Home » Comunidade

Uma armadilha para o Aedes aegypti

Publicado por admin - Tuesday, 3 November 2009

ADMINISTRAÇÃO
IZABEL LEÃO

Projeto busca combater a dengue na Cidade Universitária através da mobilização de toda a comunidade uspiana

Inovar. Esta é a proposta do Projeto Cidade Universitária Meu Ambiente, que busca enfrentar a dengue na Cidade Universitária, em São Paulo, envolvendo toda a comunidade. Com o objetivo de prevenir a doença, vai aliar tecnologia à educação e comunicação, com base na premissa de que a prevenção só se faz com a mobilização das pessoas, e não simplesmente através de campanhas temporárias.
Como a dengue desafia a todos e as ações de controle dessa doença no País não são eficientes para reduzir a sua incidência, a proposta do projeto é substituir a ação reativa pela ação proativa baseada na reflexão. “Ao invés de procurar a cura, queremos evitar a doença, discutindo a nossa relação de seres humanos com o ambiente em que vivemos”, ressalta Hamilcar José Ferreira de Miranda, assistente técnico de direção da Coordenadoria do Campus da Capital. “Essa proposta é uma semente de política de saúde pública para o campus.”
O Projeto Cidade Universitária Meu Ambiente é uma iniciativa da Coordenadoria do Campus da Capital, em parceria com a Faculdade de Saúde Pública da USP, Secretaria de Saúde do Município, Instituto de Pesquisa do Discurso do Sujeito Coletivo e Laboratório de Cartografia e Georeferenciamento do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.
A metodologia se baseia na implantação, em vários pontos da Cidade Universitária, de novas armadilhas, denominadas Adultrap, que conseguem, de modo muito eficiente, atrair as fêmeas grávidas do mosquito Aedes aegypti para expelir os ovos, aprisionando-as. “Captadas e identificadas as fêmeas do mosquito, as informações sobre as quantidades identificadas e os locais de maior concentração serão ‘georreferenciadas’, ou seja, colocadas em mapas, pelo Laboratório de Cartografia e Georreferenciamento e disponibilizadas publicamente em site, para que todos possam acompanhar e participar das atividades de prevenção da dengue e controle do vetor no campus”, explica Miranda.
Segundo Fernando Lefèvre, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, para vencer essa luta não basta apenas aspergir veneno ou colocar as armadilhas. Também são necessários esforços na área de ciência, tecnologia e controle, mediante estratégias de políticas públicas. “Quando dizemos que queremos a participação de todos, estamos afirmando que cidadãos, autoridades e técnicos da saúde precisam, cada um na sua esfera de competência, trabalhar de modo integrado. Não queremos somente a aspersão de veneno para eliminar o vetor do mosquito da doença e, sim, também uma integração e entendimento de todos do papel que exercemos no ambiente, não como algo exterior à nossa existência, mas como algo que nos pertence”, ressalta.

Saturação – A dengue hoje é vista pela sociedade brasileira como um evento cíclico, que todo ano se repete e que, justamente por isso, faz com que todos a pensem como algo destituído de maior importância. Lefèvre explica que, na verdade, o que ocorre é que a dengue é vítima de um processo de “saturalização”, neologismo que reúne os processos de saturação e naturalização da doença. “De tanto falar da dengue, tudo o que há de grave e preocupante nessa doença, cujo agente é carregado por um vetor altamente bem adaptado à vida urbana moderna, torna-se informação saturada, fazendo com que se passe a ver a doença como algo quase natural ou banal.”
As ações educativas e de comunicação empregadas até o momento para o controle da dengue não são eficientes. Miranda explica que as autoridades sanitárias tentam jogar na cabeça do cidadão comportamentos e ações que supõem que a população vai realizar para o controle da doença, como é o caso das campanhas televisivas de não deixar água acumular nos pratos dos vasos, em garrafas e pneus vazios. No entanto, para Miranda, essas campanhas são autoritárias e unidirecionadas, o que acaba não produzindo o efeito desejado. “Acreditamos que o cidadão toma uma postura de responsabilidade perante determinada ação a partir do momento que ele entende o porquê das ações recomendadas, admite para si mesmo as consequências da sua não-ação e tenha os caminhos facilitados para atuar na direção desejada”, reflete.

Lefèvre (ao fundo) e a instalação da nova armadilha no campus: efi ciência

Lefèvre (ao fundo) e a instalação da nova armadilha no campus: efi ciência

Por isso é preciso pensar além do que tem sido feito até o momento com as campanhas, que se mostram cada vez mais ineficientes, acrescenta. Esse “ir além”, para a equipe envolvida com o projeto, é mudar radicalmente o modo como as coisas vêm sendo feitas, “buscando uma apropriação coletiva das informações e dos instrumentos técnicos de combate à dengue, que precisam ser democratizados, tornados públicos, visíveis e compreensíveis”, segundo Lefèvre e Miranda.
Os organizadores do projeto estão convencidos de que a democratização da informação é a direção correta e eficaz. Para eles, o combate à dengue aumenta muito as chances de se tornar eficaz, na medida em que envolve uma efetiva ação de responsabilidade coletiva, e que só se consegue isso com a democratização da informação.
Paralelamente às atividades de divulgação (outdoor, folder e cartazes) e prevenção com as armadilhas, acontecerá uma série de ações de pesquisa e educação a distância, bem como atividades de performance artística, envolvendo o tema da dengue. Uma videoanimação e um website do projeto estarão disponíveis na internet e uma animação flutuante – representando um mosquito – vai interagir nos sites da USP. Performances serão realizadas nas salas de aula e ambientes de convivência, como um convite a alunos, professores e funcionários para despertarem para o entendimento da relação entre o mosquito e os seres humanos. “Tudo para poder não apenas prevenir a dengue, mas também entendê-la coletivamente”, analisa Lefèvre.

Nova forma de capturar o inseto

A armadinha Adultrap, fabricada por João Edson Donatti para a captura de fêmeas do Aedes aegypti, foi apresentada à Secretaria de Estado da Saúde do Paraná e após várias pesquisas comprovou-se sua eficácia. O princípio para captura e apreensão é mecânico, baseado na arquitetura do equipamento, e não utiliza produtos adesivos ou elétricos. A isca indicada é a água, o que dispensa gastos com produtos atraentes e trabalhos com a produção, aquisição e substituição da isca, apesar de poder ser utilizada com outras substâncias.
O período de exposição de 24 horas é suficiente para gerar capturas. Deve-se preferir, para a instalação, locais abrigados do sol e livres da queda de folhas. Pode ser instalada desde a altura do solo até a um metro dele. O inseto é coletado íntegro, o que possibilita a identificação do vetor no local de captura e o exame de isolamento viral ou outros que necessitem do inseto nesse estado de conservação. O equipamento foi projetado com sistema de biossegurança, o que faz com que não se transforme em criadouro. É possível a captura de outras espécies de acordo com a isca, sendo operacionalmente viável.

Um mosquito resistente

O Aedes aegypti tem, no dorso, a “marca” de uma lira (instrumento musical). A fêmea se alimenta de sangue e pode viver cerca de 40 dias. Os machos vivem menos e se alimentam de açúcares. Os ovos são colocados em recipientes, pouco acima do nível da água. Após o desenvolvimento embrionário, o ovo resiste em recipiente seco, por mais de um ano, e na estação chuvosa ou quando as pessoas colocam água nesses recipientes os ovos dão origem às larvas. O processo de desenvolvimento das fases ovo, larva, pupa e adulto demora em média de sete a dez dias, dependendo da temperatura. O desenvolvimento das larvas se dá em água tratada, mas mesmo a água com certo grau de sujidade pode ser ambiente favorável ao mosquito. Na prática, em qualquer recipiente com água, mesmo natural, como plantas que retêm água, as larvas se desenvolvem.