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USP presente na reconstrução

Publicado por admin - Sunday, 31 January 2010

PATRIMÔNIO
IZABEL LEÃO

Professores da Universidade formam comissão para contribuir com o reerguimento de São Luiz do Paraitinga – a cidade sofreu enormes prejuízos com as enchentes da virada do ano

Reunidos em missão voluntária, seis professores da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) e da Escola Politécnica (Poli), além de um doutorando da FAU, constituem a comissão interdisciplinar nomeada
pela reitoria da USP para contribuir com o replanejamento urbano da cidade de São Luiz do Paraitinga. A cidade sofreu enormes prejuízos após a enchente avassaladora ocorrida durante os dias 1º e 2 de janeiro, e terá de ser reestruturada na parte física, econômica, social e cultural, para voltar a reluzir como a “Ouro Preto” do café do Estado de São Paulo. Ao lado dos professores Kokei Uehara, Sylvio Barros Sawaya, Wi told Zmi t rowicz, Antonio Claudio Pinto da Fonseca e Fellipe Abreu Lima, o Jornal da USP esteve na cidade no dia 23 de janeiro, sábado, para acompanhar a reunião realizada com a equipe da prefeitura de São Luiz, quando foram iniciados os trabalhos de replanejamento da cidade. O rio Paraitinga invadiu as ruas históricas da cidade – tombada pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado (Condephaat) – a uma altura de 5 metros, derrubando um quarto do patrimônio histórico e causando grande destruição em arquivos, documentos da prefeitura e objetos pessoais de centenas de moradores. Foram 300 imóveis danificados, 40 deles tombados. A Igreja da Matriz, do século 19, e a  de Nossa Senhora das Mercês, do século 18, ruíram. Quase cinco mil
moradores – metade da população – encontram-se desabrigados, gerando uma grande crise econômica e social no município. Embora a população atingida ainda viva de doações, aos poucos recupera a autoestima. Muita sujeira já foi retirada das ruas. Os casarões da Praça da Matriz que se encontram em perigo já foram escorados. As igrejas da Matriz e  das Mercês, totalmente desmoronadas,foram isoladas com faixas de interdição. Um plano diretor foi desenvolvido pelo professor da Unesp José Xaides Sampaio, que desde 2005 auxilia, como pesquisador, cidades de pequeno porte a constituir esse instrumento básico da política de desenvolvimento municipal. Um plano diretor tem como principal finalidade orientar  a atuação do poder público e da iniciativa privada na construção dos espaços urbano e rural na oferta
dos serviços públicos essenciais.

Posto avançado – A comissão composta por professores da USP estará ocupada com as questões de ordenamento urbano, organização  da paisagem rural e planejamento hídrico. O diretor da FAU, professor Sylvio Barros Sawaya, deixa  claro que cabe à Universidade assessorar a equipe da prefeitura a desenvolver o planejamento. A questão da preservação, explica Sawaya, ficará a cargo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), ligado ao Ministério da Cultura. Na reunião, Sawaya propôs a criação de um posto avançado da USP na cidade para o desenvolvimento  de pesquisas, ensino e extensão. Também sugeriu a criação de um Centro Tecnológico de Atividades Tradicionais, onde seria formada mão-de-obra local  em ofícios como seleiro (quem trabalha com couro, uma vez que a cidade era caminho de tropeiros), rendeira e doceira, entre outros. “Com isso estaremos criando um impacto social e econômico baseado nas atividades tradicionais. Os turistas iriam visitar a cidade para conhecer e comprar os artigos produzidos”, exemplifica. A equipe de professores tem 120 dias para emitir um parecer para as ações emergenciais e propor diretrizes para um convênio entre USP e prefeitura que dê continuidade
aos trabalhos interdisciplinares de recuperação da cidade. Kokei Uehara, docente aposentado da Poli, deixa claro que os professores da Universidade participam dessa ação por idealismo, sem nenhum interesse econômico. “Nossa ajuda é na intenção de contribuir com o que de melhor temos de conhecimento em nossas áreas específicas”, diz. O professor Antonio Claudio Pinto da Fonseca, pesquisador da FAU, ressalta a importância da comissão em garantir a segurança da cidade, trabalhando as demandas imediatas e prevenindo-a de um eventual aumento de chuvas, uma vez que estamos em pleno período de chuvas no Estado.
Witold Zmitrowicz, professor da Poli e engenheiro que desenvolveu projetos de planejamento municipal na cidade de São Paulo, propôs ações emergenciais como distribui ão imediata de alimentos  indispensáveis à população, até ser  estaurado o funcionamento do comércio e dos serviços necessários para garantir a sobrevivência; abrigos locais para funcionamento provisório do comércio e serviços
indispensáveis como saúde e educação; assim como a recuperação imediata das estradas. “Com minha experiência acredito poder contribuir muito com a reestruturação da cidade”, afirma.
Os serviços de água, esgoto, limpeza de vias e coleta de lixo já estão com as atividades normais restabelecidas, segundo o secretário adjunto de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo, Ricardo Toledo e Silva. O que mais preocupa o secretário é a quantidade de chuva que ainda irá cair até o final o verão. Para minimizar danos futuros, o Departamento de Águas e Energia Elétrica do Estado (DAEE) está fazendo um levantamento da infraestrutura hidráulica dos rios Paraitinga, Paraibuna, Chapéu e de seus afluentes. Em conjunto com o professor Uehara será preparado um plano de macrodrenagem que irá vistoriar a bacia dos rios, que engloba também as cidades de Cunha, Natividade, Lagoinha e Paraibuna. Uehara, um dos maiores especialistas em construção de barragens do País, deixa claro que o plano demorará seis meses para ser traçado, pois é necessário buscar dados de vazão da água e nível de precipitação na área urbana e  na rural. Questionado durante a reunião sobre a importância da construção de uma barragem em
regime de urgência, ele lembrou que um empreendimento desses emora muito tempo, necessita de muito dinheiro e no caso de desvio da água do rio, como alguém propôs, diminuiria apenas um pouco
a velocidade da água, mas não resolveria o problema das enchentes. “Enquanto não tivermos um mapeamento claro, fica difícil traçar metas de imediato”, aponta. Novas inundações – O panorama atual da cidade, segundo a prefeita Ana Lúcia Bilard Sicherle (PSDB), mostra que a inundação não se deveu ao represamento de água em algum ponto dos rios,  e sim ao excepcional volume de precipitação da chuva em poucas horas. “Um grande volume de água para um solo já encharcado depois de uma longa temporada de chuvas é um perigo”, explica Uehara. Para Ana Lúcia, o estudo hidrológico procurará mostrar que
obras devem ser feitas para que não mais ocorram inundações – que de fato são velhas conhecidas da população de São Luiz. “Teremos que ser firmes, não deixando haver construções nas encostas dos
morros e não permitindo desmatamento no entorno da cidade para a plantação de pastos e eucaliptos”, afirma a prefeita.  O geógrafo Aziz Ab’Saber, nascido na cidade, concorda com a prefeita. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo no dia 10 de janeiro, o Professor Emérito da USP explica que a grande quantidade de água desceu dos patamares de morros e chegou aos terraços com
deslizamentos de blocos de terra, árvores e pedaços de rocha, causando a tragédia devido à falta da floresta natural. O que tem angustiado muito a todos os envolvidos na recuperação da cidade é a  possibilidade de ocorrerem novas enchentes, uma vez que a cidade foi construída em área propensa a inundações. Para minimizar o prejuízo, Sawaya propõe que a cidade se expanda em outras áreas, fora da região central. Também pede que sejam evitados cortes e aterros das vias,  inclusive na área de implantação de um conjunto da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), que já tem
terreno definido e irá construir 150 casas para os moradores que perderam tudo. O diretor de Turismo da cidade, Eduardo de Oliveira Coelho, lembrou que também é urgente dar atenção às questões sociais e
aos problemas econômicos de São Luiz, que se encontra sem capital de giro. “Precisamos pensar em como restabelecer o turismo local e os negócios”, diz. De acordo com Coelho, muitos negociantes estão sem dinheiro para retomar seu empreendimento e, mais grave ainda, para pagar os salários atrasados, o que pode acarretar em alto nível de desemprego. A prefeita Ana Lúcia explica que um empréstimo com carência de dois anos já foi solicitado ao governo do Estado. O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) também cederam
500 vagas para cursos gratuitos de pedreiro, pintor, encanador e outras atividades, que serão ministrados na própria cidade. No dia 2 de fevereiro haverá nova reunião coma comissão de professores da USP
para encaminhamento de ações nas áreas social e econômica de São Luiz do Paraitinga.