO

O pensador, poeta e cientista

Esta é a programação completa do 1º Congresso Internacional da Associação Goethe do Brasil.

Dia 4 de novembro, no Instituto Goethe de São Paulo
10 horas. Abertura: Wolfgang Bader (diretor do Instituto Goethe de São Paulo), Carola Bruhn (adida cultural  do Consulado Alemão em São  Paulo), Sandra Nitrini (diretora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP), Marcus Mazzari (presidente da Associação Goethe do Brasil) e Jochen Golz (presidente da Goethe Gesellschaft, de Weimar).
11h15. Seção 1, “Afinidades eletivas: o romance de Goethe I”: “Goethes Roman Die Wahlverwandtschaften im Kontext des Sonettzyklus von 1807 und der Pandora – Dichtung”, com Jochen Golz  (Goethe Gesellschaft, de Weimar), e “A representação da natureza no romance As afinidades eletivas”, com Mônica Krauz Bornebusch (Munique).
14h30. Seção 2, “Novas afinidades eletivas I”: “Max Weber, Goethe und die moderne Persönlichkeit”, com Rainer Schmidt (titular da Cátedra von Martius da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP), e  “’Wo Tätigkeit thronet und Müßiggang weicht’ – A flauta mágica e a Novelle, de Goethe”, com Klaus Eggensperger (Universidade Federal do Paraná).
16h15. Seção 3, “Afinidades eletivas: o romance de Goethe II”: “Da renúncia: as afinidades eletivas de Goethe”, com Marco Fontanella (pós-doutorando da Unesp), e “‘Suas obras deixam-no como os pássaros o ninho em que foram chocados’: sobre arte, abdicação e morte nas Afinidades eletivas”, com Markus Lasch (Universidade Federal de São Paulo).

Dia 5 de novembro (na sala 111 do Departamento de Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas)
9 horas. Seção 4, “As afinidades eletivas entre Goethe e o ‘brasileiro’ Martius”, com Marcus Mazzari (USP), e “O pensar visível. Goethe, Schiller e a planta primordial”, com Magali dos Santos Moura (Universidade do Estado do Rio de Janeiro).
11 horas. Seção 5, “Afinidades eletivas: o romance de Goethe III”, “Hermenêutica e incompreensibilidade n’As afinidades eletivas”, com Wilma Patricia Maas (Unesp) e “Afinidades eletivas e processo social: fraturas expostas”, com Jorge de Almeida (USP).
14 horas. Seção 6: “Novas afinidades eletivas III”: “Estranho destino: sensibilidade em Herder e Goethe”, com Oliver Tolle (UFS), “Goethe na obra do jovem Lukács”, com Arlenice Almeida da Silva (Unesp) e “A química na época de Goethe”, com Phillip Wilhelm Keller (IFRJ).

Dia 6 de novembro (na sala 111 do Departamento de Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas)
9 horas. Apresentação de comunicações.
11h30. Encontro de trabalho do Grupo de Pesquisa Literatura, Arte e Filosofia na Goethezeit. Encontro de trabalho da Associação Goethe do Brasil e admissão de novos associados.
12h30. Encerramento