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A pequena grande sala de um mestre

Publicado por admin - Monday, 26 October 2009

HOMENAGEM

O dia a dia do professor Oswaldo Paulo Forattini, voltado à pesquisa entomológica, é homenageado pela Faculdade de Saúde Pública da USP. Desde o dia 21 de outubro, o seu acervo de insetos transmissores de doenças está exposto em uma sala aberta à visitação pública

A máquina Royal, de 1944, de teclas redondas, traz a lembrança de um datilógrafo e cientista compenetrado. Em um tec-tec contínuo, o professor Oswaldo Paulo Forattini escreveu inúmeros artigos e livros. Pesquisas que valeram o reconhecimento internacional como um dos especialistas de maior liderança no campo da saúde pública, epidemiologia e entomologia e também diversos prêmios, como a Medalha do Centenário do Instituto Oswaldo Cruz, o John Belkin Memorial Award e o Prêmio Jabuti.
O casaco de couro marrom também está sobre a cadeira, em frente à sua escrivaninha. É o mesmo casaco registrado em diversas fotos, quando o professor aparece em campo trabalhando com seus alunos. Há também o microscópio, a máquina fotográfica, o lápis e inúmeros desenhos.

A sala com a coleção de insetos e objetos pessoais de Forattini: à disposição de pesquisadores do Brasil e do exterior

A sala com a coleção de insetos e objetos pessoais de Forattini: à disposição de pesquisadores do Brasil e do exterior

São esses detalhes do cotidiano de quem dedicou a vida para a ciência que podem ser observados na sala Oswaldo Paulo Forattini, inaugurada no dia 21 de outubro, na Faculdade de Saúde Pública da USP. Porém, o mais importante é conhecer o acervo de insetos transmissores de doenças, considerado um dos maiores do País. Nessa coleção, há uma variedade enorme de artrópodes, onde estão os insetos vetores de agentes da malária, dengue, febre amarela, doença de Chagas e leishmaniose, entre outras doenças.
É essa pequena grande sala que guarda uma preciosa coleção entomológica de referência, que o Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública abre para  estudantes, pesquisadores, professores do Brasil e exterior e também para as escolas do ensino fundamental e médio. “Com esta iniciativa, esperamos evidenciar o reconhecimento internacional desta coleção e das pesquisas do professor Forattini”, afirma a professora Maria Lucia Lebrão, chefe do departamento. “Ao propiciar a visitação das escolas, a nossa expectativa é também incentivar futuros pesquisadores.”

Forattini: aulas brilhantes

Forattini: aulas brilhantes

A organização do acervo contou com a coordenação do professor José Maria Soares Barata. “Eu fui um dos seus alunos. Este acervo levou quase três anos para ser organizado. Acho muito importante divulgar a destacada produção científica do professor Forattini, com suas pesquisas, livros e centenas de desenhos ilustrativos.”

Dedicação à ciência – Quando passam pela frente da nova sala, os ex-alunos e atuais professores têm a referência de uma vida dedicada à ciência. “O professor Forattini era um dos primeiros a chegar. Às 6h30, ele já estava desenhando ou escrevendo suas pesquisas. Ele mesmo datilografava, pesquisava. E era sempre um dos últimos a ir embora”, conta a professora Maria Anice Mureb Sallum, que acompanhou suas pesquisas durante 30 anos.
O gosto pela música clássica – trabalhava ouvindo Mozart, Tchaikowsky, Beethoven –, o descanso na hora do almoço pesquisando nas livrarias do centro e da avenida Paulista e a energia e dedicação como orientador ficaram na lembrança dos ex-alunos. “Ele também gostava muito de arte e história. Era uma pessoa obstinada, enérgica, porém muito alegre. O seu empenho pela ciência era contagiante”, conta Maria Anice.
O professor Forattini nasceu no dia 10 de janeiro de 1924, em Rosário de Santa Fé, Argentina. Naturalizou-se brasileiro em 1946, ingressando em primeiro lugar na Faculdade de Medicina da USP naquele mesmo ano. Logo depois de se formar, passou a trabalhar como professor assistente no Departamento de Parasitologia e Higiene Rural da então chamada Faculdade de Higiene e Saúde Pública da USP. “A vida do professor sempre foi pontuada por desafios”, conta Soares Barata. “Colaborou com o professor John Lane, coordenador do curso de Entomologia Médica, suspenso com o falecimento de seu idealizador, em 1963. Aceitou o desafio de dar continuidade ao curso em 1970, reestruturado e denominado Epidemiologia Médico-Entomológica, coordenado por ele até 1984 e mantido por seus colegas. Também reestruturou a disciplina de Epidemiologia para alunos dos cursos de especialização e pós-graduação em Saúde Pública.”

O professor Barata: três anos para o acervo ser organizado

O professor Barata: três anos para o acervo ser organizado

A partir de 1980, o novo desafio do professor foi a ecologia, ciência que na época não era voltada para a saúde pública e medicina. “O professor Forattini visualizou as inter-relações entre esses campos”, lembra Maria Anice. “Ele propôs a criação da disciplina de pós-graduação Ecologia em Saúde Pública, ministrada por ele entre as décadas de 1990 e início de 2000. Suas aulas eram frequentadas por alunos de formações variadas, que incluíam sociólogos, advogados, biólogos, médicos e antropólogos, entre outros.”
Forattini foi um dos fundadores da Revista de Saúde Pública, de prestígio internacional, e seu editor por 40 anos. Faleceu no dia 15 de setembro de 2007, em São Paulo, aos 83 anos. “Um dos poucos, talvez o único professor de sua época, que prendia o interesse dos alunos com sua oratória e ‘dispositivos’, como ele costumava a chamar os slides”, observa a professora Roseli La Corte dos Santos. “As aulas eram brilhantes e promoviam discussões sempre acaloradas. Suas palestras eram viagens encantadoras pelo mundo da biologia, evolução, saúde pública, medicina e artes.”