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Josef Pieper e as paixões humanas

Publicado por admin - Tuesday, 23 March 2010

FILOSOFIA
ROBERTO C. G. CASTRO

Seminário Internacional em São Paulo expõe ideias de um dos mais importantes filósofos do século 20, que insistia na necessidade da união entre razão e emoção

As emoções – principalmente o amor – ligam o homem à realidade das coisas. Quem quer agir bem e de modo justo deve manter um “equilíbrio cognitivo”, em que o sensível e o intelectual, o desejo sensível e a vontade racional não se prejudicam e se enfraquecem, mas se apoiam e se fortalecem mutuamente.
Essas afirmações foram feitas pelo filósofo alemão Berthold Wald, atual reitor da Theologische Fakultät de Paderborn, na Alemanha, durante o 10º Seminário Internacional Filosofia e Educação, promovido nos dias 13 e 15 de março pelo Centro de Estudos Medievais Oriente & Ocidente (Cemoroc) da Faculdade de Educação da USP. Realizado no Centro Universitário Assunção (Unifai), na Vila Mariana, em São Paulo, o seminário foi organizado também pelo Unifai e pelo Instituto Jurídico Interdisciplinar (IJI) da Universidade do Porto, em Portugal.Em sua palestra, proferida no dia 15, Wald se baseou no pensamento do filósofo alemão Josef Pieper (1904-1997), um dos maiores intérpretes contemporâneos do teólogo medieval Tomás de Aquino (1225-1274). Para Wald, existe um componente racional já na percepção sensível do mundo. Isso é verificado, por exemplo, nas reações de crianças pequenas anteriores a qualquer reflexão – como ocorre quando o bebê experimenta o afeto da mãe imediatamente num sorriso, como conteúdo transmitido pelas sensações. “Já há uma apreensão sensível que distingue entre figuras do agradável e do bom ou do mal. Essas figuras, portanto, não são geradas apenas posteriormente por meio do intelecto, que daria uma forma a sensações amorfas.”
Recusando o “realismo ingênuo” que considera autônomas as faculdades do homem – suas paixões, razão e vontade –, Wald destacou que a razão pode e deve governar o ser humano, não pela repressão das paixões, mas “informando” todas as potências da alma. “Só assim o homem é livre e senhor de si mesmo, e só então também é bom. Ser bom significa corresponder em conhecimento e amor à realidade concreta que já se apreende pelas emoções”, acrescentou Wald, que é editor da obras completas de Josef Pieper, publicadas pela Editora Meiner, de Hamburgo, em 11 volumes – mais um CD com todos os textos do filósofo alemão.

Wald (ao microfone): o amor leva ao conhecimento mais profundo

Wald (ao microfone): o amor leva ao conhecimento mais profundo

Boécio e Cassiodoro – Josef Pieper foi tema de outras palestras dadas no seminário ao longo do dia 13. O professor Jean Lauand, docente da Faculdade de Educação da USP e diretor do Cemoroc – por exemplo –, destacou as análises do filósofo alemão sobre dois educadores do século 6, Boécio e Cassiodoro. Vivendo no início da Idade Média, quando povos bárbaros ocupavam o que antes havia sido o território do Império Romano, esses homens foram responsáveis pela preservação e transmissão de parte do legado cultural clássico, que sem eles teria se perdido para sempre.
Em meio à depressão cultural causada pelas invasões bárbaras, Boécio traduziu obras do filósofo grego Aristóteles e escreveu tratados de música, aritmética e geometria, enquanto Cassiodoro foi responsável pela “transferência” da cultura para os mosteiros, que a partir dele passaram a se dedicar à cópia dos livros antigos. “Um educador que contemple a dramática situação do ensino hoje, com a ausência não só dos grandes clássicos, mas das mais elementares bases do pensamento, se sentirá imediatamente muito próximo de Boécio”, disse Lauand, citando Pieper. Quanto a Cassiodoro, acrescentou o professor, a sua grande contribuição foi perceber que o componente fundamental para a educação, a skholé – ou seja, as condições de tranquilidade e abertura da alma para o estudo – só podia se dar, naquela época, nos mosteiros.

O público presente no seminário: equilíbrio entre razão e emoção

O público presente no seminário: equilíbrio entre razão e emoção

Educação – Interdisciplinar, o 10º Seminário Internacional Filosofia e Educação discutiu vários outros temas ligados à cultura do Ocidente e do Oriente. A professora Aida Ramezá Hanania, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, falou sobre o artista árabe Hassan Massoudy, nascido no Iraque em 1944. Segundo Aida, Massoudy é um exemplo de que cada cultura produz os meios de expressão artística adequados a si mesma. O professor Ricardo da Costa, da Universidade Federal do Espírito Santo, abordou dois pensadores do século 12, Bernardo de Claraval e Pedro Abelardo. Houve ainda palestras sobre a educação contemporânea, a educação segundo a filósofa alemã Hannah Arendt, o samba como elemento cultural constante do pensamento latino-americano, a identidade e a formação dos docentes, políticas públicas de inclusão escolar e a humanização da educação dos jovens da Fundação Casa.

Os Anais do 10º Seminário Internacional Filosofia e Educação podem ser solicitados através da página eletrônica do Centro de Estudos Medievais Oriente & Ocidente (www2.fe.usp.br/~cemoroc).

As virtudes pós-modernas

As virtudes humanas foram o tema da palestra proferida pelo professor Paulo Ferreira da Cunha, diretor do Instituto Jurídico Interdisciplinar (IJI) da Faculdade de Direito da Universidade do Porto, no 10º Seminário Internacional Filosofia e Educação, no dia 15 de março. Depois de comentar as quatro virtudes clássicas (prudência, justiça, fortaleza e temperança) – que, a partir do filósofo grego Platão, foram assimiladas e legadas pelo cristianismo à modernidade –, Cunha citou personagens do mundo grego e romano que realizaram ações exemplares. Um deles foi o imperador Trajano (53-117), que se notabilizou em várias áreas e foi considerado o maior imperador romano. O espartano Leônidas morreu heroicamente no Desfiladeiro das Termópilas, em 480 antes de Cristo, acompanhado de apenas 300 guerreiros. “A história e a lenda contam numerosos ditos que atestam a sua bravura nessa derradeira defesa contra os persas comandados por Xerxes”, destacou Cunha.

Paulo Cunha: virtudes para hoje

Paulo Cunha: virtudes para hoje

Inspirado no escritor italiano Italo Calvino (1923-1985), Paulo Ferreira da Cunha se referiu ainda ao que chamou de “virtudes pós-modernas” – aqueles comportamentos considerados essenciais para se viver bem em pleno século 21. Entre essas virtudes encontram-se a agilidade e o pluralismo. “Os tempos atuais são acelerados. Requer-se uma desenvoltura, que pode ser também rapidez de compreensão das mudanças e agilidade de espírito, com agudeza”, disse o professor, a respeito da agilidade. “O monismo, o confinamento, a cristalização, a avareza (e miopia) que guarda uma só área do saber, ou uma única ideia, têm os dias contados. Para o bem e para o mal, o mundo atual é já muito vário, fragmentário e plural”, acrescentou, justificando a virtude do pluralismo.
Mas há outras virtudes necessárias nos tempos atuais, além da agilidade e do pluralismo. São necessárias também a leveza (“O mundo atual é mundo light. Ele tem de ter leveza, que também pensamos dever ser adaptabilidade, maleabilidade mentais e vivenciais”), rigor (“Já vemos na contemporaneidade muita improvisação. A exatidão, o rigor, a precisão são indispensáveis”) e coerência (“Até como contraponto à variedade e à fragmentação, é necessária a coerência ou consistência). Por fim, citando o filósofo francês Alain Finkielkraut, Cunha destacou uma última “virtude pós-moderna”: um coração inteligente. “Sem a inteligência afetiva não se pode ir muito longe. Pelo contrário, com um coração inteligente, vai-se aonde a razão só e o coração só não permitem”, finalizou o professor.